Olhar Crítico

Tristeza

Início meus aforismas dominicais a partir das observações feitas pelo jornalista Gilson Ramos em sua última coluna, Observatório da cidade, publicada aqui neste espaço no dia 27 de fevereiro. O começo de meus olhares não poderia ser diferente, isto é, a partir duma interpelação: o que leva um sujeito e sua camarilha a divulgar notícias falsas numa rede social enfocando um dos melhores servidos de tratamento de esgoto e fornecimento de água do país? Nem de brincadeira se deve tratar de coisas tão significativas para os penapolenses dessa forma jocosa. Quem lançou uma desinformação dessa e, quem divulgou, prestou um desserviço à comunidade.

 

“Burros n‘água”

Se o escopo é o de provocar ou como se diz no popular “causar”, o cidadão e seus asseclas deram com os “burros n‘água”. É preciso observar que agora em 2020 haverá eleições municipais e todo cuidado é pouco, pois é possível, pelas redes sociais, divulgação de inverdades aos montes que pegarão somente os eleitores desavisados e aqueles que possuem uma cidadania manquitola. Não se pode dizer que essa mania de encher a sociedade e a cabeção do sujeito com mentiras, seja uma tática nova. Cito aqui de chofre as famosas “Cartas falsas” atribuídas ao presidente da República Artur Bernardes (1875-1955) que acirrou os ânimos na Primeira República, motivando uma quartelada que culminou com a formação da indômita Coluna Miguel Lemos-Luís Carlos Prestes [Coluna Prestes].

 

Indignações

Outra indignação que registro aqui, diz respeito aos atos dum torcedor do time profissional da cidade surpreendido em claro racismo contra um jogador da equipe adversária. Novamente pergunto: o que leva um sujeito, que se pensa ser um ente social. achar-se superior aos demais por conta da tonalidade da pele? Eu começaria a resposta dizendo que ninguém, nenhum ser que se quer humano, nasce preconceituoso. Ele aprende a ser durante os seus processos de socializações, principalmente a primária, ou seja, aquela iniciada dentro de casa junto aos demais familiares e pessoas que fazem parte do círculo dos indivíduos que circundam esse indivíduo desde os seus primeiros meses de vida.

 

Evidencias

Essa ação, capturada pelas objetivas duma emissora de televisão, evidencia o que venho afirmando há algum tempo, mesmo que muitos neguem, o Brasil é um país fortemente preconceituoso, principalmente no que diz respeito aos descendentes de escravos. Desta forma, não adianta dizer que não, pois ainda se vive sob os auspícios do mundo escravagista! Eu observo com tristeza ações como essas, pois entendo que nem mesmo a legislação vigente é capaz de conter atitudes como essas porque, quiçá sejam crimes, elas partem do interior do ser, lá onde habita sua consciência que já está contaminada, deturpada e distorcida em relação aos valores humanos e os princípios que nortearam a Revolução Francesa de 1789 – Igualdade, Liberdade e Fraternidade!

 

Educação

Aproveito a ocasião para trazer uma questão proposta pelo pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) – autor de clássicos da filosofia jusnaturalista: O contrato social; Cartas escritas da montanha; Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Emílio ou da educação, entre outros. Segundo esse filósofo, o homem nasce bom, sendo este o seu estado de natureza e a sociedade que o transforma num modelo grotesco, violento e preconceituoso. De acordo com esse justanaturalista, a educação seria a responsável para auxiliar o sujeito social a encontrar o seu estágio anterior ao de ter se tornado membro da sociedade. Se o setor educacional é o responsável, portanto, dever do Estado – esse Leviatã, instituição criada e mantida através das leis por vontade do próprio sujeito interessado em conservar o equilibro entre os seres que criam diariamente e ressignificam o mundo em que vivem.

 

Despautério

E por falar em educação, achei grotesca uma observação feita pelo governador do Estado na semana passado. Ele enfatizou que o Estado não paga professores para ficarem em casa ingerindo suco de laranja. Momentos depois da repercussão, voltou atrás e tentou arrumar o dito, todavia, a primeira fala foi a que ficou evidenciando como a nossa categoria é vilipendiada pelos governos que enxergam a educação como custo e não investimento. Entendo que do ponto de vista democrático, os governantes foram eleitos com a maioria dos votos, portanto, uma fala dessas pode até ser vista como oriunda da boca dos eleitores. Não vou polemizar aqui, mas apenas registrar o quanto fiquei indignado com tal abordagem, pois a situação educacional no país está periclitante e ainda somos ofendidos diariamente em nosso exercício profissional. É bom que todos saibam que os países que investiram em educação conseguiram construir um futuro melhor para seus habitantes.

 

Constituição

Aproveitando o gancho dessa questão, ressalto aqui que a Constituição de 1824 vetava a educação aos escravos e descendentes de africanos e que a Lei de Terras também encareceu o valor das mesmas para inviabilizar que o elemento servil, quando conseguisse comprar sua liberdade, adquirisse imóveis e se tornasse um proprietário rural. Muitos dos que me leem, podem até dizer que isso está num pretérito longínquo deste presente [2020], contudo, faz-se necessário ressaltar que a atitude daquele torcedor da equipe de futebol local, encontra respaldo nesse passado que todos dizem estar lá no século Oitocentista, no entanto, o tempo se esvaiu com o tique-taque dos relógios, porém permaneceu o hábito nefasto de sentenciar o outro a partir de seu pertencimento étnico. Coisas de Brasil? Parece-me que ainda se está longe de ser encontrado a harmonia no território brasileiro.

 

Democracia

É dentro dessa perspectiva que pretendo tecer umas pequenas linhas sobre democracia.  Há um burburinho aqui e ali sobre o papel do Legislativo e do Judiciário e o descontentamento de parte da turba brasileira que deseja ir às ruas manifestar a sua contrariedade às duas instituições citadas acima. Entendo que aqui cabe a leitura dum livrinho, confeccionado pelo Barão de Montesquieu [1689-1755] chamado Do espírito das leis. É interessante notar que, quando as instituições não funcionam de acordo com os interesses dum presidente que quer reinar, vem logo uma patuleia fazer barulho. É preciso ter claro que os integrantes do Congresso foram eleitos juntamente com o atual mandatário. Logo, tanto Câmara Federal e Senado Federal são a cara da sociedade que as escolheu, portanto, não entendo tanta grita por conta disso. Se querem um legislativo de joelhos para um governante que diariamente desrespeita profissionais, mulheres e outras minorias, é preciso fazer a troca democraticamente durante as eleições e a propósito, temos um pleito agora em 2020. Comecem pelo município. E-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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