Democracia e poesia

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Duas coisas que não podem deixar de existir na sociedade globalizada: democracia e poesia. Entendo o primeiro como sendo o verbo soprado através do voto e compreendo o segundo, a partir do verbo sendo assoviado em forma de versos rimados ou não, porém, com signos vertidos através de diversos significados e significantes. Estes podem ser expressados de várias maneiras, seja em prosa ou até mesmo em canções acompanhadas de muitos acordes regidos e construídos ou não pelas claves de Sol, ou outra que o compositor queira fazer uso. No caso da democracia, a coisa só pode acontecer de uma maneira: participação popular numa República presidencialista ou parlamentarista, nunca numa autocracia, sendo assim, o poeta Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) tinha razão ao afirmar que “a praça é do povo, assim como o céu é do condor”. Mas será que até mesmo numa Monarquia, as chances de a democracia existir são significativas? De acordo com Immanuel Kant (1724-1804) e a sua À paz perpétua para que o povo viva numa república, este precisa ser educado, a exemplo do que acontece numa monarquia quando o herdeiro é preparado para reinar, deixando para, em alguns casos, o parlamento governar, isto é, numa monarquia parlamentar. A memória que os brasileiros têm de seu Império, sobretudo do Segundo Reinado (1840-1889) é a mesma que coaduna com o seu presente republicano, ou seja, de privilégios, autocracia, plutocracia e uma burocracia aristocratizada advinda de uma nobreza arruinada.

Posto isto meus caros leitores, tentarei no texto de hoje tratar tanto de um assunto quanto de outro, isto é, da democracia através da participação do povo – ou de indivíduos, pois essa ideia de povo só se coaduna quando há sinergia entre sujeitos sociais e cidadania plena e aquilo que George Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) chama de espírito de um povo [Voksgeist], marcado sobretudo pelo espírito do tempo [Zeitgeist], entretanto, se não há uma população com tais atributos, provavelmente a participação política é iniqua, mas quando existe é de forma delegativa, conforme diz Guilherme O’Donell (1936-2011) em seu ensaio Democracia delegativa. Desta forma, podem estar se perguntando quais são os marcadores sociais que uso para dizer que aqui no Brasil não existe um povo, mas apenas um público que, de acordo com Aristides Lobo (1838-1896)  e, depois recuperado pelo cientista político José Murilo de Carvalho em seu livro Os bestializados, assiste a tudo, como se estivesse vendo uma parada militar aguardando a chegada de D. Sebastião ou do Messias prometido nos tempos da colonização jesuítica. Dito de outra forma: o Brasil seria um aglomerado de pessoas que sonha em estar em outro lugar que não neste paraíso, conforme descrito pelos viajantes. Sendo assim o brasileiro seria portador de um certo bovarismo [relativo ao romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880)], apontado pelo historiador Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu livro Raízes do Brasil. Entretanto, diante do exposto acima, como é possível construir uma Nação a partir do que ela é possuidora e se constitui enquanto tal? Recordem-se que sem um “povo” cônscio de sua historicidade não é possível construir um país, [talvez por isso as autoridades constituídas eletivamente em 2018 odeiam tanto as áreas de História, Sociologia e Filosofia]. Tem-se suas dimensões geográficas, como é o caso do Brasil, que lhe outorga a adjetivação de país continental, no entanto, não há uma organização coerente e nenhuma federação que de coesão à República. Esta observação, me faz tentar entender se um dia, em seu passado, o Brasil chegou a ser de fato uma Nação, mesmo que sendo colônia de Portugal e, se existiu, quando ocorreu a sua ruptura, ou melhor, em que momento se deu a sua anomia, conforme Emile Durkheim (1858-1917) nos explica sobre a passagem das sociedades tradicionais para a industrial, no que compreende como solidariedade mecânica e solidariedade orgânica, dois conceitos para entendermos o funcionamento da sociedade a partir dos fatos sociais, que são externos ao homem e coercitivos, portanto, definido por Florestan Fernandes (1920-1995) como fenômenos sociais, pois se repetem cotidianamente.

