Educando para a política

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Noutro dia, conversando com um colega de profissão, este me interpelou com a seguinte indagação: “para onde vamos, meu caro professor?” Respondi com outro questionamento: “de quem você está falando?” Ele respondeu de chofre: “de nossa sociedade e do mundo da política!” Não fugi da contenda e devolvi-lhe com a seguinte premissa: “com sujeitos sociais sem cidadania, chegaremos finalmente ao caos e quem sabe daí pode surgir algo novo!” O meu interlocutor fez uma careta e seguiu em direção ao se destino e eu fui cuidar da vida, como dizia os antigos. Entretanto, fiquei com a sensação de que precisava de mais tempo para lhe explicar minha opinião, sem, no entanto, sem ser catastrofista, mas, como não o encontrei desde então, farei as ressalvas aqui nesta pequena reflexão semanal.

Creio que a primeira coisa que todos devem ter em mente é o fato do fraco conhecimento sobre o universo da política, principalmente aqui no Brasil. Senão vejamos: é moeda corrente que todo político é corrupto, todavia, se isso é fato, por que eles continuam onde estão, ou seja, nos assentos dos legislativos e executivos espalhados pelos mais de cinco mil municípios brasileiros? Para tentar entender essa questiúncula, pode-se recorrer a mitologia grega, mais especificamente ao titã Prometeu, condenado pelos deuses por dar a esperança aos homens. Claro que os mitos são compostos de narrativas, cujos conteúdos podem ter acontecido em algum lugar do tempo e do espaço entre o céu e a terra, ou não, contudo, ao compreender suas estruturas observa-se perfeitamente o quanto eles ainda governam muitas coletividades. Desta forma, o que a condenação do titã grego pode dizer aos meus leitores semanais?

De acordo com aquela enunciação mítica, Prometeu foi acorrentado, tendo uma ave a lhe devorar o fígado durante 12 horas e  como esse é o único órgão humano que se regenera, na outra dúzia de horas, o aparelho hepático se regenera para ser devorado novamente no instante seguinte, numa profunda performance do eterno retorno. Esse processo também pode ser verificado no mundo contemporâneo quando o cidadão-eleitor tem partes de suas vísceras retiradas pelos impostos, taxas e tributos e os políticos lhe dizem durante a campanha que elas serão repostas com melhores empreendimentos nos campos da saúde, educação e segurança. Mas o que se observa é completamente o contrário, isto é, recursos cada vez mais escassos para as três áreas, bem como pagamentos quase que irrisórios aos profissionais que atuam no setor, porém, quando as eleições, sejam em que instâncias forem, se aproximam, está lá novamente o cidadão-político vociferando que fez isso e aquilo e que se o povo quiser mais é preciso validar o seu apadrinhado em outubro. No entanto, o cidadão escuta, vocifera no seu cantinho que todo político é igual, entretanto, se o postulante prometer lhe tirar a dor infindável que sente nas costas, trazendo um ambulatório que o tratará, logo ganhará a anuência do eleitor-adoentado dos males físicos, da memória e de valores éticos.

Tais quadros dantescos só podem ser alterados através do desejo do indivíduo que aperta o sim na urna eletrônica. As mudanças têm início quando o sujeito social compreende que durante 48 ou 96 meses lhe mentiram descaradamente, dizendo que todas as denúncias que tramitam na Justiça são por conta de “perseguição política” ou que jornal y ou emissora x é contra a sua gestão, desejosos de que o povo – leitor ou telespectador – não alcance a tão sonhada prosperidade material. Pífias e tacanhas observações, pois as pessoas que percorrem tais páginas ou se deparam com tais imagens, são possuidoras de cabedais suficientes para discernirem o que é fato do que é ficção. Quando se chega a esse ponto da contenda política, fica evidente que o brasileiro tem conhecimento suficiente para discernir a de b? Seria precipitação de minha parte cravar aqui um Sim! Primeiro, porque não basta saber ler uma reportagem publicada num jornal, bem como uma entrevista com tal político, é preciso mais e neste sentido, usarei uma expressão cunhada pelo pensador alemão Max Weber (1864-1920), isto é, conexão de sentido, ou seja, conectar o que se lê com todo o contexto social, histórico e a conjuntura econômica daqueles momentos ou pretéritos.

Nesta linha de raciocínio, é preciso percorrer as páginas de várias obras para emitir uma opinião sensata. Por exemplo, há uma grita contra o STF (Supremo Tribunal Federal), todavia, poucos sabem que um Ministro da Corte só pode sofrer impeachment do Senado Federal e este órgão é formado por representantes da coletividade, bem como a escolha do integrante do STF está a cargo do presidente da República. Sendo assim, com o Congresso Nacional que existe no país, todo comprometido com corrupção e outros atos delituosos, portanto com muitos processos no Supremo, como é possível expulsar alguns deles de lá? Outro exemplo que posso utilizar é o livro da jornalista Thaís Oyama: Tormenta: o governo Bolsonaro – crises, intrigas e segredos. Por que seu conteúdo provocou a ira do principal governante do país? Só é possível saber, percorrendo as 266 páginas e em seguida ter condições de começar uma análise meticulosa que pode ser feita em parceria com outros livros publicados recentemente, como Os onze, sobre o STF; A elite na cadeia; Crime.gov; O povo contra a democracia, etc. Há outras obras do pensamento conservador brasileiro do final do século XIX e começo do XX que podem ser encontradas nos sites da Academia Brasileira de Letras e do Senado Federal. Leituras que ajudam a entender o presente, portanto, somente depois emitir uma opinião sensata.

Mas enquanto isso não acontece, se vota, se comenta qualquer coisa do mundo da política “com o fígado” como se diz no jargão popular – talvez seja o mesmo que é devorado eternamente pela ave de rapina durante 12 horas para ser regenerado na outra metade do dia, no exemplo clássico da mitologia grega e Prometeu. Quando a sociedade se depara com um comportamento desses, é claro que é possível apontar que a situação está caótica, ainda mais quando a rede mundial de computadores e seus aplicativos são utilizados para disseminar inverdades no que ficou conhecido como período da “pós-verdade”. Portanto, aquilo que é real precisa ser provado e o que é mentira passa a ser verídico sem necessidade de contestação. Pobres momentos da vida pública brasileira e mundial, porém o caos ainda não se instalou, já que a democracia sempre vencerá os ditadores, autocratas e seus asseclas que contam com a anuência daqueles que desconhecem o universo da política. Aqueles que pretendem compreender um pouco mais sobre as linhas acima, basta olhar a história não apenas do modo linear através da sucessão dos fatos, dias, semanas, meses, anos e décadas, mas sim sob a perspectiva de períodos e observarão que está havendo um arrefecimento nos ímpetos nacionalistas, xenófobos e antiglobalismos, justamente porque a vida social se internacionalizou de tal forma, que negar a transnacionalização dos capitais, as imigrações virtuais é desejar rechaçar a quarta revolução tecnológica. Não há volta, portanto, o homem, com Prometeu ou não, terá que seguir em frente, sempre tendo atrás de si os rastros que a história vai deixando enquanto o existir se transforma em vida que pulsa diariamente.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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