Brasil: de fio a pavio

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Em tempos de contendas, nem sempre lógicas, isto é, pautadas em conhecimentos e posturas críticas de ambos os lados do trebelhar, seja ele ideológico ou partidário, é sempre bom, antes de dizer ou compartilhar qualquer tipo de informação nas redes sociais, analisar se o conteúdo tem significado, sentido ou é apenas mais um signo escudado no desejo de apimentar o debate que poderá beirar a irracionalidade, tamanho o desejo dos contendores em vencer a peleja e, esse anseio, ressalto, empobrece qualquer diálogo, seja em que esfera for. A coisa então beira ao descalabro quando alguns tentam convencer seus oponentes com palavras de ordens escudadas em mensagens retiradas ou emitidas por robôs ou por políticos com índoles duvidosas. Posto isto, fica-me a seguinte interpelação: como se livrar de tais abacaxis e contendas empobrecedoras do mundo da política ou de qualquer outra temática, como a religiosa ou a futebolística? Na reflexão – ou quase isso – de hoje deter-me-ei apenas ao universo da política brasileira, cujos ânimos estão refregados ao extremo, o que é periclitante numa sociedade em que o conhecimento político e a cidadania são efêmeros, mas mesmo assim todos querem estar certos a partir do seu microcosmo de conhecimento sobre a questiúncula.

Neste primeiro momento, dividirei com os meus leitores uma observação que consta no livro A revolução brasileira, escrito pelo pensador Caio Prado Jr. (1907-1990). Em linhas gerais, o leitor arguto entenderá quando o autor explica que a herança colonial ainda se faz presente na cercania brasileira, impossibilitando que a mesma de o salto necessário em direção ao tão sonhado progresso. Convêm lembrar que o historiador está estudando o país no período posterior a chamada Revolução de 30 e o golpe militar de 1964 – há quem acredite que esse fato não merece tal adjetivação, mas não me atentarei a esse universo que deve ter uma reflexão a parte, portanto, se adentrar nesse âmbito, o foco de minhas observações se perderá. De acordo com Caio Prado, no período entre as duas sedições, o objetivo da Nação era substituir o modelo industrial centrado na importação, mas para que isso pudesse acontecer fazia-se necessário que o país possuísse um proletariado e um trabalhador assalariado capaz de absorver os produtos que fabricaria, alavancando a industrial nacional. Todavia, a massa que formava aquela complexa mão de obra, basicamente formada pelo imigrante europeu somando-se ao de ex-escravos, vivia num grau de alta miserabilidade, anulando assim a possibilidade de surgir um setor fabril voltado para o mercado interno.

Essa é uma singela nesga do pretérito desta Nação, cujo presente é marcado profundamente por um litígio descabido entre os tais “nós” e “eles” fomentado por duas figuras do cenário político brasileiro que objetivam, ou voltar ao poder com o seu grupo ou permanecer por mais um quadriênio com a anuência do eleitorado e, para que os objetivos sejam alcançados, vale tudo, inclusive empobrecer o debate baixando o nível das contendas, incluindo ainda ofensas a profissionais de imprensa, como se isso fosse a coisa mais natural, enquanto a patuleia se engalfinham por sobras dos peixes que caem do alto do trono. Não posso deixar de enfatizar aqui que tudo isso só ocorre por conta dos bajuladores e apaniguados que aplaudem como se estivessem num circo dantesco. É esse tipo de peleja política que afasta aqueles cidadãos que têm algo a contribuir para o cenário nacional, contudo, foge justamente pelo empobrecimento do debate. Como dialogar com alguém que não tem o hábito de ler um jornal inteiro, uma revista, um livro em que seu conteúdo seja ou não sobre os bastidores da política nacional? Como conversar com alguém que nunca abriu o livro Notícias do Planalto, escrito pelo jornalista Mario Sergio Conti, sobre os bastidores da eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1989, ou a obra Deus é inocente, a impressa não, de Carlos Dorneles?

Parece-me que sem tais requisitos ou cabedais, a conversa caminhará para uma discussão inócua, com possibilidades de desavenças provocadoras de fissuras difíceis de serem equacionadas ao longo do tempo. É neste sentido que, do meu lado, entendo ser necessária a compreensão deste país republicano, cujo início deu-se por conta de algumas contendas entre a sociedade – aparelhos ideológicos e repressivos – e o governo monárquico. Penso não ser necessário voltar a elas, mesmo sabendo que as mesmas marcarão profundamente o presente desta Nação. Conforme venho afiançando aqui, é preciso um quantum significativo de conhecimento para responder a seguinte pergunta: qual Brasil o cidadão quer para seus filhos? Todos têm um caminhão de opiniões sobre as possíveis respostas, contudo, poucos estão dispostos a pagarem o preço ou se esforçarem para que a situação possa ser modificada no momento, objetivando o futuro. Sendo assim, é comum o brasileiro tornar-se prisioneiro de discursos como o divulgado por Fernando Collor de Mello durante a campanha eleitoral para presidente da República em 1989, após um quarto de século de ditadura militar. Ele esbravejava que seria o caçador de marajá. Slogan que foi reordenado com nova roupagem recentemente como o bravo soldado que combateria os focos de corrupção no Governo Federal. Uma análise mais detalhada e desapaixonada levará o cidadão a compreender que tudo não passa de mote eleitoral, daí a necessidade das constantes brigas com a imprensa, além da recriação do adversário de outrora, mesmo que ele esteja abatido, inerte no solo da “Pátria mãe gentil”, é preciso dar-lhe uma sobrevida para continuar massacrando-o para delírio de uma massa, formada em sua maioria de sujeitos despossuídos de educação política.

Por que massacrar um adversário que está na lona? Por que recriar fantasmas ideológicos, como o tal do comunismo? Por que tentar ludibriar eleitores com ojeriza o tal do marxismo cultural que nunca existiu? Por que se comportar como se estivesse numa arena, num ringue em que precisa jogar sempre para a plateia? Por que há a necessidade de guerras constantes nas redes sociais? Se eu fosse responder a essas perguntas, diria: 2022! Como dizia o significativo escritor brasileiro, Machado de Assis (1839-1908) – que sofreu censura num governo dum determinado recôndito brasileiro, mesmo sendo a sua obra fustigada por alunos que não foram habituados a leituras crítica -, é preciso deixar a matilha alimentada, e como a política é um bom prato para manter a patuleia alienada, como na Roma Antiga, então que ela seja a distribuidora das migalhas que caem do alto do trono. Enquanto a patuleia se engalfinham por meras e alienantes curtidas e ofensas a quem pensa diferente, difamando profissionais que trabalham seriamente, bem como estudaram para exercê-la, a elite colonial continua a ditar as regras no governo central, a exemplo do que fizeram quando o fim da escravidão se aproximava e, para que a mesma não viesse de um levante senzaleiro, tratou-se de conceder a alforria aos cativos sem, no entanto, lhes dar condições de sobrevivência. Talvez possa ser encontrada aí respostas a perguntas, segundo as quais, mais de 55% dos brasileiros se autodeclaram descendentes de escravos num país livre que mantem altos níveis de desigualdade social, econômica e educacional. Desta forma, creio que conhecer o Brasil de fio a pavio possa auxiliar esses sujeitos sociais que se deixam levar pela difamação do oponente, ofensas a honra de quem trabalha honestamente exercendo a profissão que escolheu. Outro dia erámos nós, professores os ofendidos e a sociedade se calava, hoje são os profissionais da imprensa. Até quando?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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