Egoísmos e seus pequenos poderes

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Dizem por aí que a melhor forma de defesa é o ataque! Esse é um olhar metafórico do universo futebolístico muito usado no cotidiano dos seres humanos. Aliado ao preceito atribuído ao pensador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), segundo o qual, os fins justificariam os meios, tem provocado grandes tragédias humanas, principalmente em se tratando de disputas pelos micros e pequenos poderes que pululam aqui e ali. Senão vejamos: o que leva um sujeito que, até onde consta, é de uma fina estirpe, a se imiscuir em atos delituosos envolvendo setores complexos da sociedade, como a área de saúde? Diante do exposto, eu vos afianço, meus caros leitores, que tudo tem início pela interpelação, coisa que as crianças fazem quando querem saber das coisas e eles anseiam muito por respostas. Desta forma, é que começo questionando o motivo que leva os sujeitos sociais a travarem renhidas disputas sangrentas, culminando sempre na destruição de todos ou quase aniquilamento. Neste sentido, qual é o sentido da vida, se é preciso sempre destruir alguém para se sentir significativo para si mesmo? Quanto a questão envolvendo o mundo da corrupção, o tema fica mais dramático porque a sociedade global está numa medonha pandemia e um grupo de pessoas se ocupando em engordar o saldo de suas contas bancárias. Para início de conversa: por que o ser humano continua tão egoísta?

Para tentar entender esse questionamento recorro a dois livros que, nas últimas semanas naveguei pelas suas páginas. O primeiro é da escritora estadunidense e prêmio Nobel de literatura, Toni Morrison (1931-2019): A fonte da autoestima: ensaios, discursos e reflexões. O segundo é do historiador israelense Yuval Noah Harari: Notas sobre a pandemia: e breves lições para o mundo pós-coronavírus. Embora as duas enunciações possam inicialmente indicar que seus conteúdos vão em sentido oposto, uma análise mais detalhada revelará que, de certa forma, as questões que ambos lidam são relativas ao futuro da humanidade, sempre pautado pelo que se fez ontem e os motivos que levaram o indivíduo social, escudado num coletivismo idiotizado, a execrar outras pessoas, por razões as mais pífias e pueris que os meus leitores possam imaginar. A escritora norte-americana, autora de clássicos como Amada (Cia das Letras, 2020) e O olho mais azul (Cia das Letras, 2019), afirma que “nós vivemos em um momento onde a justiça se assemelha à vingança. Onde o lucro privado impulsiona a política pública, onde o corpo das liberdades civis, conquistado célula a célula, osso a osso, pelos bravos do passado, já mortos, definha no calor abrasador de uma guerra total ininterrupta, e onde o respeito e até mesmo o interesse apaixonado pela grande arte podem diminuir, reduzindo-se a uma lista de preços” [O preço da riqueza, o custo da assistência. In. A fonte da autoestima. Trad. Odorico Leal. SP: Cia das Letras, 2020, p. 81].

O que ela nos expõe em seu artigo é algo a ser refutado ou todos estão em pleno acordo que suas considerações têm fulcro na conduta humana e a partir daí o trabalho nosso de cada dia seria o de desmontar os arcabouços egoísticos que tem levado a humanidade ao precipício? Responder tal interpelação a partir desse fragmento é tentador, todavia, é preciso definir por onde começar a jornada num planeta em que as pessoas, individualmente, estão empenhadas em travar suas batalhas particulares pelos pequenos poderes existentes aqui e alhures. Há aqueles que creem que tudo deve ser iniciado pelo grande Pai, o Estado, o Leviatã – como dizia Thomas Hobbes [1588-1679] – formulador de políticas públicas que equacionarão os problemas de nossas profundas desigualdades sociais. Interessante notar nos discursos dos outrora líderes político-partidários condenados por corrupção, que havia muito de falatório sobre como acabar com a pobreza, eliminar a miséria e diminuir o poder das elites, mas ao subirem nos tronos instalados dentro dos palácios e paços municipais espalhados pelo Brasil, a primeira coisa que se fez foi convocar a turminha da mutreta e lotear o poder em micro instâncias, capazes de tragar para dentro do núcleo gestor a maior quantidade de recursos possíveis. Mas, e o povo? Ah! Esse aglomerado de gente, acostumada a beijar a mão dos poderes, se engalfinha pela querença do líder que lhe garanta pão e segurança.

Poderia ficar aqui escrevendo, dizendo isso e aquilo que meus olhares enxergam a partir de minha condição de cientista social e, ainda assim, os cidadãos continuariam a acreditar em contos de fada e outros seres que habitam o universo onírico, para não dizer infantil ou, caso os meus leitores optem, pelo mundo pueril. Recorrendo a outro pensador que não é tão apreciado, pelo menos eu não tenho lido nada sobre ele. Trata-se do filósofo e teólogo espanhol Jaime Luciano Antônio Balmes y Urpiá (1810-1848) e seu livro O critério – há um exemplar na Biblioteca Pública de Penápolis. Pergunto-vos meus caros leitores, quais são os critérios que as pessoas utilizam para travar suas batalhas pessoais em busca do pequeno poder, a ponto de, em plena pandemia se envolver em escaramuças e mutretas para desviar dinheiro público? Olhem bem que a peleja não fica restrita a paragens interioranas, mas há lutas semelhantes nas grandes cidades e capitais estaduais e no Distrito Federal. Reparem bem que essa ideia de “meu pirão primeiro” que gravita em torno da categoria política só pode ganhar robustez se contar com a anuência do eleitorado, a quem de fato o poder pertence. Se o político que se apropria do dinheiro público como fonte de recursos privados, continua a fazer de suas estripulias é porque conta com a autorização de seus correligionários, para não dizer curral eleitoral, para recuperar a ideia central dum clássico da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto, de autoria do jurista Victor Nunes Leal (1914-1985) e romances como Tocaia Grande, do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001).

Essa é uma parte considerável do problema nessas duas primeiras décadas do século XXI, contudo, se soma a ela outras pelejas como uma espécie de luta dentro da própria humanidade, conforme nos diz o historiador israelense Yuval Noah Harari no livro Notas sobre a pandemia. Segundo ele, “hoje, a humanidade enfrenta uma crise aguda não apenas por causa do coronavírus, mas também pela falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar nos especialistas, os cidadãos precisam confiar nos poderes públicos e os países precisam confiar uns nos outros” [Notas sobre a pandemia: e breves lições para o mundo pós-coronavírus. Trad. Odorico Leal. SP: Cia das Letras, 2020, p. 22-23]. Se acrescentarmos a esses olhares, a perspectiva dos critérios que são utilizados para agir assim ou de outra forma, é possível compreender que a democracia, pelo menos aquela forjada no final da Segunda Guerra Mundial a partir dos preceitos liberais numa sociedade capitalista pautada no consumo exacerbado de mercadorias, sejam elas de que natureza for, está em crise porque foi incapaz de continuar financiando os sonhos que alimentam as disputas dos pequenos e micros poderes administrados pelo pronome possessivo “meu” acrescido da primeira pessoa do singular “eu”. A questão é: como sair desse xeque quase que mate diante de uma pandemia global que ceifa vidas independentemente das condições sociais e econômicas das multidões mortificadas pelo medo de deixar de existir ou de curtir silenciosamente seu suplício final em sua epopeia terrena. Será que o critério utilizado nessas batalhas continua sendo “o meu pirão primeiro” que irá rechear o próprio féretro? Acho que vale a pena uma profunda reflexão sobre as nossas ações individuais e posteriormente coletiva.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *