Bandejão

Gilberto de Assis Barbosa dos Santos

 

Depois de um ano, conduzido de forma metódica na qual os dias eram divididos entre livros, apostilas e oito horas de trabalho numa indústria com o tempo sendo distribuído em dois turnos diferentes: uma semana, as atividades iniciam cedinho, terminando no começo da tarde e na outra, a jornada começa nas primeiras horas da tarde, indo até perto da meia-noite, Alfredo conseguiu finalmente ser aprovado no exame seletivo para ingressar numa das mais importantes universidades públicas brasileiras.

Sonho realizado, uma nova jornada começava. Curso em período integral, sem haver a possibilidade, pelo menos no início, de trabalhar. Portanto, dedicação integral ao que buscou veementemente, pois mudaria completamente sua condição social e econômica, quiçá sua etnia. Sabia bem o quanto os negros tinham que ralar para conseguir conquistar alguma coisa e ainda assim, não bastava o diploma universitário, era preciso passar pela “aprovação de algum branco no comando de alguma coisa”, ou seja, tinha que contar com o beneplácito de algum não-negro. Esse era o comportamento da sociedade brasileira desde os tempos da escravidão e levaria muito tempo para ser modificado.

“Enquanto isso não muda, preciso correr atrás de condições melhores daqui para frente”, pensou Rafael quando efetivava a matrícula e buscando um local em que pudesse morar. Conversando com um e outro enquanto conhecia o campus, conseguiu um lugar provisório para ficar, cujos valores estavam dentro do que poderia pagar. Levava consigo toda a economia que fizera no ano anterior.

Conheceu a nova hospedaria, não sendo necessário comprar cama, pois havia um colchão sobrando. Dormiria no chão da sala, caso não se importasse, mas também poderia depois adquirir uma cama, lhe informou o coordenador da república. Cansado da viagem, se deitou cedo. Carregava consigo um pouco de ansiedade: mundo novo, realidade totalmente diferente daquele corre-corre que enfrentou durante os preparativos para os exames seletivos. Mas não deu nem tempo de pensar direito, foi vencido pelo sono.

Em virtude do hábito adquirido durante a dupla jornada de estudos e trabalho, Alfredo acordou cedo, enquanto a casa estava mergulhada num silêncio sepulcral. Aproveitou para tomar banho e organizar como seria o seu primeiro dia na universidade. “Coisa de calouro”, diriam os veteranos! Foi o que escutou quando estava saindo de casa, enquanto os outros moradores acordavam e tentavam se achar no novo dia.

Quando passava pela cozinha, Rebeca lhe perguntou se não iria tomar café. “- Tomo na faculdade. Mas de qualquer forma, obrigado!”

– Não precisa ter tanta pressa de ir para o campus. Essa semana será apenas de recepção aos ingressantes.

– Eu sei, mas quero conhecê-lo melhor. Ver a biblioteca. Essas coisas. Tchau. Até mais tarde. Como é o seu nome mesmo?

– Rebeca. E o seu?

– Alfredo!

Já dentro do coletivo, cujo ponto final era dentro dos limites da universidade, Alfredo foi olhando tudo. Não conhecia a cidade. Sabia pouca coisa de tudo ali, exceto o curso que faria nos próximos quatro anos. De certa forma, estava gostando do que via, além de assistir, de camarote, o ônibus ir se entupindo de universitários a cada parada. Respirou fundo: “era desses ares que eu estava precisando”.

Quando o coletivo chegou ao seu destino, desceu com os demais estudantes e nem precisou ficar perguntando onde ficavam as salas de aulas. Já haviam várias sinalizações. Era só seguir as indicações.

Essa foi a sua jornada nos quinze dias seguintes, na qual pode perceber de tudo um pouco daquela nova realidade. Dos cinco cursos ministrados no período diurno naquela unidade dava para contar nos dedos a quantidade de negros que lá estavam. Não passavam de dez, portanto, na média haviam dois por cursos. Existiam outros três cursos que funcionavam em outros pontos da cidade.

Tentava não se apegar a esses detalhes. Seguia em frente. Depois das aulas, almoço no restaurante, alcunhado de “bandejão” que também servia o jantar. Terminada a refeição do meio do dia, higienização bucal e biblioteca, onde passava o restante da tarde, até o horário do jantar. Terminada a refeição noturna, pegar o coletivo de volta para casa.

Numa determinada quarta-feira, quando o professor terminou a aula mais cedo do que o costumeiro, Rafael se dirigiu à biblioteca. Começou a ler e quando deu por fé. Já passavam das 13h. Pelo movimento, sabia que aquele horário o restaurante estaria lotado, “mas fazer o quê”, pensou ele, tinha que enfrentar a fila e pronto.

Pegou o seu “bandejão” e, olhando para ver se encontrava um lugar vago, encontrou um e se dirigiu pro local. Quando chegou, havia apenas uma cadeira e um lugar vazio à mesa. De forma educada, perguntou:

– Posso me sentar?

A pessoa que iria ficar defronte para ele durante a refeição, olhou e devolveu-lhe:

– Se você se sentar eu me levanto!

Todos se entreolharam e também para ele que ficou pensando por um instante, mas não arrefeçou e se sentou.

Vivian, como ficou sabendo mais tarde o seu nome, se levantou pegando sua bandeja e saiu à procura de outro lugar para terminar a sua refeição. Rafael passou a se ocupar de sua alimentação. Terminando de comer, depositou o recipiente no compartimento destinado para ser lavado e os talheres em outro lugar. Nesse momento, o restaurante já estava esvaziando e o barulho ia diminuindo.

Pensando na atitude daquela moça que não o conhecia, não sabia o seu nome e nunca havia lhe dirigido a palavra, mas já a tinha visto pelos corredores do campus, Rafael repetiu os atos de todos os dias anteriores. Higienização bucal e biblioteca. Perto das dezesseis horas, portanto, intervalo das aulas da tarde, foi até a cantina tomar um café. Enquanto, entretido com seus pensamentos, saboreava o café, Rafael escutou alguém lhe chamar a atenção.

– Oi! Tudo bem com você?

– Sim!

– Prazer, eu me chamo Érica.

– Rafael!

– Estava com minhas duas amigas naquela mesa em que você almoçou e vimos o que a Vivian fez com você.

– Quem?

– A Vivian. Aquela que se levantou quando você se sentou.

– Ah sim! Não liguei muito para a atitude dela.

– Mas nós nos importamos sim! Pois não podemos desfazer de ninguém, muito menos do jeito que ela lhe tratou.

– E você quer que eu faça o quê? Que fique brigando, falando? Esse comportamento dela é próprio de quem passou a vida humilhando as outras pessoas e é claro, se achando melhor do que os outros que têm a pele escura, os pretos!

– Achei que tivesse ficado chateado, magoado, entristecido.

– Fiquei sim, mas não posso mudar a cor da minha pele só por que uma dondoca histérica não gosta da tonalidade dela. O problema não é meu. É dela. Eu estarei aqui todos os dias e não farei nada para evitar cruzar com ela. O problema do racista é achar que o doente somos nós, pretos, e não eles.

– Tai! Gostei do que você disse. Mas quero que saiba que muita gente viu a cena dela e a reprovou.

– Ah sim! É bom saber Érica.

– Você não quer se sentar com a gente?

– Não! Só parei para tomar o café e vou voltar à biblioteca.

– Então tá. Tchau!

Rafael voltou para o mundo dos livros, saindo de lá somente no horário do jantar. Ao chegar na porta do restaurante se deparou com as três estudantes que almoçaram com ele na mesma mesa. Foi Erica quem lhe disse:

– Que coincidência! Almoçamos na mesma mesa e agora podemos jantar juntos, caso isso não te incomode!

– Obviamente que não.

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