Existências em liquidação

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Recordo-me de alguns momentos significantes durante as minhas passagens pelos bancos da UNESP e da UNICAMP, entre eles quando, durante uma aula de Sociologia, o docente nos instou a pensar a sociedade a partir de alguns textos significativos: Tudo o que é sólido desmancha no ar – Marshall Berman (1940-2013) -; O manifesto do partido comunista – Karl Marx (1818-1883) – e Fausto, de Johan Wolfgang von Goethe (1749-1832). Os três livros abordam, sob perspectivas diferentes, o espectro da modernidade e de como ela estaria consumindo a vida ativa dos sujeitos envolvidos, cada vez mais, no mundo das mercadorias, sejam consumindo ou se transformando no próprio objeto a ser adquirido e desejo de muitos. Neste sentido, o corpo acaba se transformando no mesmo ente almejado, através daquilo que o economista Thorstein Veblen (1857-1929) denomina de consumo conspícuo. Seria esse o sentido pela busca do corpo perfeito ou apenas melhores condições para a saúde física e mental? Não arriscarei uma resposta, já que não quero correr o risco de generalizar e perder o escopo de minhas análises neste texto.

Tendo essas observações como premissa, convido meus leitores – se eu ainda os tiver – a dar uma passeada comigo por alguns argumentos e reflexões sobre o mundo contemporâneo no qual tudo se dissolve no momento seguinte para ser recriado em outro contexto, vivência, contudo, sem a longevidade necessária para que os sujeitos sociais apreciem suas formas, seus conteúdos e respectivamente seus sentidos, sejam eles subjetivos ou objetivos. Mas por que tanta brevidade no existir das coisas e das pessoas? Puxo aqui pela memória de um outro debate do qual participei durante a graduação. O tema versava sobre a finalidade do sistema capitalista. Quando se observa que a dinâmica do mundo do capital não é a venda e nem o consumo, mas a produção em si, compreende-se os outros mecanismos para que o indivíduo aceite que há a necessidade de se possuir tal mercadoria, seja ela humana ou objeto inanimado. Se não há no sistema em si essa relação de compra e venda, o que o motiva então a continuar ditando as regras do mundo neste Terceiro Milênio? O capitalismo ainda é mantido justamente por que sua razão de ser é a diferença e não a semelhança, contudo, nessa sua existência, o que distingue uma coisa da outra gera a desigualdade social, étnica, econômica, cultural, com alguns sujeitos se achando mais humanos do que outros, como disse certa vez a escritora Marilene Felinto.

Lembro-me dum certo dia que outro docente abordou a temática dos engarrafamentos. A partir daquele momento comecei a prestar mais atenção na quantidade de veículos automotores que estão nas ruas das principais cidades do país e também em municípios de portes medianos ou até mesmo pequenos. É interessante notar que é enorme a quantidade de carros que vão para a mesma direção, tendo em seu interior apenas uma pessoa. Quando essas máquinas param nos respectivos faróis ou em engarrafamentos, é impressionando como seus ocupantes trocam olhares, mas não um para o outro e sim para a mercadoria que estão conduzindo. Ação que evidencia que os sujeitos portadores dessas máquinas possantes só existem nelas e para elas, enquanto o ser humano passa a ser descartado na medida em que não se compraz com esses fugazes desejos consumistas e efêmeros. Claro, meus caros leitores que estamos numa sociedade democrática e cada um escolhe o jeito que melhor lhe aprouver para levar a sua existência, entretanto, é interessante compreender o sentido das coisas para que quando o caos se instalar, as pessoas saibam porque a situação está beirando o descalabro.

Em tempos de vida líquida, como é possível se manter seguro num mundo em que tudo se transforma e se torna mercadoria? O sentimento é líquido, se desfazendo no momento seguinte, isto é, após ser consumido como novidade. A partir desse ponto, respaldo minha análise no livro O dia do coringa, de Josten Gaarden. Em linhas gerais, a enunciação é muito bela, principalmente quando o narrador aporta numa ilha habitada por cartas de baralhos, sendo que há uma que só dava risadas que, quando foi lhe perguntado qual era o motivo dos sorrisos, não soube responder, justamente porque não sabia o motivo das gargalhadas. Parece-me que é assim também no mundo concreto. Quando alguém adquire um objeto novo, quer logo apresentá-lo ao mundo fenomênico, ou melhor, para os amigos e, caso entre eles, há um que não dá tanta importância para o bem, chamando a atenção para o sentido que o mesmo tem na vida do comprador, logo será rechaçado ou adjetivado como invejoso, fracassado, ave de agouro e por aí segue as rotulações. Mas por que precisa ser dessa forma e não de outra maneira? Por que não se pode pensar diferente, aspirar outras coisas que não os objetos materiais?

Há outro livro do mesmo filósofo norueguês Através do espelho em que, num determinado momento do enredo, a personagem diz que está diante do espelho, vendo-se como um poço no qual mergulha na sua mais profunda existência. Se o ser é o poço e o indivíduo vai o mais fundo possível, o que encontrará lá? Mais dele mesmo, contudo, qual é a qualidade do que foi localizado, as origens e os valores geradores dessas características? Deste modo, o sujeito tentará entender o escopo da própria existência, isto é, se está nas coisas em si ou nos objetos para si, dando-lhe vasão à sua existência efêmera, pois o homem é o único animal com capacidade racional para entender a própria finitude. Essa certeza o assombra diariamente, já que, apesar de dominar muitas coisas e tecnologias, não sabe se estará respirando ao final de mais um expediente no orbe terrestre. Essa condição fugaz, que escorrega pelas mãos do homem lhe dá a sensação de que o tempo passa mais rápido e com ele, a certeza de que o fim está próximo. Se isso é fato, o que se deve fazer no eterno presente que se escorrega diariamente em direção ao futuro incerto? Consumir tudo agora ao mesmo tempo, existir só no hoje, pois o ontem é mera retórica da memória e o amanhã nunca será, fazendo coro àquela ideia kantiana, segundo a qual, o homem nunca se concretizará, vivendo, portanto, o eterno vir a ser.

Se o amanhã ainda não chegou, mas já acabou nesse instante, então o que sobra para o sujeito, o ente que se pretende ser um indivíduo social? Nada! Restando-lhe existir no consumo em si, desejoso de que esse gosto conspícuo seja apreciado por aqueles que não têm condições de tê-lo, ou não busca a mesma realização pessoal no campo da materialidade. Quando o homem se depara consigo mesmo, lhe fica a seguinte interpelação: o que fazer nesse segundo que será consumido, subsumido pelo próximo instante? Realizar tudo ao mesmo tempo, sem escutar a pergunta: por que fazer isso, por que ages assim ou de outra maneira? Não quer ouvir a interpelação que aquela carta do romance O dia do Coringa escutou do narrador. Enfim, já que o existir se esgota na próxima piscada de olhos, por que se preocupar com o devir da vida? Parece-me que a problemática principal está no fato de que nem todos podem fugir do vazio existencial se intoxicando de consumo, como diz certa vez o dramaturgo brasileiro Antunes Filho (1929-2019). Como nem todo mundo pode dar essas escapadelas pelo mundo mágico da mercadoria, tem-se aí as desigualdades em diversos níveis. Desta forma, passa-se a utopia, segundo a qual, o mundo só será realmente suportável se os tamanhos das distâncias sociais forem encurtados rapidamente.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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