Sobras de um amor

12

 

Márcio ficou atônito com a reação, seguida da fuga espetacular de seu entrevistado. Saiu em disparada do bar e por mais que o entrevistador tentasse entender, através do olhar, para onde Amadeu teria ido, não fazia a menor ideia. O negócio então, era ir para casa e pensar em alguma coisa a ser feita naquela noite.

Mas antes de ir embora conversou com Rodolfo, lhe perguntando se poderia deixar com ele o número do seu celular e, caso Amadeu voltasse a noite, lhe avisasse. O garçom, mediante uma gratificação, aceitou a empreitada, já que ficaria ali até às oito da noite.

Ao chegar em casa, pegou um livro em sua estante, encheu o copo com o conhaque que ainda restava na garrafa e tentou ler alguma coisa, mas não conseguia avançar mais do que um parágrafo. Sua mente estava agitada com aquela fala de jogo de xadrez que o beberrão tinha lhe dito de chofre. Não havia nenhuma mulher na rua. Márcio achava que as alucinações atormentavam Amadeu somente as noites e depois de beber muito.

“Claro que não! Posso apostar que é quase que diária. Ele se apresenta como normal e depois vai piorando. Uma hora são as calcinhas, outras vezes mulheres vestidas de branco e preto simulando uma partida de xadrez”, pensou o jornalista.

Acabou de tomar a bebida, voltou a folhear o livro e parou numa página que a história parecia interessante. Falava da II Guerra Mundial e a ocupação da França pelas tropas nazistas. Nem chegou a ler direito o assunto, acabou cochilando no sofá, com o livro pendendo para o lado.

Ficou nessa posição por um bom tempo, quando o barulho do celular o acordou de sonos maravilhosos com imagens apontando que finalmente tinha encontrado a mulher que idealizara desde a adolescência. Atendeu a chamada. Era Rodolfo dizendo que Amadeu havia voltado, completamente estranho, olhando para todos os lados e se sentando na mesma mesa e pedindo outra garrafa de uísque e já havia bebido duas doses dupla.

– Segura ele que já estou indo.

– Pode ficar tranquilo. Ele está naqueles colóquios com o próprio cérebro. Não está falando coisa com coisa! Ele se levanta faz movimentos estranhos. Agora mesmo, parece estar fazendo um L.

Para quem joga xadrez, esse é o movimento que o cavalo faz. Portanto, pela narrativa do garçom, Márcio acreditava que Amadeu estava jogando xadrez, mas com quem? Será que estava vendo um oponente e tentava lhe explicar o movimento que estava fazendo.

Márcio chegou ao bar, meia hora depois e Amadeu já estava na segunda garrafa de bebida. O jornalista não pensou duas vezes. Pegou uma garrafa de conhaque e foi direto para a mesa, sentando sem ser convidado.

Amadeu olhou de soslaio para ele, perguntando; “- O senhor é o juiz da partida? Se for, pode ficar, mas se não, dê o fora deste lugar. Só o relógio me basta!”

– Amadeu! Sou eu, Márcio!

– Eu quem porra?

– Eu, Márcio o repórter que está te entrevistando!

– Não dou entrevista antes do jogo. Depois que a partida acabar, eu falo como foi a disputa. Agora não dá.

Márcio olhou bem dentro dos olhos de Amadeu e percebeu que, à moda esquizofrênica, o bêbado estava em outra dimensão. O melhor a fazer era deixa-lo nesse universo e esperar ele voltar.

Meia hora mais tarde, Amadeu se dirigindo a Márcio lhe disse:

– Doutor, eu ofereci a elas o empate. Se não fosse assim, não me dariam sossego como as erínias que correm atrás dos filhos que matam suas mães.

– Está certo, penso que você fez o correto, Amadeu. Agora podemos nos concentrar em outra coisa? Por exemplo…

– Naquelas calcinhas atômicas que atormentam o senhor constantemente?

– Pare com essa porra de calcinhas alucinadas que perseguem os homens que não sabem respeitar as suas donas. Se concentre em nossa conversa, Amadeu. Estou perdendo a paciência!

Diante do nervosismo, Amadeu, desta vez, sem olhar para o relógio, pegou a sua garrafa e sumiu novamente na noite escura, em que raios riscavam o céu indicando uma noite chuvosa.

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