Olhar Crítico

Tempo

O que significa o tempo? Ou melhor, o que significou o tempo até agora? Completando a interpelação dominical: o que será o tempo daqui para frente? Acho interessante a reflexão proposta pelo escritor Sérgio Rodrigues, quando diz que: “o tempo de isolamento é ambíguo porque marca o tempo fora do tempo, um hiato, um compasso de espera, ao mesmo tempo deprimente e desejável, insuportável e acolhedor”. Desta forma, “sair do seu círculo de tédio é enfrentar a possibilidade nada desprezível de uma aceleração brusca do tempo e da marcha dos eventos até o ponto de ruptura, aquele em que já não haverá tempo – a finitude, a morte”. Esse pequeno excerto faz parte do artigo A pandemia e seus tempos que o autor publicou num jornal de circulação nacional no último dia 25.

 

Leitura

Se por um lado, o cronista, do qual peguei emprestado um trecho de sua reflexão, ocupava-se de uma partícula de um e-mail que recebeu em que a signatária dizia estar vivendo 24 horas em apenas cinco minutos, por outro, o meu amigo e professor de Língua Portuguesa nas escolas públicas de Penápolis [estadual e municipal] Valdir Lopes, propôs uma diversão para seus alunos através da rede mundial de computadores, cujos vencedores receberiam livros como prêmio. Achei excelente, justamente nesse momento em que nós, professores, outrora satanizados por um governo federal que, juntamente com seus asseclas e idólatras, nos chamavam de doutrinadores quando, nos meses subsequentes às propagações, para não dizer xingamentos, a verdade veio à tona e continua a cair em quantidades tempestuosas sobre aqueles que, sem conhecer um mínimo do ofício pedagógico, se colocaram a fazerem o serviço de capitães do mato de um grupo de reacionários que só sabe destilar o ódio por falta de projeto para esse país.

 

Livros

Em virtude dessa violência psicológica, ideológica, simbólica que todos nós educadores vínhamos sofrendo e agora por conta do isolamento social em função da pandemia do Covid-19, a ação do professor Valdir é alvissareira e contando ela contar com a empresária Lena Miyamoto, comerciante que atua num ramo diferenciado em nossa cidade: a venda de livros num país, cuja população foge dessas significativas fontes de conhecimento. Desta forma, só posso aqui recordar os dizeres de um grande político brasileiro que cravava, lá no começo do século XX quando a República brasileira dava seus primeiros passos, que um país se faz com homens e livros. Muitos pais reclamam do preço dessa mercadoria de vital importância na formação do cidadão e na construção da cidadania, todavia, se construíssem hábitos de leituras junto dos seus filhos e apresentassem o impacto que as páginas dum O dia do coringa ou Através do espelho lhes provocaram, talvez os resultados sociais seriam outros.

 

Portas

No quesito livros e suas narrativas, sou um tanto quanto suspeito, pois lhes tenho um apreço significativo, tendo em vista aquilo que eles me possibilitam, seguinte as observações feitas pelo literato francês Marcel Proust (1871-1922) em um pequeno tratado sobre o hábito da leitura, em que os leitores encontrarão a abordagem, segundo a qual, os livros abrem-nos portas de um mundo que jamais seriam deslindadas sem esses objetos. Eles ainda nos provocam significativas transformações a partir do momento em que nos enveredamos pelas enunciações, muitas das vezes, múltiplas que nos permitem identificarmos com as diversas personagens. Em virtude dessas admoestações, desde que o isolamento social teve início, entre as atividades pedagógicas e aulas online, aprendizado sobre aplicativos disso e daquilo, sempre estou percorrendo páginas e páginas, sejam elas romanceadas como a obra da norte-americana Toni Morrison (1931-2019) O olho mais azul; do brasileiro Javier A. Contreras: Crocodilo, passando pelo romance O fazedor de velhos 5.0, contado por Rodrigo Lacerda, chegando no científico A classe média no espelho, composto pelo cientista social Jessé de Souza. Há outros tantos lidos nesses meses de confinamento social, mas aqui ficarei apenas com os listados acima.

 

Destaques

Dessas tantas leituras destaco uma do livro Fazedor de velhos. A certa altura do enredo, o leitor se depara com essa enunciação: “Precisamos entender, de uma vez por todas, que líder nenhum substitui a nossa consciência crítica” [Rodrigo Lacerda. O fazedor de velhos 5.0. SP: Cia das Letras, 2020, p. 274]. Interessante notar que esse excerto coaduna com uma linha de pensamento kantiano, segundo a qual, somente através da razão, o homem atingirá a maioridade crítica que não necessariamente ela chega com os 18 anos, momento em que o sujeito se acha no direito de ser dono de suas próprias ações, mas morando na casa dos pais. Esse pequeno trecho faz com que o leitor faça profundas reflexões sobre o ato de ir, vir, e de o ato de ficar junto dos familiares e suas partilhas.

 

Pandemia

Parece-me que este pequeno trecho e a questão alusiva à maioridade crítica pode ser útil para o nosso presente, bem como o primeiro aforisma deste domingo, serve para se pensar os problemas pandêmicos que a sociedade brasileira vem passando e Penápolis não fica de fora, pois não é uma ilha como naquele poema medievalista Para quem os sinos dobram, entretanto, os dados sobre a proliferação do Covid-19 assustam e não é um aumentozinho e nem uma gripezinha como disse o presidente da República. No momento em que essas linhas eram tecidas por esse colunista, a cidade tinha registrado 36 casos com uma morte logo quando a doença aportou aqui. A preocupação reside no fato de que há uma semana, eram registrados 23 casos e agora são 36, isto é, mais de 55% e, se continuar nesse crescente, a situação ficará mais periclitante ainda.

 

Ações

Há culpados para esse aumento no número dos indicativos pandêmicos em Penápolis e nas cidades da região, inclusive com registros de óbito? Posso ficar aqui vários dias escrevendo sobre isso e aquilo, contudo, creio que no geral, o brasileiro não sabe lidar com prevenção e não é só no campo da saúde, mas em diversos setores da vida ativa na sociedade. Talvez isso seja uma consequência de o país nunca ter passado por períodos de guerra, como aconteceu na Europa durante a maior parte do século XX: revoluções aqui e ali, sedições separatistas acolá, totalitarismos espalhados por todos os cantos do velho continente, guerras civis como a da Espanha e outras pandemias autoritárias. Bom! Para este domingo é isso, meus caros leitores, nos próximos aforismos pretendo explanar um pouco mais os aspectos políticos da cidade, como por exemplo, as chances do ex-vereador e ex-vice prefeito José Carlos Aguirre Monteiro vir a ser o vice na chapa que o PT pretende apresentar à cidade, sendo encabeçada pelo empresário Kadu Rodrigues. Pelo menos o convite foi formulado numa reunião virtual realizada na última quinta-feira que contou com os dois e a presidente da legenda em Penápolis, a professora Jandineia Fernandes e o ex-prefeito João Luís dos Santos. E-mail: gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.con.br.

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