Precificação do presente sem futuro

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O que escrever nesse momento em que a sociedade, leia-se humanos demasiados humanos, personificada pelo universo da mercadoria, faz uso de diversos recursos discursivos no afã de colocar em primeiro plano o universo econômico em detrimento da vida? Parece-me que nada! O dinheiro transformado em mercadoria compra outra mercadoria, seja ela o homem subsumido pela ideia de classes sociais, principalmente aquelas pautadas no universo binário formado pela burguesia e proletariado, ou caras lembrancinhas. Através dele é possível adquirir status social, ou até mesmo partido político que está mais para feudo teológico do que realmente para uma agremiação formada por sujeitos que debatem racionalmente os caminhos para que o amanhã, isto é, no vir a ser kantiano, seja outro diferentemente da atualidade. Esse é o quadro dado pelo presente da humanidade que se recusa a aprender com o passado, devido à ideia de que se está acima do bem e do mal. Em virtude desse comportamento, vocifera que a ciência não tem mais espaço num momento em que as mentalidades estão se voltando para os tempos medievais. Acho que é isso! Não há o que dizer mais sobre esse mundo que se dissolve na própria presunção do ser em si que se enxerga no outro que lhe quer ser semelhante apenas pela sua expressividade material e mercadológica.

Se isso é fato, então, como dizia Francis Fukuyama no reflexivo livro O fim da história e o último homem, a história da humanidade acabou e não há mais o que fazer, já que tudo está dado, certo e liquidado. Desta forma, como no sistema de castas indiano, quem nasceu dentro duma estrutura social enrijecida, semelhante a que havia no Brasil até o dia 13 de maio de 1888, deveria existir e morrer no interior de sua masmorra social. Quem pensa desta forma, não leva em conta a observação feita pelo filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, segundo a qual o homem, este ser indivisível, não se banha no mesmo rio duas vezes, já que nem ele nem o córrego são os mesmos no instante seguinte à higienização do primeiro. Esse olhar sobre o ser em si foi posteriormente apropriado pelo pensador alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-8131) que lhe deu vida a partir da dialética e a historicidade ao viver humano através da afirmação de que o homem faz sua história e transformando o seu meio a partir de mudança a partir do mundo das ideais na qual, segundo Platão tudo é perfeito. Depois dele, outro filósofo alemão, Karl Marx (1818-1883), vai dizer que o homem faz a sua história, mas não como quer e sim pelas condições determinada pelo meio, contudo, afirmando que as mudanças não acontecem no plano das ideias, mas sim pelos sucessivos modos de produção e apropriação da resultante dessa ação. Desta forma, no processo capitalista, tudo gira em torno da mercadoria que transforma tudo e todos em sem entorno. Primeiro, os recursos da natureza são reelaborados pelo homem que se personifica no objeto que construiu a partir da apropriação dos materiais encontrados no meio ambiente que, diante da sanha egoística humana, acaba sendo legada a segundo plano, inclusive sendo desconsiderada a sua preservação.

Nessa busca, cada vez mais atroz por “mercadorias” que podem precificar seus possuídos, o indivíduo edifica seus marcadores sociais tão bem expostos nessa pandemia que ceifa diariamente a vida de milhões de pessoas, enquanto os que permanecem vivos só focam na economia, pensando apenas em si e não no coletivo, como se o defunto não lhe importasse como consumidor. Nesse jogo legal, coordenado pelo filho do Caos, o doutor Tânatos representado pelo vírus, mas também pelos sujeitos que agem de forma conectada apenas em suas ganâncias sem perceberem que também se transformam numa mercadoria, na medida que são avaliados não pelo que são, mas pelo que aparentam ser, através da mercadoria, tão bem explicada por Marx no livro O capital – quem não os leu, recomendo. Se todos, ou pelo menos grande parte da humanidade está ocupada, como afirmava o cantor e compositor Belchior (1946-2017) em uma de suas canções, “contando seus metais”, como é que ficará o vir a ser daqueles que estão apenas relembrando dolorosamente algumas passagens dos entes que foram tragados pela pandemia? Quando se diz que o isolamento social e o fechamento do comércio não foram capazes de conter o crescimento do número de contaminados pelo vírus, bem como o aumento de óbitos, me parece que é preciso dar nomes aos bois. Ou seja, indicar de onde saíram essas notificações. Elas estavam represadas ou realmente os sujeitos não observaram o que se tinha que fazer e organizaram festas e reuniões sociais? A pergunta tem fundamento, pois do contrário, pode se responsabilizar as autoridades de saúde pública do Estado.

Talvez o sociólogo alemão, Max Weber (1864-1920), pode dar uma luz à essa interpelação. Em seu texto Classe, status, partido, diz que “o poder ‘condicionado economicamente’ não é, evidentemente, idêntico ao ‘poder’ como tal. Pelo contrário, o surgimento de poder econômico pode ser consequência de um poder que tenha outro fundamento. O homem não luta pelo poder apenas com o fim de enriquecer economicamente. O poder, inclusive o poder econômico, pode ser valorado por si mesmo. Frequentemente a luta pelo poder é também condicionada pela “honra” social que traz consigo. Nem todo poder, entretanto, tem como consequência a honra social: o patrão americano típico, assim como o grande especulador, deliberadamente renuncia à honra social. Em geral, o poder “meramente econômico”, e especialmente o puro poder monetário, não constitui, de maneira alguma, uma base reconhecida de honra social. Nem é o poder a única base de honra social. Na verdade, a honra social ou prestígio pode até ser fundamento do poder político ou econômico, e com frequência tem sido.  O poder, assim como a honra, pode ser garantido pela ordem legal, mas, pelo menos normalmente, esta não constitui sua fonte principal. A ordem legal é antes um fato adicional que aumenta a possibilidade de manter poder ou honra; mas nem sempre permite obtê-los” (WEBER, 1974, p. 61-62).

Na sequência a essas pertinentes observações, Weber diz que a “ordem social” pode ser definida como sendo “a forma pela qual a honra social se distribui numa comunidade entre grupos típicos participantes dessa distribuição. A ordem social e a ordem econômica estão ambas, é evidente, relacionadas com a “ordem legal”. Entretanto, a ordem social e a econômica não são idênticas. A ordem econômica é para nós apenas a forma pela qual os bens e serviços econômicos são distribuídos e utilizados. A ordem social é, obviamente, condicionada em alto grau pela ordem econômica, e por sua vez reage a ela” (Max Weber. Classe, “Status”, partido. In VELHO, Otávio Guilherme et. alli. Estrutura de classe e estratificação social. 5.ª. Rio de Janeiro: Zahar, 1974, p. 61-83). Posto isto, novo questionamento deve ser feito: a vida humana está ou não condicionada ao econômico ou a honra social? Se está, então, a sua precificação se encontra não no campo religioso, como muitos tentam fazer crer, mas apenas no seu aspecto financeiro e aí Marx tinha razão ao dizer que tudo na sociedade capitalista se transforma em mercadoria. Portanto, aquele que morre pode ser facilmente substituído por outro que consome penduricalhos em busca de representação e representatividade na ordem social que priorizará sempre o mundo do material, do estético, como afirmou certa vez o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) que o mundo só pode ser entendido como fenômeno estético. Dentro dessa lógica capitalista e tanatopraxista, que os mortos carreguem seus féretros.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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