Sobras de um amor

5

 

O prazo de Márcio estava chegando ao final, precisava concluir aquela entrevista, seu fígado e o bolso indicavam sinais de colapso. Sendo assim, deveria finalizar aquela conversa buscando lhe dar um sentido, já que o entrevistado demonstrava lucidez, mas em seguida, entrava num mundo hermético como se ele se fechasse dentro de uma armadura, cuja abertura só se daria por uma palavra mágica.

O repórter sabia que a chave era o tal do lingerie, porém, as tonalidades diziam alguma coisa. Amadeu trocava as cores das meias e também as peças que o assombravam. Devia desvendar tudo logo, na sexta-feira voltaria a redação e escrever o material e mandar para a gráfica e já estava na quarta-feira e nada de entender as loucuras que se passava pela cabeça daquele beberrão que parecia sempre buscar algo no fundo do copo.

“Desta vez, vou começar pela mulher que esse louco idealiza”, pensou o jornalista, mas como fazer isso? Como começar a conversa? Teria que ser logo de chofre, quando se sentasse à mesa. A pergunta tinha que ser como uma flecha de borracha que abrirá a armadura que Amadeu usa todos os dias, mas quando começa a desvendá-lo, ele se levanta e vai embora, sabe-se lá para onde”, pensou Márcio, chegando ao ponto de pronunciar algumas sílabas.

Estava com essas confabulações, quando o telefone tocou. Era o redator lhe dizendo que a história poderia ser publicada em capítulos, então poderia, com calma, arrancar mais informações da fonte. Na sexta-feira, ele escreveria sobre o que tinha apurado até à quinta-feira. E depois na semana seguinte, teria mais uns dois dias da semana para conversar com a pessoa, se esta não tivesse terminado seus relatos. Mais aliviado e tomando cuidado para não repetir os gestos de seu entrevistado, Márcio começou a se arrumar para ir ao encontro com o maluco dos lingeries.

Como de costume, chegou, se sentou no mesmo lugar e do mesmo jeito, gesto que não passou despercebido ao atento garçom que lhe disse: “cuidado, o moço está ficando igual ao Amadeu. Daqui a pouco começa a falar sozinho. Outro dia você já levou a garrafa pra casa. Deixa eu ver se não está com as meias trocadas, também!” Dizendo isso foi atender as mesas do bar dando risadas. A fala surtiu efeito e Márcio olhou para as meias que calçava.

Pegou sua garrafa e lá foi sentar à mesa com Amadeu que já havia chegado e degustava sua primeira dose, sem olhar para lugar algum, exceto para dentro do copo, fazendo uns movimentos com a testa que franzia de acordo com o movimento dos olhos.

Sem pedir autorização, o jornalista sentou e já perguntou de cara:

– Amadeu, qual é a mulher perfeita para você?

– Primeiro, como sabe o meu nome? Segundo, quem deu permissão para se sentar aqui comigo. Eu não autorizei! Por fim, a mulher perfeita é aquela que está no fundo desse copo dançando com um lindo lingerie amarelo. Olha ela aí. Cabelos acastanhados, olhos castanhos escuros. Ela acabou de chegar e está usando um sobretudo vermelho com detalhes em escuro. Repare nela retirando a peça e veja como a blusa branca dela é linda, igual ao sorriso, demonstrando todo o prazer em me ver acenando pra ela aqui de cima.

– Você está falando estranho Amadeu?

– A mulher perfeita, a paixão por excelência, o amor perfeito é estranho ao ser humano que não sabe identificá-lo. Por exemplo, você me perguntou a ideia que eu tenho de mulher perfeita, porém, deveria descobrir qual é o homem que a mulher idealiza. Isso é mais importante do que saber o que penso sobre a minha deusa inspiradora, aquela que deixa os lingeries coloridos. Hoje ela chegou com uma calcinha amarela, me deixando pasmo. Fiquei de boca aberta, sem palavras. Ela estava só com a roupa de baixo e uma camiseta branca, com uma foto, não sabia ao certo definir quem é e o que estampava a camiseta. Fiquei só olhando e imaginando o que faríamos em seguida.

Novamente a história deixou Márcio sem saber o que dizer, pois a narrativa do doido da ou por lingerie parecia estar acontecendo naquele momento, dentro daquele copo e automaticamente olhou para ver se via o desenrolar da história. Amadeu viu o gesto e deu uma longa gargalhada e replicou:

– O moço não vai ver deste jeito, é preciso olhar com o coração, refletir com a cabeça de cima e não com a de baixo. As mulheres gostam dos homens que pensam com a de cima, amam com o coração e executam a opera final da sexualidade, deixando-as satisfeitas e isso não se faz com 20 minutos de sexo, depois de o cara ficar se exibindo para ela dizendo que é o seu fulano, que fez isso e aquilo que é o grande vencedor da corrida capitalista. As verdadeiras mulheres gostam de homens que dominam o próprio ego. Portanto, antes de pensarem em seus próprios prazeres egoístas, pensam nelas, sentem-se como elas e o que elas gostariam naquele momento sublime.

Depois de falar isso, Amadeu encheu o copo novamente, tomou tudo de uma vez e ia saindo, mas se lembrou que estava esquecendo a garrafa. Chegando ao balcão, disse ao garçom que era para conservar o copo do jeito que ele deixou. A mulher que estava no fundo do copo lhe disse que iria esperá-lo voltar no dia seguinte. “Essas não gostam de serem contrariadas. Mulher bonita, que sabe andar de salto alto em calçamento de pedras, merece todo o meu respeito. Então, se ela falou que volta amanhã, é porque estará aqui dentro. Só espero que esteja usando lingerie azul. A cor que eu mais aprecio”.

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