Sobras de um amor

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O repórter ficou prostrado onde estava, encheu o copo com conhaque e já estava com uma garrafa em cima da mesa. Começou a pensar nas histórias contadas pelo bêbado esquizofrênico. Levantou-se, com a garrafa nas mãos, dizendo ao garçom que a levaria e no dia seguinte a traria de volta.

No dia seguinte, antes de se dirigir ao bar, foi a redação do jornal para informar como estava indo com a história que pretendia publicar. Quando entrou na sala do redator, um fato chamou a atenção do chefe. “Márcio, o que você faz com essa garrafa de conhaque vazia nas mãos?” Neste momento, o jornalista percebeu que não havia tomado banho e estava vestido como no dia anterior. Seria a convivência com o bêbado-narrador? Decidiu que iria repensar seriamente aquela entrevista.

Antes de ir ao encontro com o informante alcoolizado, que mais parecia um personagem dos contos de Bukowiski, voltou para casa, se banhou, trocou de roupas e chegou ao Bar da Net uns quinze minutos antes de Amadeu aparecer por lá. Ele chegou do mesmo jeito que estava no dia anterior, porém, calçado com as meias de cores diferentes, mas elas estavam em pés trocados

Amadeu se sentou à mesa de costume, fixando o olhar no chão, deu uma cusparada, olhou para o garçom e lhe disse. “Se aquele doutor das letras me encher o saco hoje, dou com a garrafa na cabeça dele. Todas as noites, depois de conversar com ele, eu tenho pesadelos. Sonho que um lingerie azul gigante me enforca e eu acordo nos braços de uma linda dona com um par de olhos escuros, parecendo ameixas que querem me devorar. Que horror. Olho para o meu corpo e estou encharcado de suor ou urina. Sei lá que diabo é isso, deve ser coisa daquele moço que vive me aporrinhando já faz dias”.

Neste instante, Márcio chegou mais perto dele. “Sai pra lá tentação! Por sua culpa, fui assombrado a noite toda por um lingerie gigante que me enforcava sem parar!”.

Márcio se lembrou que a pouco havia passado pela redação do jornal segurando uma garrafa vazia nas mãos. Seria a convivência, se perguntou mentalmente, mas deixou a resposta para depois, o momento era para conversar com o “amigo”, pois a história era interessante.

– Lingerie gigante? Qual era a cor dele?

– Ora doutor, a cada enforcamento era duma cor: verde, depois ficava azul. Cruzes. A coisa piorava quando ele falava comigo, dizendo que as mulheres estavam sendo maltratadas por homens que desconheciam o objetivo da roupa íntima delas.

– E você sabe para que serve?

– Claro que sei. Para ser retirada lentamente com os olhos da pessoa que está acompanhando-a. O homem tem que sabê-la, tocá-la antes que a mulher esteja somente de lingerie. Sabe aquela alça que eu te falei outro dia? Pois é! Ela revela muita coisa, inclusive as intenções dos ombros sobre os quais ela está. Revela muito da sua proprietária. Aquela alça está dizendo: quer ver mais? Desafio-te a ir mais longe!

– E o que você faria se estivesse lá com a dona da alça?

– Depende da cor da alça do sutiã. Se ela estiver combinando com os olhos de sua proprietária, significa que você pode ir direto ao ponto, ou lentamente ou fazer a média, deixando que ela tome a iniciativa. Mas você não pode ficar olhando toda hora para a alça, a roupa, o sapato que ela usa. Mulher nenhuma gosta de chegar antes do homem num encontro. Ela sempre aparecerá depois para que o acompanhante possa despi-la sutilmente. Vocês não precisam dizer com o som da voz que elas estão lindas, os seus olhares já dizem tudo, pois devem brilhar mais do que a estrela que iluminará aquele encontro.

A cada palavra de Amadeu, Márcio enchia a boca com um gole de seu conhaque que podia ser maior ou menor, dependendo da surpresa que a narrativa provocava.

Doidamente, Amadeu emendou: “às vezes, a bolsa não combina com os sapatos, mas com a lingerie podendo estar aí a intenção delas naquela noite! Eis o grande mistério a ser decifrado pelo parceiro, quais são os anseios delas para o final daquele encontro. Pode ser uma noite inteira de conversas, risadas, um bom papo e um discreto tchau ou um singelo até amanhã”.

O repórter ficou pensando nas mulheres com quem havia saído recentemente, tentando compreender porque não emplacaram nenhuma. Ora porque tinha ido com muita sede ao pote, ou tinha deixado passar algumas coisas, como ligar só para perguntar se tudo estava bem, sem muito interesse no encontro que tivera numa noite posterior àquela. Ficou mais interessado na história do bebum enlouquecido por um lingerie azul ou qualquer outra cor e o mais importante é que o que contava estava maravilhoso.

– Você viu tudo isso, naquela noite que esteva na casa da vendedora de livros?

– Já tinha visto antes, quando, sem querer, toquei em parte dos seios dela e também pelos seus olhares sorrateiros atrás das gôndolas e ao vê-la andar pelos corredores do supermercado: eu também a espiava sem que ela percebesse. Bom, eu achava que ela não havia me notado, mas parecia que estávamos num jogo. Ela aparecia, me atraia e eu fingia que não a enxergava, mas eu sempre empurrava um carrinho cheio de coisas, inventava colocar mercadorias fora de suas prateleiras, e ia para o corredor onde ela estava. E quando eu a observava passando todos os dias pela praça, notava as suas curvas, os ombros, como usava a maquiagem; como se locomovia, se usava ou não saltos, como falava. Ia a livraria, ficava olhando ela atender os outros clientes: eu não tinha pressa para ela vir me atender, pois tinha o tempo todo, entre escolher um livro e vê-la havia uma eternidade a ser consumida pelo meu coração.

Amadeu encheu o copo, levantou os olhos para o relógio, engoliu a bebida numa sorvida só, se levantou e foi embora levando a garrafa consigo, dizendo para o repórter que já tinha falado além da conta, que não voltaria mais a tocar no assunto e que se ele quisesse ficar à mesma mesa que ele, deveria beber seu conhaque bem calado. Estava ficando chata aquela conversa sobre mulheres, lingeries e suas cores. Queria dormir sem ser assombrado por eles todas as noites. Precisava de um pouco de sossego.

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