Liberdade e a tal da felicidade

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ao iniciar a leitura do livro A cor da liberdade, escrito pelo ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-213) e concluído pelo poeta Mandla Langa, me deparei com uma profunda observação feita pelo líder “negro” mantido encarcerado justamente pela tonalidade de sua pele, ou seja, escura, contudo, preso pela sua condição étnica, tida pelos seus algozes como inferior. “A verdade é que ainda não somos livres; alcançamos apenas a liberdade de sermos livres, o direito de não sermos oprimidos. Demos não o passo final de nossa jornada, mas o primeiro numa estrada mais longa e ainda mais difícil. Pois ser livre não é apenas se desvencilhar dos grilhões, mas viver de uma maneira que respeite e fortaleça a liberdade dos outros. O verdadeiro teste de nossa dedicação à liberdade está apenas começando” (Rio de Janeiro: Zahar, 2018, p. 9). Esse excerto consta em outro livro do próprio Mandela, o Longa caminhada até a liberdade que o autor faz uso como epigrafe desta inconclusiva obra sobre os anos em que ocupou a presidência da África do Sul – país no qual o Apartheid [segregação em africâner] vigorou entre 1948 a 1994, sendo instalado pelo pastor protestante Daniel François Malan [1874-1959] quando foi primeiro-ministro. Mesmo sendo eliminado, o país ainda vive as agruras sociais originadas desde o seu advento.

A esta observação acrescentarei aquela que consta no livro Os miseráveis, do escritor realista francês Victor Hugo [1802-1885]: “enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século [XIX] – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis” (São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 23). O terceiro elemento constitutivo de minha reflexão de hoje vem do livro autobiográfico “Nascido do crime”, também escrito pelo sul-africano Trevor Noah. Destaco aqui uma carta que a mãe do autor lhe deixou quando era criança. “Caro Trevor, […]. Suas notas neste semestre foram insatisfatórias, e seu comportamento em sala de aula continua incontrolável e desrespeitoso. Considerando suas ações, está claro que você não me respeita. Você não respeita suas professoras. Aprenda a respeitar as mulheres de sua vida. A forma como você trata a mim e às professoras será a forma como tratará as mulheres no mundo. Aprenda a controlar essa atitude agora, assim você será um homem melhor. Em razão do seu comportamento, você está de castigo por uma semana. Sem televisão nem videogame. Atenciosamente, Mamãe” (Campinas, SP: Verus, 2020, p. 104).

Após estas três notinhas retiradas de três livros escritos em momentos diferentes, objetivando escopos singulares, acrescidas da seguinte observação feita pelo filosofo Baruch Espinosa [1632-1677]: “Toda a nossa felicidade e nossa miséria dependem somente da qualidade do objeto ao qual nos atamos por amor” [Esse excerto integra o livro de Frédéric Lenoir: O milagre Espinosa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019]. Posto isso, pergunto-vos meus caros leitores: a liberdade é algo dado ou construída a partir das opções que o sujeito faz depois de atingir a sua maioridade crítica? E a felicidade: onde achá-la? Será que o homem social a encontra nas coisas, nos bens materiais, enfim, no ter, ou durante a sua construção enquanto ser? Seja qual forem suas respostas, elas terão que, necessariamente passar pela construção de um conhecimento e isso não ocorrerá da noite para o dia, mas sim por processos que se encontram no campo da educação e da instrução através da qual as informações serão transformadas em conhecimento. No romance O vermelho e o negro, Stendhal [Henri-Marie Beyle: (1783-1842)] aborda essa perspectiva a partir dos professores particulares, como o fora outro filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), que escreveu importantes textos de filosofia política, entre eles Leviatã e Do cidadão. O pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) também legou importante contribuição nessa área, através dos livros O contrato social, Emílio, Cartas escritas da montanha e Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Segundo ele, somente através da educação o homem pode retornar ao seu estágio anterior, ou de natureza: de bondade. Neste ponto fico com a seguinte interpelação: qual é a índole mesma do ser humano? Os valores que este dissemina em sociedade lhe são inerentes ou dados pela socialização primária e aprimorada durante as internalizações nas instituições que lhe são externas, como a escola e o Estado?

Parece-me, meu caro leitor, que somente entende de liberdade o sujeito que, seguindo o exemplo dos enciclopedistas, consegue conviver com pensamentos e atitudes diferentes do seu. É interessante notar aqui que esse procedimento só se torna viável quando, de acordo com o que dizia Sócrates – o pai da metafísica – o sujeito social conhecer-se a si mesmo. Mais adiante outro pensador alemão Immanuel Kant (1724-1804) observava que quando uma pessoa age, esta precisa ter em mente que tal atitude seja universalizada. Desta forma, reprimir o seu semelhante, tratando-o como mercadoria ou o adjetivando, rotulando disso e daquilo, é uma qualidade inata dos sujeitos, ou seja, essa característica lhe é indelével? As minhas interpelações têm como escopo não apontar o que é certo ou errado, mas ajudar-te, meu caro leitor, a refletir sobre a própria conduta em sociedade, possibilitando-o a não enxerga no outro o seu inimigo ou indivíduo portador de determinadas categorias, das quais não é portador, mas apenas valores que você atribui a ele no afã de se sentir melhor ou até superior. Mas melhor e superior por quê? Será que tu és livre para adjetivar quem quer que seja, julgando-o, sentenciando-o a partir do pertencimento étnico, social e econômico? E o que dirá então daqueles que lhe confere sentido de vida ao defender os mesmos pontos de vistas que, aos olhos de outrem, são caquéticos?

Posto essas interpelações, fico com a sensação de que o homem não está conseguindo conviver harmoniosamente com seus semelhantes e, diante de todas as ferramentas e processos tecnológicos que tem à disposição, agride, vilipendia, violenta, não somente a partir do ponto de vista físico, corporal, mas sobretudo no campo do simbólico.  Todos clamam por liberdade, porém, poucos sabem de fato o que isso significa. Milhares vociferam pela democracia, defendendo-a, porém, basta aparecer grupos que pensam diferentes e usam os processos que a legislação lhe facultam, para adjetivá-los como antidemocráticos, os satanizando, evidenciando o outro lado da pífia moeda cidadã. Essas posturas me levam a crer que se está construindo uma visão de mundo medieval. O interessante a observar aqui é que “o diabo é sempre os outros” – como se diz no jargão popular -, seja em que lado estiver, principalmente se pensar diferente de quem se imagina ser o detentor dum discurso que objetiva ser verídico. Por isso, me parece que a liberdade não é algo dado, mas conquistado e a humanidade está disposta a trocá-la pelo líder que lhe garanta pão e segurança. Esse foi um apontamento feito pelo escritor russo Fiódor Dostoievski (1821-1881) a partir de uma Rússia feudal que passou todo o século XX sob o julgo de uma ditatura capitalista de inclinação estatal. Lamentavelmente ainda persiste tal prática com outras tintas e, até mesmo no mundo democrático, enfrenta-se a ditadura das ideais. Mas isso é uma outra história que abordarei em outro momento. Para o presente, nos ocupemos de nos tornarmos livres e assim vislumbrarmos o que entendemos por felicidade.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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