Sobras de um amor

10

 

            “O que fazer agora”, pensava Márcio que contava com o desfecho da história. A saída era ligar para o chefe e lhe explicar o ocorrido. Sabia que a bronca era certa, pois não teria o material para publicar no domingo, conforme o combinado. “Mas é melhor levar alguma coisa e ver se é possível. Caso não dê certo, consigo mais uns dias”, disse para si mesmo o repórter em voz alta.

Sentou diante do computador e começou a pensar num título para a história: “O doidivanas e suas calcinhas assassinas”; “O bêbado perseguido por lingeries”; “Lingeries alucinadas”; “Lingeries que perseguem alcóolatras”. Pensou, pensou e nada dava sentido. Ninguém iria comprar a história. Era publicar no domingo e ser demitido na segunda-feira. Novamente ficou olhando para o vazio e escolheu um dos títulos pensados, só para começar a narrativa e na redação, qualquer coisa, mudaria a chamada para a matéria.

Terminou o texto até o ponto daquela noite e foi dormir, mas por precaução checou as janelas. “Quem sabe se as tais calcinhas não vão aparecer para me assombrar. Cruzes! Estou ficando parecido com Amadeu. Quero terminar logo esse material e me afastar daquele maluco”.

Chegou cedo na redação do jornal e foi direto da sala do redator, já falando sobre a reportagem e o material que pretendia publicar, inclusive sobre o título. O chefe o escutou em silêncio e depois lhe disse:

– Deixa eu ver esse texto.

Roberto leu atentamente as quatro laudas e em seguida olhando para o repórter e sentenciou.

– A história é muito boa, porém, o título é um horror! Faremos assim, vamos colocar uma chamada provisória e pedir para o leitor, no final das publicações, escolher o título e, dependendo do tamanho, podemos transformá-lo em livro. O que acha?

– Uma ótima ideia Roberto! Entretanto, terei que falar mais vezes com o Amadeu, mas o cara é meio desparafusado. Não fala coisa com coisa. Há dias que ele parece ser completamente normal, mas em outras ocasiões, aparece com os olhos esgazeados parecendo que está em outro mundo, dizendo que enxerga uma mulher trocando de lingerie no fundo do copo!

– Façamos o seguinte: não coloque em dúvida a sanidade dele, acompanhe o seu raciocínio e, todas as noites, você escreve o que coletou e me mande por e-mail. No sábado, venha aqui e ajeitamos todo o texto. Também já teremos uma repercussão dos leitores sobre a história. Se eles querem que continuemos ou não!

Márcio olhou para o chefe com certo enfado, pois queria terminar logo aquela matéria e Roberto vinha com essa história de alongar as entrevistas. O repórter, em seu íntimo, sabia que não aguentava mais as viagens em torno de si mesmo que as conversas com Amadeu o forçava fazer.

No começo da tarde saiu da redação, indo direto para o mesmo restaurante que almoçava todos os sábados. Sentou-se na mesma mesa, repetindo as mesmas atitudes da semana anterior. Olhou para os talheres e observou que eles estavam no sentido contrário. Os posicionou de forma correta. Saiu, contou os passos até o local em que ficam depositadas a comida. Pegou a mesma quantidade de produtos da semana anterior e colocou na balança. Tirou do bolso um caderno de anotações onde conferiu uns valores e números. “Exatamente o mesmo da semana passada”, pensou o jornalista.

Sentou-se novamente, colocando a mesma quantidade de comida do sábado anterior, deu mastigadas semelhantes as anteriores e pensou; “Aquele Amadeu é mesmo pirado! Ficar falando que está sendo perseguido por lingeries assassinas, vendo mulheres no fundo do copo trocando de roupa íntima! Somente um doido para ver e acreditar nessas coisas!”

Terminou a refeição, limpou o prato com um pouco de água que havia ficado na garrafa. Bebeu o líquido para que ficasse tudo limpo e nem um pouco de comida sobrasse. “Não se podia desperdiçar nada, pois muita gente passando fome. Como posso fazer uma ótima refeição, tenho que fazer jus e não jogar nada fora”, falou baixinho como se propalasse uma oração.

Caminhando pelas ruas da cidade, ficou imaginando Amadeu correndo desesperadamente no meio da noite gritando para que os lingeries não o assassinasse. Seria engraçado encontrá-lo durante essas alucinações. “Deve ser terrível não saber distinguir o que é real do que é fantasia. Mas isso não é comigo e sim com os doidos que não distinguem a de b”. Tendo esse pensamento como parceiro, quando Márcio deu por si estava diante do bar da Net. Automaticamente olhou para o relógio que fica no alto atrás do balcão. Observou que ainda era cedo, portanto, Amadeu não deveria estar lá. Sendo assim, poderia sentar-se à mesa e ficar bebericando à vontade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *