Olhar Crítico

Medo

O filósofo dinamarquês Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855), autor de significativas obras como O conceito de angústia, afirmou certa vez que o homem tem medo de ter medo. Parece-me que essa observação pode ser transposta para os debates em torno das problemáticas envolvendo o racismo. Mas antes de adentrar propriamente nessas questões, acho interessante transcrever aqui um pequeno excerto do livro da penapolense Mia Koda sobre o universo dos transtornos, dos medos, das ansiedades e demais fobias. “Os Transtornos relacionados à ansiedade compartilham de excessivo sentimento de medo. No entanto, o medo, por si, só não é um sintoma de transtorno já que sentir medo é útil para a nossa sobrevivência. Quando nos referimos ao medo, falamos de um sentimento de ansiedade frente a um objeto, uma ameaça iminente e real e que nos leva a possibilidade de três tipos de comportamentos: paralisia, fuga ou enfrentamento” [Pânico: entendendo o transtorno. Belo Horizonte, MG: Dialética, 2020, p. 17].

 

Interpelações

Mas o que essa temática exposta no final do aforisma anterior tem a ver com as questiúnculas envolvendo o racismo no Brasil? Parece-me que nada! Contudo, quando buscamos as raízes dos fenômenos sociais que desaguam no preconceito racial, a pergunta que fica é: o que leva um ser humano a se sentir melhor do que seu semelhante, em virtude da tonalidade da pele? Esse sujeito reprodutor dessa ação já veio ao mundo assim, isto é, nasceu racista ou se tornou ao longo do tempo e por influência do seu meio social que o gestou? Por que o medo em relação aos descendentes de africanos? Por que usar adjetivações que denigrem esse “outro”, tirando-lhe a sua voz por meio de um discurso violento em sua estrutura verbal e simbólica? A sociedade deve agir ou reagir ao racista e seu sistema decrepito de classificar o semelhante a partir da ideia tosca de que se é melhor do ele? Voltarei a essa temática em momento alvissareiro, meus caros leitores.

 

Fenômeno social

Como a questão racial, enquanto fenômeno social, diz respeito ao universo da política, pois é de lá que pode se agir contra essas formas caquéticas de se viver em sociedade, me enveredo pela seara do mundo da representação do cidadão, seja no Legislativo ou no Executivo: instituições, cujos postos são ocupados por pessoas escolhidas por meio de eleições diretas. Portanto, é através da democracia participativa que se pode mudar algumas questões alusivas ao universo do racismo. Neste sentido, observemos o próximo prefeito e quantos negros farão parte do seu secretariado. E se não houver nenhum, qual será a justifica de um político eleito pelo voto de toda uma sociedade a partir dum discurso de renovação.

 

Referenciais

Sempre tenho dito em vários momentos que enquanto o referencial do preto não for outro preto, dificilmente será alterado o atual quadro da nossa sociedade. Ou seja, para a criança negra se faz necessária outras referências de ascensão social que não seja apenas o jogador de futebol e o pagodeiro, para ficar na esfera da positividade do existir. Mas como dizia o escritor carioca, Machado de Assis (1839-1908), não basta alterar a letra fria da lei, é preciso ir mais longe, mudar os hábitos e esses devem vir por intermédio de ações e não de reações. Talvez por ainda se estar num campo da reatividade é que a sociedade não conseguimos avançar nessa problemática e apresentar soluções e ainda ficar refém dos gritos senzaleiros. Pelo menos, é desta maneira que enxergo a peleja nesse Brasil de início de século XXI.

 

Secretariado

Mas voltando ao grupo que venceu o último pleito municipal para comandar a cidade a partir de 2021, dois nomes que comporão o secretariado já estão definidos e ambos têm significativa formação para os cargos anunciados. Inclusive, é alvissareira a decisão de deixar para a vice-prefeita a escolha do titular para a pasta de Saúde. Afinal, ela é da área e penso que deve ser ocupada por profissional que entende do riscado, como se diz no jargão popular. Sei que existem aqueles que pensam diferente. Estamos numa democracia e o espaço para a divergência é garantido, todavia, o que a operação Raio-X revelou pode servir para que haja uma outra visão sobre essa questão.

 

Acerto

Outra atitude que, entendo ser acertada, é tanto o prefeito quanto a vice trabalharem na mesma sala. Inovação! Agora, essa ideia de porta do gabinete aberta à população, me parece ser mais uma questão de marketing. Talvez o prefeito esteja pensando em deixar o gabinete disponível à população, mas é preciso entender que se está montando um secretariado, este deve ter autonomia e é lógico, competência para equacionar as demandas que advirão da população, por intermédio dos vereadores e também dos mais de 30 conselhos comunitários. Seria alvissareira a criação de um órgão que congregasse todos esses órgãos e promovesse encongro pelo menos a cada dois meses para cruzarem as demandas, por exemplo, da educação, da assistência social, do esporte e cultura, etc.

 

Vereança

Já que toquei no assunto da vereança, é preciso entender como funcionará a Câmara Municipal. Compreender o desenho que a mesma terá a partir de 2021. Se o prefeito terá maioria, sem precisar fazer concessões para governar ou se precisará de articulação política. Pelo que se sabe a partir do imbróglio com o diretório local do PSDB, a querela vai ser rusgada desde o início. Talvez aí a escolha para a Secretaria de Governo tenha esse objetivo, pois a definição recaiu sobre um cientista social com significativa formação em duas importantes universidades brasileiras: UFSCar e Unesp. A articulação política será necessária e deve começar agora, objetivando a presidência e a vice-presidência do legislativo e os cargos de 1.º e 2.º secretários.

 

Renovação

Se por um lado, os eleitores indicaram que desejavam a Câmara Municipal com outra cara, tendo em vista que 9 dos atuais 13 vereadores foram defenestrados por meio do voto direto – eis a democracia -, por outro, entendo que os partidos políticos também precisam se reciclar. Por exemplo, independentemente do que acontecer no pleito da capital paulista, o feito do PSOL com Guilherme Boulos á frente marcará significativamente aqueles que se colocam à esquerda do espectro político nacional em junção com o governador do Maranhã, Flávio Dino de Castro e Costa, do PC do B. Em Penápolis, o PT conseguiu conquistar uma vaga no legislativo. O PSOL também deve vir forte nos próximos anos, atraindo para si a juventude que se politizará com os novos ares da política penapolense. O PV precisa ser rearticulado e também dar o ar da graça, como se diz no jargão popular. E o PSDB o que fará? Depois da saraivada leva nas urnas, com alguns de seus quadros sendo alijados da Câmara através das urnas, será que conseguirá manter-se de pé? Essa segunda implosão da legenda tem nome e endereço. Voltarei a essas querelas num momento alvissareiro. E-mail: gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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