As tintas do presente explicando o passado

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Por que numa Nação, como a brasileira, em que a maioria de sua população tem uma ligação muito forte com o continente africano logo, portanto, com o universo escravismo, o desemprego e os baixos salários afetam justamente essa parcela desta sociedade? Só para auxiliar meus leitores a refletirem um pouco mais sobre a problemática que coloco para hoje, é interessante notar que, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e de outros órgãos governamentais como o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mais de 54% da população se define como descendentes de ex-escravos em seus mais diversos níveis de tonalidade de pele. É preciso também adotar algumas medidas, como a utilizadas muitos governantes que aí estão que, quando não gostam do que os dados apresentam, demitem os pesquisadores, querem tirar satélites de suas órbitas e começam a questionar as ferramentas utilizadas para aferir a saúde social do país.

Eu do meu lado busco compreender por que o Brasil demora tanto em desenvolver ações que objetivem diminuir o enorme fosso criado pelo fim da escravidão. A abolição é originária de um processo iniciado pelo alto, isto é, pelos altos escalões dos governos monárquicos, sobretudo após forte pressão do capitalismo internacional que começa a se fortalecer no mundo ocidental no século XIX como consequência das Revoluções Industrial (Inglaterra) e Francesa e da Reforma Protestante na Alemanha. Deixando as questões sediciosas para outra reflexão, me concentrarei com a devida permissão de vocês, meus caros leitores, numa problemática mais próximas de nós: a absorção dos ex-cativos pela sociedade brasileira nos finais do século XIX. O meu escopo é tão somente o de tentar entender por que, quiçá ser maioria, os descendentes de escravos são os mais atingidos pelas desigualdades sociais neste país que almeja ardentemente, depois de deixar o universo da emergência, se tornar uma Nação pertencente aos escalões superiores do mundo capitalista.

Há vários estudos, dissertações de mestrado, teses de doutoramento e livros, cujos conteúdos abrangem as mais diversas áreas do saber humano, que dão conta das mais variadas justificativas para o Brasil, nadar, nadar e morrer na praia, como se diz no jargão popular. Um exemplo disso, pode ser encontrado no cenário político nacional. Existe uma Constituição Federal e três instituições criadas através dela para gestar a vida em sociedade, no entanto, elas estão carcomidas pela corrupção, pelo “jeitinho brasileiro” [maneira de burlar as regras e os princípios éticos e morais que norteiam uma conduta em sociedade], pelas indicações, cabides de empregos e simbioses entre as esferas públicas e privadas da vida nacional regadas pelo jardineiro burocrata de plantão, independentemente de quem esteja nos cargos máximos dos Executivos espalhados pelo país afora, inclusive no Palácio Central, instalado na capital candango. O príncipe do momento, alçado ao cargo através de divulgação ampla de informações mentirosas e de conteúdo duvidoso, bem como de um discurso de ódio recheado de ressentimentos, até há poucos meses dançava com teses golpistas que previam o fechamento do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal). Diante desses fatos, fica-me uma interpelação: por que o cidadão se envereda por tais narrativas totalmente contrárias à democracia? Talvez isso ocorra por conta do histórico antidemocrático existente no país, desde que ele se tornou uma Nação republicana.

Creio que um dos significativos estudos para se entender esse pretérito brasileiro como elemento formador das relações sociais do presente e de como os cidadãos se relacionam com o Estado que passa a ideia de estar acima das questiúnculas da sociedade, contudo, está totalmente enraizado na estrutura estamental do pretérito nacional, é o trabalho da cientista social Maria Sylvia de Carvalho Franco: Homens livres na ordem escravocrata. Esse livro associado aos trabalhos realizados por Gilberto Freyre (1900-1987), entre eles Casa-grande & Senzala, do jurista Raymundo Faoro (1925-2003): Os donos do poder. Em suas teses, Carvalho Franco indica que entre os estamentos formados pelos escravos e escravagistas, havia os homens livres que trafegavam sempre em busca do “favor”. Um exemplo desse “homem” é o personagem José Dias, do enigmático romance Dom Casmurro, escrito pelo funcionário público o Ministério da Agricultura e fundador da ABL (Academia Brasileira de Letras), Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1980). Nesta narrativa, além dele que, sem posses, abusava dos superlativos, o leitor encontrará a família de Pádua – empregado numa repartição do Ministério da Guerra. Todos integrantes do estamento denominado como “homens livres” daquela ordem econômica patrimonialista, conforme apresenta em suas teses, o jurista Faoro.

Caso fosse possível atualizar as realidades retratadas por Machado de Assis e analisadas por Faoro, Freyre e Carvalho Franco, como estas seriam? Parece-me que, da perspectiva metodológica no campo das ciências sociais que fornece ferramentas capazes de fazer tal especulação seria a do pensador alemão Max Weber (1864-1920), através dos seus tipos-ideais que podem ser resumidos, em linhas gerais, como uma construção utilizada pelo cientista social para compreender o funcionamento de um determinado segmento social e as consequências para o presente. Desta forma, a base de análise seria o Brasil escravagista: primeiro na condição de colônia portuguesa e depois de reino-único à Portugal após 1808. Nas obras citadas no parágrafo anterior, o interessado em entender a atualidade a partir da reconstrução do passado encontrará farto material analítico, como em outras fontes, por exemplo, a literatura e, por exemplo, os escritos machadianos, dos textos românticos de José Martiniano de Alencar (1829-1877) e também do pré-modernismo do jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Mas, por outro lado, caso o sujeito pensante optasse pela literatura, como construiria suas enunciações? Poderia iniciar sua obra ficcional levando em conta o que Aristóteles afirma em seu livro Poéticas, segundo a qual “o poeta conta, em sua obra, não o que aconteceu e sim as coisas quais poderiam vir a acontecer, e que sejam possíveis tanto da perspectiva da verossimilhança como da necessidade” (SP: Abril Cultural, 1999, p. 47). De acordo com o filósofo grego, o que distingue o historiador do poeta, é que o primeiro relata aquilo que de fato foi, enquanto o segundo “fala das coisas que poderiam suceder”, ou seja, como poderiam ter ocorrido.

Sendo assim, como seria um romance retratando as consequências do escravismo? Será que Jeferson Tenório acertou a mão ao confeccionar sua obra O avesso da pele? E o que dizer de Marrom e amarelo, de Paulo Scott? Há ainda Bandeira negra, amor, do jornalista Fernando Molica. Existem vários escritores negros como Maria Conceição Evaristo de Brito e a autora de Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus (1914-1977). As histórias dessas últimas dizem muito sobre a afirmação de Friedrich Nietzsche (1844-1900) em sua obra O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo: “o poeta só é poeta porque se vê cercado de figuras que vivem e atuam diante dele e em cujo ser mais íntimo o olhar penetra” (SP: Cia das Letras, 1992, p. 59). Soma-se a essa observação a afirmação de Umberto Eco (1932-2016), segundo a qual “qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque […] não pode dizer tudo” necessitando, portanto, que o “leitor faça uma parte de seu trabalho” (Seis passos pelos bosques da ficção: SP: Cia das Letras, 2004, p. 9). Diante do exposto, como você, meu caro leitor, escreveria uma narrativa ficcional para que eu completasse com o meu conhecimento histórico deste país?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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