Olhar Crítico

Sêneca

“Há de vir o tempo no qual uma pesquisa diligente durante longos períodos revelará coisas que hoje estão ocultas. A duração de uma vida, mesmo que toda dedicada ao céu, não seria suficiente para a investigação de um tema tão vasto […]. E por isso esse conhecimento só se desdobrará ao longo de sucessivas eras. Virá um tempo no qual nossos descendentes ficarão espantados com o fato de que não sabíamos de coisas que para eles serão tão evidentes […]. Muitas descobertas estão reservadas para épocas ainda por vir, quando a lembrança sobre nós estará apagada. Nosso universo é um caso lamentavelmente ínfimo, a menos que encerre coisas que cada época terá de investigar […]. A natureza não revela seus mistérios de uma só vez” [Sêneca, Questões naturais, livro 7, século I].

 

Vestibulares

Comecei os meus aforismas dominicais recorrendo a esse excerto do pensador romano Lucio Aneu Sêneca (4.a.C-65 d.C), contido no livro Cosmos, de autoria do astrônomo norte-americano Carl Sagan (1934-1996) para parabenizar a direção e toda a equipe técnico-pedagógica do Colégio Futuro pela quantidade de estudantes que concluíram o Ensino Médio o ano passado e ingressaram imediatamente em instituições de ensino superior, cujos vestibulares são concorridíssimos como a Fuvest, que seleciona estudantes para a USP (Universidade de São Paulo), a melhor do Brasil e em alguns casos, como Física na USP-São Carlos, da América Latina. Conforme as chamadas subsequentes da própria Fuvest, Unesp e Unicamp, vão acontecendo, cresce o número de calouros oriundos do Colégio Futuro. Desta forma, parabenizo todos o corpo dirigente e docente daquela instituição.

 

Investimento

Quando observo quadros como estes oferecidos por aquela escola, retomo sempre uma de minhas teses: a de que educação nunca será custo, seja para a família ou o próprio Estado. O setor precisa ser visto por todos como investimento, pois assim que o discente termina o ensino médio e ingressa numa instituição do porte de uma USP, UNESP e UNICAMP, UFSCar, o retorno não vem para os investidores, isto é, os pais, mas para a sociedade, cujo ganho é enorme. Primeiro porque a Nação terá um profissional qualificado com plenas condições de enfrentar planejando ações que colaborem com a melhoria do mundo em que vivemos. O segundo ponto advém da famosa frase: “Se educares a criança, não precisarás punir o homem”. Desta forma, é possível quantificar, equiparando as duas situações a partir da seguinte interpelação: “qual é o custo com um estudante e o valor gasto com um presidiário?”

 

Punição

Desta singela interpelação ocorre-me a seguinte questão: por que se gasta mais com a punição do homem – não estou cá pensando apenas na construção de cárcere, mas sim em toda a estrutura montada e utilizada para encarcerar um indivíduo que, durante os seus primeiros passos na direção de se tornar um sujeito social, não recebeu um correto direcionamento psicopedagógico? Claro que responder a essa pequena pergunta exigirá de muitos que se predispuserem a percorrer o caminho, uma linha de raciocínio que não começa na sentença decretada por um magistrado contra um criminoso, mas sim lá na ancestralidade dos pais do apenado e nas condições estruturais em que eles viviam. Mas muitos dirão que não se pode ficar usando o passado para justificar o presente do sentenciado.

 

Passado

Entendo que pode ser um tanto quanto apressado apegar-se a essa tese e esbravejar aqui e ali uma saraivada de impropérios contra quem pensa diferente. Claro que tudo depende do esforço de cada um, contudo, é preciso ter claro que os referenciais precisam auxiliá-lo nesse sentido, portanto, se os marcadores sociais forem a senzala, a chibata, o escarro na cara e o descrédito por conta da tonalidade de pele e a condição em que os antepassados se encontravam, será complexa a reversão das marcas indeléveis deixadas por esse passado de violência, dor e muita desumanização que permanece até o presente deste cidadão que carrega consigo traços da e escravidão e posteriormente do preconceito étnico-racial.

 

Sentença

É neste sentido que a ação do torcedor da equipe de futebol profissional da cidade deve ser veemente combatida, sendo que a sentença que o mesmo recebeu do TSD de não frequentar mais estádios por dois anos deve ser estendida a esfera civil. Ou seja, que o mesmo sofra sanções na Justiça Comum para coibir novos racistas de tentarem denegrir seus semelhantes por conta da tonalidade da pele que possui muita mais melanina. Só acrescentando: ações desse tipo evidenciam o quanto o Brasil do século XXI se atola mais no país Oitocentista e colonial. Não há como ficar assistindo atitudes dessas que denigrem o próprio sujeito que o faz se achando superior aos demais.

 

Comemoração

Hoje o dia é delas: das mulheres! Entendo que pela presença que possuem entre nós, não deveria haver um dia específico e sim todos, todavia, sabe-se que a sociedade tem lá o seu constructo a partir duma ideia patriarcal e medievalista que resiste ao avanço da tecnologia, do tempo e da ciência. Essa, aliás, tem deixado muitos líderes vociferadores e ceifadores das liberdades alheias de cabelo em pé, pois berram aqui e ali brados ultrapassadíssimos, mesmo com provas científicas elaboradas a partir do século XV. Deixando esse patriarcalismo medievalista para outra oportunidade, aproveito aqui para mandar um abraço a todas elas em especial àquela que me ensinou tudo e mais alguma, pois, mesmo ela não estando mais entre nós, eu continuo aprendendo com suas narrativas pretéritas: Geny Pereira dos Santos!

 

Educação

Se no artigo que estampo aqui semanalmente, perguntei aos meus leitores qual Estado preferiam construir, hoje os interpelo sobre o campo educacional: qual educação querem para seus filhos? Qualquer que seja a reposta, ela deverá vir seguida duma participação mais ativa dos pais na vida da escola e não aparecerem nas instituições apenas quando forem acionados por atos indisciplinares de seus rebentos. Até porque a função do professor é auxiliar os alunos a transformarem informações em conhecimento. Respeito ao próximo e se comportarem adequadamente dentro duma unidade educacional são valores que devem ser passados pelos pais ou responsáveis. Mas o que se observa não é bem isso. Claro que há casos em que os pais são presentes e o resultado pode ser encontrado dentro da sala de aula e respectivamente nas notas dos estudantes. É isso para hoje. Desejo a todos os meus leitores dominicais, um excelente domingo. E-mail: gildassociais@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *