Tempos sombrios e autocracias

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Durante a minha jornada, enquanto cientista social, já fui interpelado sobre as mais diversas questões no campo social, literário, linguístico, econômico, psicológico e outras áreas que formam o saber humano, inclusive o teologal. Dependendo da maneira como a pergunta é feita, é possível levar o interpelante a uma significativa viagem em torno de si mesmo, como propunha o escritor francês Xavier de Maistre (1763-1852) em seu livro Viagem à volta do meu quarto. E juntamente com esse périplo que sempre proponho, me coloco na condição de parceiro de viagem, como se estivéssemos dentro de um ônibus com destino a qualquer lugar, seja ele físico ou abstrato, pois o mais importante é o traslado e o que se colhe durante a navegação. Pois bem! A partir desse pressuposto, convido-o, meu caro leitor, a refletir sobre a hipótese do homem nunca conseguir ser, pois está sempre pensando no amanhã. Por exemplo, a viagem empreendida é escudada, não pelo trajeto que se faz, mas sempre visando à sua chegada e, em virtude disso, o sujeito social acaba perdendo o melhor da festa: o espetáculo geográfico que passa pela janela do viajante.

Eu do meu lado, mais especificamente de minha poltrona, sempre opto por um duplo traslado. O primeiro é aquele proporcionado pelo veículo automotor e o segundo pelo corpo físico e o que se comumente costumou a chamar de memória. Por que será que sempre escudamos o nosso vir a ser, meu caro leitor, pelo passado almejando chegar no ontem, escondendo o presente, fruto das escolhas pretéritas? Pois é! O parceiro de viagem resolveu dormir. Achou melhor do que dialogar sobre coisas que não pode mudar, pois está no ontem do existir e não seja possível alterar o porvir, já que ainda não é, nem mesmo o fim da viagem empreendida para qualquer lugar do orbe. Na ausência de um interlocutor, me coloco a conversar com as minhas memórias, recordando das minhas aulas de Economia no primeiro ano do curso de Ciências Sociais. Já faz um tempinho, mas as lembranças estão sempre vivas, justamente por conta das colocações e reflexões que proporcionam até hoje. Uma das interpelações proposta pelo docente foi responder de forma sintética a seguinte questão: por que o trabalhador gasta tudo o que ganha e o capitalista ganha tudo o que gasta? A outra admoestação dizia respeito às mercadorias: por que os preços exprimem relações sociais? Quem conseguisse responder as perguntas em sua totalidade, teria nota máxima até o final do ano letivo e presença em todas as aulas. Lógico que a sala de aula se transformou num campo de achismos, entretanto, cada resposta carecia de um fundamento básico que deveria ser absorvido pela estudante no transcorrer das aulas.

Mas por que recuperar esse dia de um longínquo 1990, quando o mundo hoje é completamente outro? Para tentar dizer que àquelas perguntas vieram outras e elas continuam se sucedendo com o passar do tempo, talvez porque ainda não foi possível encontrar respostas plausíveis para alguns dilemas, como o que está presente em nossa sociedade acossada por um teologismo da prosperidade e neopentecostal e também por que, conforme nos apresenta o cientista social, Sérgio Abranches, em último livro O tempo dos governantes incidentais. Segundo ele, a democracia, não somente a brasileira, mas em boa parte do mundo, está sendo agredida por desejos autocratas advindos de governantes oportunistas que se utilizaram de recursos tecnológicos e a desesperanças de eleitores para chegarem no poder. A pergunta aqui não é sobre o governante em si, mas como ele chegou ao cargo usando os recursos que a democracia lhe faculta, ou seja, eleições livres? Será que o projeto que uma esquerda brasileira, com fortes odores burocráticos e um Estado caríssimo e corrupto, tinha para o Brasil ruiu ou foi carcomido pelo bolor de ideais ultrapassadas? Será que as categorias sociais que pululam pelo Brasil afora estão contentes com o atual quadro governativo? Questionamentos que não podem ser respondidos por achismos, mas a partir de uma profunda reflexão histórica que pode ter como ponto de partida a crise econômica de 1929, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. O epicentro daquela situação foi a Bolsa de Valores de Nova Iorque que, ao quebrar, levou o mundo de roldão, abrindo espaço para o surgimento de mentalidades ditatoriais e totalitárias. Posto isto fica-me uma questão: se não tivesse ocorrido a crise financeira de 29, teríamos registrado o surgimento do fascismo italiano, o nazismo alemão, o franquismo espanhol e o totalitarismo soviético e o Estado Novo no Brasil?

As perguntas fazem sentido porque tivemos em 2008 uma crise global da economia e novamente o epicentro foi Nova Iorque e os bancos de investimentos e, logo em seguida, registra-se movimentos autocratas e líderes com desejos atrozes de sepultar a democracia, a exemplo do que aconteceu no período entre as duas guerras mundiais na primeira metade do século XX. O líder máximo dessa tentativa de assassinar a democracia, é o oligarca russo Vladimir Putin, antigo integrante da KGB – polícia secreta – nos tempos de URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Há ainda outros na Turquia e na Hungria, de modo que o fenômeno não pode ser restrito ao Brasil e aos Estados Unidos.  É preciso atentar-se também para o fato de que pelas terras brasileiras, registra-se outras tentativas autocráticas, só que por partes de legendas partidárias – mas aí é uma outra narrativa que posso voltar a ela num momento específico. Mas retomando o escopo dessa tentativa de reflexão, essa busca pela compreensão do ontem objetiva compreender a observação feita por Karl Marx (1818-1883), segundo a qual, a história se repete: uma vez como farsa e outra como tragédia. Pelo menos em minha opinião, está muito claro que os totalitarismos que pulularam na primeira metade do século XX, estavam associados à chamada Crise de 29 e problemas interno das nações que os abraçaram. Desta maneira, creio também que os problemas da democracia liberal estão intimamente ligados à crise de 2008 e a da chamada esquerda, que não se atentou para as insatisfações vindas de uma massa alimentada com políticas de créditos baratos que secaram com a falta de liquidez na economia provocada pelo problema nos contratos de mutuários nos EUA. Aqui a coisa ficou mais complexa quando foi necessário ampliar a taxa de juros por conta do volume de créditos existentes na praça, muitos deles sem lastro algum, baseando tão somente em políticas típicas de um atroz populismo financeiro, atrelado à uma visão desenvolvimentista puramente eleitoreira.

O resultado dessa prática, todos já sabem: verborragias palanqueiras dignas de país sem cidadania e o retorno do Salvador da Pátria, dum sebastianismo pós-moderno, a exemplo do que havia ocorrido em 1989. Foi a Lava Jato que tirou a demagógica socialdemocracia do poder? É o que todos acreditam, entretanto, ela apenas foi usada, conforme Sérgio Abranches apresenta em sua obra, pelo líder populista que se compraz com torturadores. Em uma leitura um tanto quanto apressada, justamente pela dinâmica do espaço aqui, posso afiançar que o problema foi outro: a desilusão do estamento que vivia do crédito fácil e abundante. Quando a fonte secou e as faturas começaram a ser cobradas, a grita foi geral e aí precisava encontrar o bode expiatório: a corrupção, a exemplo dos Marajás enfocados pelo ex-presidente e atual senador republicano, Fernando Collor de Mello. Como podes ver, meu caro leitor, a tecnologia faz com que possamos conversar com quem quer que seja do outro lado do Planeta, mas ainda não consegue evitar que o ser humano continue a cometer os mesmos erros de outrora.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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