Olhar Crítico

Política

Começo meus aforismas dominicais uma semana após o término das eleições municipais em Penápolis, cujo resultado todos os meus leitores são cônscios: Caíque Rossi (PSD) – ex-pupilo do atual prefeito que, num passado não mundo distante arvorou-se o ungido da terceira via da política penapolense – eleito para administrar a cidade a partir de 2021. O desafio é enorme, pois há passivos em diversos setores da cidade, começando pela economia que está perto da UTI, além da questão alusiva à pandemia que parece não dar trégua um segundo se quer. Embora tenha ficado quatro anos distante dos holofotes, Caíque terá que se desvencilhar também de sua ligação pretérita com o atual chefe do Executivo.

 

Vereadores

Dos 13 vereadores, quatro foram reconduzidos aos seus postos, porém, com o sinal de alerta de sobreaviso. Uma análise rápida indica que os outros nove foram ejetados dos assentos do Legislativo em virtude do imobilismo e passividade diante da crise deflagrada no setor de saúde por conta da Operação Raio-X efetuada pelo Gaeco. Interessante notar que as investigações não começaram nos últimos meses, mas sim, há dois anos e a Câmara assistindo a tudo como se estivesse observando uma parada militar. Todo parasitismo tem seu preço e o custo foi a extirpação de três terços dos ocupantes daquelas cadeiras nos últimos quatro anos.

 

Câmara

Quem irá presidir a Câmara no próximo biênio? Creio que vale aqui uma pequena explicação: o vereador Júlio Caetano, por ter sido o mais votado no pleito de domingo passado, presidirá a sessão solene que dará posse a Caíque Rossi e a sua vice, a medica Mirela Fink e aos outros 12 vereadores. Isso não significa que Caetano ficará à frente dos trabalhos no legislativo nos próximos dois anos a contar a partir de 1.º de janeiro de 2021. Se eu fosse um apostador, coisa que não sou, diria aos meus leitores que há uma grande chance de o advogado Rodolfo Valadão ser presidir e a petista Jandinéia Fernandes ocupar a vice-presidência, até porque as mulheres ocupam 1/3 dos assentos no legislativo. Claro que estou apenas tematizando uma questão a partir do meu ponto de vista, até porque prefeito eleito precisará ter maioria naquela Casa de Leis para ter seus projetos, cantados em prosa e verso durante a campanha, aprovados.

 

Voto

Deixando o campo da mera abordagem especulativa e adentrando no campo dos fatos e suas concretudes, entendo que, embora as urnas deram a Caíque Rossi e Mirela Fink a tão acalentada vitória, construída silenciosamente nos últimos quatro anos, elas também indicam coisas a serem tratadas com muita acuidade. Lembro-me que no domingo passado, durante a minha participação no programa exibido por este jornal em parceria com a Difusora, fui interpelado sobre a questão envolvendo o voto facultativo ou compulsório. Na ocasião, disse que o modelo obrigatório ainda persistia pela falta de uma formação política da população brasileira. Lógico que sou sempre favorável pela liberdade e entendo que a legislação específica poderia avançar mais nesse sentido, conforme acontece com os jovens entre 16 e 18 anos que são possuidores de títulos eleitorais, mas a participação no pleito é facultativa.

 

Dualidades

Por outro lado, compreendo que, para o Brasil chegar nesse estágio avançado de democratismo, faz-se necessário o país ter partidos políticos e não feudos com viés ideológicos, beirando aos mais diversos tipos de fanatismos. Aqui também é preciso entender que sem uma ampla formação política, visando a construção de cidadãos com cidadania e plena autonomia, não será possível edificar uma Nação devidamente democrática. Parece-me que aqui em terras brasileiras, temos de fato uma democracia dualística: de um lado, o indivíduo social pode escolher seus representantes, entretanto, não o faz por livre espontânea vontade, mas sim pela imposição das leis. Isso é fato! A legislação não obriga a votar, mas se o indivíduo deixar de participar do processo e não pagar a multa, tem sua vida social toda enrolada. Como pode ser configurada uma democracia, a Nação que torna obrigatório o ato de se escolher seus representantes? Só pode ter como consequência uma democracia delegativa e não participativa, conforme aponta o cientista político Guilhermo O’Donell (1936-2011).

 

Incompreensão

Outro ponto que chamei a atenção naquela ocasião, é a ausência de uma compreensão clara do papel do vereador numa cidade. Entendo que há muitos atributos, entre eles, o de fiscalizar as ações do Executivo. Ao que tudo indica, o parasitismo desta legislatura que encerra seu expediente no dia 31 de dezembro, deixou a desejar, e a criação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) que pediu a cassação do atual prefeito, evidencia bem essa situação. Diante das diversas sentenças desferidas pelo Judiciário em desfavor do chefe do Executivo, o Legislativo fez ouvido de mercador. A merreca custou a reeleição de muitos dos vereadores que deixarão o assento logo mais no último dia do ano, enquanto o prefeito termina melancolicamente seu segundo mandato iniciado por meio dos embargos infringentes do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e concluído com investigações no Tribunal de Justiça do Estado que, no dia 1.º de janeiro, devolve as ações investigativas para a primeira instância: término do foro privilegiado!

 

Oligarquias 

Essas pequenas oligarquias que se encastelam no poder através do expediente da reeleição, não conseguem fazer seus sucessores por vários fatores, nem sempre atrelados às denúncias de corrupção, mas talvez por necessidade que o povo tem de mudar as caras e os peões, bispos, rainhas, cavaloes e torres no tabuleiro político municipal. Agora fica-me uma perguntinha aos meus caros leitores: por que se vota em determinado candidato, mesmo sabendo haver problemas com a gestão da qual ele ocupa o cargo de vice-prefeito? Por que se escolhe determinado postulante a político como seu representante no legislativo? Vejam bem, caros leitores que chegaram comigo até esse ponto dos meus aforismas, estou apenas perguntando e ainda não é nenhum crime fazer determinadas perguntas.

 

Formação política

Entendo que essas interpelações acabam desaguando na questão da formação política e na confusão que se faz deste universo. Conforme expus naquela ocasião dominical, todos os animais humanos, segundo Aristóteles, são seres políticos, portanto, fazemos, eu e você e os demais leitores das linhas postadas aqui toda semana, política diariamente. Sendo assim, creio que o percentual de não comparecimento às urnas pode indicar outra coisa: decepção com as mercadorias-políticas que a cada 48 meses se apresentam na passarela política, vestindo seu mais novo visual de postulante a representante do povo: suas promessas palanqueiras. Acho que é isso. Se não for, nos próximos olhares críticos colocou as questões sobre outro prisma. E-mail: gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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