Usando como referencial essa questão interposta pelo sociólogo francês em suas obras, mais especificamente no livro A divisão social do trabalho, será que conseguirei vislumbrar essa ruptura? Parece-me que primeiro lugar, é importante detectar que o Brasil é escudado numa sociedade escravagista e tradicionalista que, ao receber como acréscimo um Estado construído a partir do alto, isto é, do trono onde as bandeiras tremulavam enquanto despejavam migalhas para as pessoas que ficam nos sopés da pirâmide social, onde estão instaladas as categorias sociais, chamadas classes D e E, e caso queiram, há ainda a F… Essa condição perdurou depois de 1822, quando o país se livra do julgo lisboeta quitando uma dívida com a Coroa portuguesa a partir de um empréstimo feito junto a uma casa financista britânica. Livre de Portugal, a jovem nação independente se viu presa nos ardis e tramas políticas nos subsolos dos palácios, inclusive com a Constituição de 1823 atribuindo ao Monarca a outorga de escolher os integrantes da Corte Suprema – esse dispositivo foi mantido pela República até o presente, sem que nenhuma PEC (Proposta de Emenda a Constituição) tenha sido apresentada para modificar tal dispositivo e ai um grupo de pessoas, arrogando o direito de livre manifestação do pensamento ameaça os integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal), indicando total desconhecimento da democracia e de como as coisas se processam, entretanto, preferem pelejar pela instalação da autocracia, mesmo tendo o representante-mor defendendo a legitimidade de seus interesses e de seus familiares em detrimento da população brasileira. Desta forma, como é possível a participação popular se o sujeito que se social desconhece os preceitos constitucionais que fundamentam o Estado brasileiro? Sendo assim, creio que boa parte dos integrantes das chamadas classes médias baixa, ao desconhecerem a democracia em sua íntegra, se compraz com visões distorcidas da política, pois entendem que esta deve lhes favorecer sempre, principalmente o desejo de ascensão social, mesmo que esta seja mediada pelo crédito e não pela renda mensal aferida do trabalho bem remunerado – em outra oportunidade tratarei deste assunto de a renda ser formada artificialmente por cartões de créditos, cheques especiais e empréstimos a perderem de vista.

Se grande parte do brasileiro não tem educação financeira adequada, caindo no canto da sereia entoada há muito tempo e reforçada por um ex-ministro da comunicação do governo lulo-petista, segundo o qual, o trabalhador não estava interessado em questões macro e nem microeconômicas, mas somente se a prestação do bem adquirido cabia em seu bolso. Bom! Todos sabem as consequências dessas verborragias populistas e ela está governando o Brasil agora. Sem conhecimento adequado do mundo das finanças, como compreender os tramites políticos duma nação, cuja população tem asco da política, mas sempre a faz em seu cotidiano quando defende seu eleito como se este fosse de estimação e sem máculas? Realmente, para se formar enquanto povo, o brasileiro precisa urgentemente conhecer um pouco de direitos políticos, direitos sociais e civis. Sem isso, não haverá Brasil pós-pandemia, quiçá economia numa sociedade escudada no escravismo, que professa o cristianismo, mas não tem apego à solidariedade e nem amor ao próximo que passa fome, frio, mas apenas o credo “meu pirão primeiro” e meu clubinho em primeiro lugar, no qual somente os adjetivados e portadores dos mesmos caquéticos predicativos entram e gozam da amizade. Bom! A segunda parte seria sobre a poética, mas o espaço acabou, portanto, tratarei do assunto num próximo encontro com vocês, meus caros leitores, entretanto digo-vos que numa Nação iletrada como a nossa, falar sobre poética e demais enunciações é como pregar no deserto, mas o farei do mesmo jeito.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *