Mais poéticas, menos truculência

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Em tempos pandêmicos e de muita truculência e atos antidemocráticos, busco aqui em minhas recordações acadêmicas, e um pouco antes disso, coisas e leituras que me impactaram na busca pela compreensão do humano que se pretende demasiado humano, contudo, quiçá ser um ente que se propõe ao uso constante da razão, lança mão de práticas que me fazem entender que ainda se encontra longe da maioridade crítica proposta pelo pensador alemão Immanuel Kant (1724-1804). Durante essa jornada, recuperei a sensação que a leitura do clássico do realismo francês escrito por Victor Hugo (1802-1885), Os miseráveis me proporcionou. Eu começo pelo prefácio: “enquanto, por efeito de leis e costumes houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século – a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis”. Enfatizo, em termos comparativos, que esta obra foi publicada em 1862, portanto, século XIX. Sendo assim, pergunto-te meu caro leitor semanal: alguma coisa mudou nestas duas primeiras décadas do Terceiro Milênio?

Se tua resposta for positiva, ou seja, de que mudou, então o restante deste artigo tornar-se-á desinteressante para ti, portanto, caso queira, sinta-se à vontade para não prosseguir na leitura. Agora, se for negativa, então sugiro-te que me acompanhe no que se segue a partir de determinadas interpelações. A primeira principia do não! Se é assim, por que a negação? O que a humanidade precisa fazer para que a enunciação de Victor Hugo faça parte apenas da vida de bibliófilos que adoram adornar seus cômodos com os livros? Mas, antes de prosseguir, seja no campo do questionamento ou das admoestações sobre a temática que proponho para hoje que tu me deixes trazer o romance Nascido do crime, do escritor sul-africano Trevor Noah, cujo enfoque já começa pelo próprio título. Na África do Sul, antes do fim do apartheid um relacionamento sexual e amoroso entre brancos e pretos era considerado crime, daí a nomeada da enunciação, cujo escopo é a própria condição do autor, isto é, filho de um crime – vergonha que a humanidade cisma em manter, pois aqui e alhures existem aqueles que se acham mais humanos que outros por conta da tonalidade de suas peles. Desta forma, parafraseando o cronista lusitano João Pereira Coutinho, autor de um livro sobre o pensamento conservador, o racismo, assim como as tiranias, só pode sobreviver se as pessoas que os alimenta e aqueles que são vítimas o mantiver dentro desta perspectiva.

Soma-se a essa reflexão, a temática do filme Um reino unido. É a história real de Botswana, país africano que até meados da década de 60 do século XX era um protetorado inglês e corria o risco de ser invadido pela racista África do Sul. A coisa ganha temperos de dramaticidade quando o príncipe herdeiro que está prestes a assumir o trono, apaixona-se por uma plebeia inglesa e é correspondido no amor, casando-se com ela a revelia da própria tribo e das autoridades britânicas. Dito de outra forma: um preto africano unido a uma branca num país fronteiriço com os sul-africanos. Para aquele momento tenso da Guerra Fria, a coisa esquentou para os lados do casal que precisou de muita força de vontade e astúcia política para conseguir manter o matrimônio. Interessante notar que, além das escaramuças britânica, Ruth Willians e Seretse Kama, precisam enfrentar o amuo do tio, que ficou como regente enquanto o herdeiro se preparava em terras londrinas para assumir o reinado junto de seu povo. Claro que as consequências disso tudo eu não vou relatar aqui, mas uso a história real para evidenciar o quanto o ser humano ainda se encontra naquele estágio narrado por Victor Hugo no prefácio de uma de suas clássicas obras: as outras duas, entre tantas, são: Os trabalhadores do mar e Nossa Senhora de Paris – cuja personagem principal é o guardião do sino da catedral de Notre Dame, Quasimodo.

E como estou enfocando o universo artístico e literário para balizar minhas reflexões hoje, acho interessante compartilhar contigo, meu caro leitor, uma observação feita pelo crítico literário brasileiro Antônio Candido (1918-2017) no ensaio Esquema em Machado de Assis, que faz parte do livro Vários escritos (Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2013). Segundo ele, “nas obras dos grandes escritores é mais visível a polivalência do verbo literário. Elas são grandes porque são extremamente ricas de significado, permitindo que cada grupo e cada época encontrem as suas obsessões e necessidade de expressão” (2013, p. 18). Posto isso, creio que seja de bom alvitre, explicar a você que chegou comigo até aqui o por que da utilização de obras literárias para pensar o comportamento humano. Primeiro, porque a ficção me permite encontrar um quantum da realidade, mesmo que para isso, seja preciso construir um tipo ideal, conforme sugere o pensador alemão Max Weber (1864-1920). Isto é, a criação de tipos comportamentais presentes na sociedade que sejam significativos e que possam ser expressados nas páginas romanescas e demais discursos poéticos. Por exemplo, no romance Bandeira negra, amor, o enredo desenrola em torno do advogado ativista negro Fred e a Major da PM fluminense Beatriz. Interessante notar que a oficial da Polícia Militar é branca e divorciada de outro oficial também branco. Os atores desse enredo podem ter sido inspirados em situações concretas da vida, sem, no entanto, passar a certeza ao leitor de que um dia existiram, de acordo com o que informa o filósofo grego Aristóteles em sua obra Poéticas.

Mas o que o jornalista Fernando Molica pretendia com tal enunciação publicada em 2001, portanto, logo no começo do Terceiro Milênio? Colocar no campo da ficção algo de concreto, ou romantizar uma situação criada apenas em sua mente de escritor? Creio que seja um pouco das duas coisas, pois ainda temos questões raciais para serem equacionadas e isso evidencia-se quando relacionamentos inter-raciais são vistos como exóticos. Meu caro leitor, tu irás dizer que isso acontece com boa parte da sociedade brasileira e que, por isso o racismo é imaginação de descendentes de africanos escravizados que gostam de se vitimar. Não creio que seja desta forma, pois só sabe o que é o racismo quem passa por ele, principalmente aquele velado escondido na frase: “eu até tenho um amigo negro!” Entendo que não se tem amigo preto, branco, indígena, nipônico, mas apenas amigo. Se eu estiver equivocado, quem sabe o meu leitor possa explicar por que os pretos e descendentes de africanos são tão vilipendiados no cotidiano, principalmente quando estão diante dos integrantes dos aparelhos repressivos de Estado? As poéticas, desde antes de Machado de Assis, chegando à narrativa de Toni Morrison (1931-2019) presente no romance O olho mais azul, passando pelas enunciações da também norte-americana Maya Angelou (1928-2014) autora da narrativa Eu sei por que o pássaro canta na gaiola e aportando no romance Quarto de despejo: diário de uma favelada, da brasileira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), têm muito a nos dizer, meu caro leitor, sobre o racismo que enfrentamos diariamente. Creio que o filme Loverday [baseado em fatos reais que deu origem ao Dia dos Namorados nos EUA] também pode dizer alguma coisa, pois trata-se de um casal inter-racial condenado por um juiz norte-americano, que alegou em sua sentença a suposição de que Deus teria criado os continentes africanos e americanos separados para que brancos e pretos não se unissem em matrimônio. Pensemos com profunda acuidade!

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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