Ciúmes

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

 

Desde aquela ferrenha discussão, um ano antes na biblioteca central da universidade, que Alfredo e Carolina ironicamente, para aqueles que assistiram a briga, não se desgrudavam mais. Embora fizessem cursos diferentes, sempre marcavam de almoçar juntos quando que era possível. Assuntos? Sempre havia, justamente por serem extremamente diferentes um do outro. Eram como feijão com arroz: sozinhos, sem sabor e sem sentido: juntos, uma mistura perfeitamente saborosa.

Há quem diga que justamente aquilo que os diferenciava, motivador da acalorada discussão de outrora, é o que fazia com que ambos fossem vistos sempre juntos em várias partes da faculdade. Isso pelo menos durante o período em que as aulas aconteciam até a hora do almoço. Se ele estivesse sozinho, era só esperar: ela aparecia. Sexy para uns marmanjos que a desejavam, mas para Alfredo, uma boa conversa, sem haver a necessidade de inventar um homem que nunca foi só para estar com ela.

Aqueles que conheceram o universitário desde o início da graduação, afirmavam que não sabiam quem ele, de fato, era, exceto algumas pessoas, como Carolina. Estava sempre sério, nem cara fechada e nem alegre, apenas um rosto indicando se tratar de alguém meio sisudo que não era dado a sorrisos. Dentro da sala de aula, era de poucas intervenções e quando o fazia, era preciso prestar atenção no que dizia. Tanto hermetismo lhe valeu o apelido de “Alfredo, o toco”!

Bastava Carolina chegar que suas feições mudavam completamente, como o dia e a noite. As conversas não eram longas e nem curtas, mas o suficiente para que se esperassem no saguão para entrar no restaurante universitário. Normalmente, quando Alfredo chegava primeiro, comprava refeição para os dois e vice-versa e aguardava o outro chegar.

Terminado o almoço, ele a acompanhava até o ponto de coletivo. Se despediam. Cada um ia para o seu universo dentro da universidade. O dela era a república em que morava e o dele a biblioteca, onde ficava até o horário do jantar, saindo apenas para tomar um café no meio da tarde.

Não raro passava pelas mesas e pelo balcão da biblioteca onde discutiu com Carolina, a ponto de se ofenderem. Isso foi logo nas primeiras semanas de aula e tudo por conta de um romancista que ela gostava de paixão e Alfredo detestava a ponto de achar uma perdição de tempo ler uma linha se quer dos escritos daquele autor romântico. “Cruzes! O cara é horrível. Seus textos são pessimistas. Só de pensar, já tenho pesadelos”, disse Alfredo ao seu amigo Márcio.

“- Como pode dizer isso? Quantos romances dele você já leu?”, perguntou Carolina.

Alfredo, surpreso com a fala da estudante, até porque estava fazendo comentários com um colega com quem conversava sobre Literatura e romancistas e ambos haviam percorrido as páginas da mesma novela um ano antes para os vestibulares.

– Li um só e foi o suficiente para saber que é uma bosta!

– Fique sabendo que não admito que falem nada, absolutamente nada que deponham contra o meu autor favorito!

– Mocinha, vai ver se eu estou na esquina. E antes que eu me esqueça, não estava falando com você e sim com o meu amigo Márcio. Portanto, acho melhor você ficar na sua. Não estou acostumado a conversar com pastéis de vento.

Ao ouvir isso, Carolina não sabia o que fazer. Estava entre dar-lhe um tapa na cara, xingá-lo, ignorá-lo, mandá-lo a merda. Mas ficou sem reação, pegando suas coisas, saindo da biblioteca indignada.

– Alfredo, meu amigo, você pegou pesado com a Carol.

– Carol? Qual é? Tá mais para cobra Coral do que Carol. Não tenho saco para essas dondocas que se acham. E além do mais, não chamamos ela na conversa. Você a conhece Márcio?

– Sei pouca coisa dela. Apenas que ingressou no ano passado e é cortejada por muitos marmanjões aqui no campus.

– Ah, mas comigo ela se enganou e engasgou coo verbo, Márcio. Estou cagando e andando para ela e para a beleza que ela pensa ter e exala pelos poros.

Já havia se passado quase um ano daquela tarde verborrágica e o que, inicialmente parecia ser uma repulsa de ambas as partes, acabou se transformando num forte laço afetivo, a ponto de Alfredo ler quase tudo sobre o romancista que Carolina gostava, na tentativa de se desculpar com ela por aquela tarde fatídica no balcão da Biblioteca Central.

“- Não adianta! A primeira impressão é a que fica e sei que está lendo para me agradar!”, lhe dizia Carolina, com certa insistência, provocando risos em ambos, pois se lembraram daquela tarde do pastel de vento.

De lembranças em lembranças e, de presente em presente, a amizade dos universitários parecia não esmorecer e nem caminhava para o famoso desfecho que todos diziam: “cedo ou tarde vocês dois vão se encontrar como homem e mulher”, Alfredo ouviu essa sentença da boca do dono da cantina que funcionava no campus.

Pelo menos duas vezes por semana se encontravam à tarde para tomarem café na confeitaria Massa Dourada que funcionava perto da república em que Carolina morava.

Metodicamente, às quatro da tarde das segundas e quartas-feiras, Alfredo se posicionava bem debaixo da janela do quarto da amiga e a chamava. Os amigos dela a chamavam Carol, mas ele não conseguia seguir esse rito de intimidade com ela. Talvez por excesso de preciosismo. Mas naquela quarta-feira, ela não o atendeu. Silvia, colega de quarto de Carol, quem o atendeu.

– Ela pediu para você ir que depois ela te encontra lá na Massa. Carol foi à casa de um pessoal da sala dela concluir os preparativos para um seminário sobre o romance Olhai os lírios do campo.

– Está bem! Caso ela volte aqui, diga que estou à sua espera na confeitaria.

Alfredo despediu-se dando três beijinhos no rosto da amiga, dizendo que realmente Elvis Presley sabia o que estava dizendo na canção “Silvia”. “Deixa de ser bobo. Eu nem gosto do Elvis. Prefiro Beatles. E você, Alfredo?

– Eu só posso lhe dizer que não escuto Beatles. Tchau!

Entre a pensão e a confeitaria havia uma livraria e como Carolina chegaria um pouco mais tarde, Alfredo entrou e comprou um romance do autor prefeito dela. “Vou lendo enquanto a espero”, pensou enquanto pagava pelo livro.

Chegando à Massa Dourada, foi direto à mesa de sempre que, estava, como num passe de mágica, vazia a exemplo das outras vezes, e naquela quarta-feira não foi diferente. Sentou-se, pedindo apenas um café duplo e sem açúcar e depois quando a Carolina aparecesse fariam o pedido juntos.

O café chegou. Tomou o primeiro gole. Forte do jeito que gostava. Abriu o livro e depois de todas aquelas apresentações, prefácios disso e daquilo em que havia milhares de coisas dizendo da maestria do autor, Alfredo chegou ao primeiro capítulo que mais parecia um diário adolescente diante de um amor platônico.

“Sem um verdadeiro amor para chamar de seu, os dias são iguais. Por isso não há necessidade alguma de se olhar no calendário para ver que dia do mês, do ano ou da semana em que se está, pois não há diferença alguma. Se são semelhantes, a onomatopeia dos relógios se torna desnecessária e aquele tique-taque, enfadonho, obsoleto e um fardo ao coração amargurado e desesperançado. Se aqui dentro o barulho do relógio é pura nostalgia de algo nunca vivido, lá fora, o sol, as estrelas, o dia, a noite, o frio, as chuvas e as estações, pode-se dizer que é tudo a mesma coisa”.

“ – Que bosta! Como Carolina pode achar esse autor sensacional. Que depressivo. Meu Deus do céu que horror!”, pensou Alfredo bebendo mais um gole de café e em seguida, ao levantar a cabeça para a entrada da confeitaria, viu a amiga chegar em companhia de outro estudante.  Já tinha visto o cabeludo perambulando pelo campus. “Mas o que estava fazendo junto de Carolina”, se perguntou mentalmente.

Assim que viu Alfredo, Carolina abriu um belo sorriso, apressando mais o passo em sua direção. Dando-lhe um fraternal abraço para logo em seguida lhe apresentar o rapaz que estava contigo.

– Alfredo, esse aqui é o Leleco. Estuda comigo e faz parte do meu grupo. Vamos apresentar o seminário sobre o Érico Veríssimo amanhã. E como não terminamos de fechar o trabalho, eu só vim te dizer que não poderei ficar com você hoje, como de costume. Tudo bem?

– Claro! Sem problema algum. Depois você me diz como foi a apresentação! Ou melhor, acho que vou assisti-la.

– Pelo amor de deus! Não faça isso. Se você estiver lá, ficarei toda embaralhada! O que é isso que tem nas mãos?

– É o livro sobre o pastel de vento que acabei de comprar.

Ao ouvir isso, Carolina fez aquela cara de ofendida, mas deu risada e pegando na mão de Leleco, se despediu de Alfredo. “- Não quero ver você na minha aula amanhã em hipótese alguma. Então nem apareça por lá”.

– Está certo, mas vai que me dá vontade de ir ao banheiro? Talvez eu passe pela porta de sua sala!

– Nem pensar! Tchau.

Quando Carolina saiu de mãos dada com Leleco, Alfredo sentiu algo que não conhecia ao certo, mas lá no seu íntimo tinha noção do que era e não gostou nenhum pouco de Leleco. Tanto é que não se preocupou em saber nada dele, nem o nome. Mas sabia certinho o nome do que estava sentindo. “Mas o que fazer?”, pensou em voz alta, olhando depois em ao seu redor para confirmar se alguém havia escutado a sua pergunta.

Enquanto pensava em qual escritor encontraria uma resposta racional, as caixas de som da confeitaria Massa Dourada começavam a executar a música “Bridge over troubled water” na interpretação de Elvis Presley. Resolveu esperar a música terminar e enquanto isso pediu um novo café com um pedaço de bolo de nozes com chocolate.

Enquanto a voz de Elvis dizia “se você precisar de um amigo, eu estarei navegando ao teu lado”, Alfredo terminou o seu café e ia devorar o último pedaço de bolo quando o locutor anunciou que a próxima música seria “Fogueira em alto mar” com Ana Carolina. “Não vou ficar para ouvir. É demais para a minha cabeça”, pensou Alfredo já indo em direção ao caixa para pagar a conta e pegar uma garrafa d’água.

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