Prometeu e suas esperanças desesperançadas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Todos os inícios de anos a fio, a história se repete: esperança de um novo período que durará 365 dias. Mas, a maioria que observa esse credo, mantra ou oração anual, espera que as coisas melhorem desde que o seu semelhante contribua para isso, contudo, acaba se esquecendo de fazer a sua parte. O empregador aguarda que seu funcionário exerça sua função com maestria, todavia, paga-lhe um salário irrisório e ainda acha que está fazendo um “favor” ao sem empregado ao dar-lhe trabalho. O servidor transforma o seu dia num muro de lamentações, praguejando contra tudo e todos, agindo em seu labor com desprezo e ausência de esmero: trata o seu ofício com descaso e desdém. Esses dois exemplos são típicos de inoperância, com tendências de alta, numa sociedade que se liquefaz cotidianamente. Sendo assim, qual é a saída para as mazelas sociais do presente com forte fulcro no passado?

Há aqueles que vociferam aos quatro cantos do mundo que a culpa da miséria é do próprio miserável que, acomodado em seus infortúnios, fica à espera das migalhas que caem do alto do trono, ou melhor, das mãos do Estado-patrão. Outros regurgitam que o sistema é quem produz essas desgraças sociais, construindo diariamente desajustes socioeconômicos que levarão séculos para serem desfeitos, como o nó górdio a espera do seu Alexandre da Macedônia, “o Grande” (356 a.C.-323 a.C.). E pode ser encontrado o grupo daquelas pessoas que acredita que é preciso uma ajuda estatal, porém, o sujeito social deve fazer a sua parte. Posto os três lados, até porque ainda não está confirmada a quarta dimensionalidade de qualquer problema proposto pela mente humana através das Ciências Exatas – que os doutos nessa área me corrijam se eu estiver equivocado – deixo-vos, meus caros leitores, a seguinte interpelação: qual seria a melhor alternativa para que essa segunda década do século XXI possa ser aquela em que as melhorias sairão do papel, vindo para o mundo prático?

Eu do meu lado, prefiro sempre uma análise mais detalhada, objetivando dar alguns passos significativos na construção de um Brasil forte em que seus filhos, como diz no Hino Nacional, não fugirão à luta no afã de erigi-la enquanto Nação. Entendo que o primeiro argumento advém duma interpelação: que país é este? Todos já sabem, entretanto, fortalecem diariamente relações estabelecidas no período colonial e a desculpa é sempre a mesma: a sociedade é assim, como se esta fosse um autômato, ou como dizia Emile Durkheim (1858-1917), uma coisa, externa ao homem, portanto, coercitiva. O pensador francês tem uma enorme credibilidade ao sustentar que as instituições que forjam o homem, lhe são estranhas, portanto, imposta ao indivíduo ao vir a esse mundo repleto de mercadorias, inclusive o próprio rebento ao ser “consumido” pelos seus responsáveis que lhe depositam toda a esperança de riqueza material, se transforma, sem o saber, num ser comercializável. Sendo assim, o filho não tem autonomia para fazer a escolha que melhor lhe aprouver. Neste último domingo e segunda-feira últimos, ocorreu a segunda fase de um dos mais acirrados vestibulares do país: a Fuvest [USP] – lembro-me de quando participei deste exame. Quantos candidatos estavam pleiteando uma vaga no curso que escolheram sem a outorga dos país, do meio social ou amedrontados pela ausência de dinheiro no futuro, depois de formado, com diploma em baixo do braço e as portas se fechando, uma após outra?

Quem já participou de um processo de seleção, para uma vaga numa multinacional de destaque no cenário global, sabe como é uma guerra fratricida e desumana, mas como diz naquele filme nacional que teve milhões de espectadores: “é a guerra da carne!” Quem gosta de holofotes deveria se candidatar a Sol – o astro-regente da terra. Se assim fosse, teríamos milhares de estrelas espalhadas pelo orbe terrestre e com certeza todos seriam sapecados pelos raios escaldantes. Mas, deixando os raios solares com as suas devidas constelações e estrelas cadentes para outro momento, e me concentrando no real propósito deste artigo: entender por que todos dizem ter esperanças de um ano melhor do que o anterior, entretanto, esperam tudo dos outros e, de si, fazendo muito pouco para que a situação se modifique como acalentado durante os festejos de final de ano: Natal e o pipocar das rolhas dos champanhes. Eu, cá do meu lado do monitor e diante do teclado, posso tentar compreender que trezentos anos de escravidão e a prática da não valorização do trabalho alheio não se esvai com uma canetada ou orgulho de determinados políticos, mas com muita ação e vontade de mudar, mas que não fique apenas no acalento e vá-se para a prática.

Foi um tal de feliz natal para cá, feliz natal para lá, no entanto, o espírito do aniversariante passou longe de muitos desses lares e encontros festivos. Muita comida, bebida, mas poucos gestos eficazes que pudessem mudar a conduta a partir do dia 2 – porque dia 1.º foi feriado, pelo menos nesse lado do orbe terrestre. “Ah”, dirão meus leitores, “mudar algo enraizado é muito difícil e quem nos garante que, se nós mudarmos, os nossos vizinhos se modificarão também?” Como indiquei lá no começo dessa singela reflexão: é sempre o outro que tem que fazer! É sempre o Estado providência que precisa prover tudo e a todos, entretanto, poucos estão propensos em contribuir financeiramente ou fraternamente. Há ainda as aves-de-rapinas que, em conluio com uma burocracia corrupta e gananciosa, se apropriam dos poucos recursos públicos existentes para seus cofres privados. Mas, e as leis? O que dizem as letras frias da legislação brasileira? Começa afirmando que todos são iguais, inclusive que o Estado é laico, porém, vem sendo vilipendiado por crendices que deveriam ser manifestadas nas esferas privadas de cada um, mas não é o que se vislumbra no momento. Então, a culpa é de quem? Do Estado, da sociedade, ou dos sujeitos que acreditam que as instituições precisam ser moldadas às crendices e sacramentos particulares? Posto isto, fico com a outra interpelação: o que corrompe: o sujeito ou a sociedade? Explanando a pergunta de uma outra maneira: é o homem que corrompe a sociedade ou a sociedade corrompe o homem? Questionamento que permeia toda a obra do pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

É interessante notar o velho jargão: “a esperança é a última que morre”. Resta saber onde é que ela se mantém viva e com capacidade de mudar o curso da existência de todos. O titã Prometeu foi acorrentado e condenado pelos deuses, a um martírio sem fim, por legar à humanidade, entre outras coisas, a esperança. E dela, a categoria política tem se fartado até o presente e olha que este ano teremos mais um casino eleitoral com duas ou mais roletas de apostas e com promessas mil, contudo, sua maioria desprovida de sentido. Não entrarei nesse assunto, por ser assaz desgastante e não pretendo agastar meus leitores – se é que tenho algum – nessa primeira reflexão de 2020. Fico com o escopo de buscar a compreensão do porquê todos têm esperança de dias melhores, mas poucos realmente colocam a mão na massa, como se diz no jargão popular, para que de fato o existir seja outro, a partir do novo alvorecer, da semana que se reinicia a cada sete dias. Enfim, creio que a modernidade líquida tem deixado todos atônitos e a saída tem sido a busca medievalista de outrora.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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