Olhar Crítico

Natalício

Na próxima quarta-feira, o ocidente festejará a mais importante celebração da cristandade: o Natal! Sendo assim, há o que comemorar? De chofre, pode-se dizer que não, principalmente porque ainda há muita gente passando fome, criança sem perspectiva futura, muita corrupção, milhares de políticos ludibriando as populações mais vulnerárias num país que ainda apresenta, em suas relações sociais, as chagas deixadas por mais de 300 anos de escravidão. Não se pode esquecer que as mulheres ainda continuam sendo vítimas dum machismo desenfreado que, as leis criadas objetivaram a sua diminuição, ainda não conseguiram diminuir tais atrocidades. Pessoas sem a menor consciência defendendo teses já ultrapassadas e sepultadas pela humanidade em virtude de sua virulência. Sendo assim, é possível o indivíduo participar duma ceia natalícia tentando passar a perna no semelhante, sendo governado pelo ego?

 

Vencedores?

Não quanto ao meu leitor dominical, mas eu creio que o momento não é para se dizer que venceu essas batalhas, mas ter claro dentro de si que há uma busca para superá-las, bem como o próprio ego e que se faz diariamente uma reforma íntima. Avaliações que não precisam ser propaladas pelos quatro cantos do orbe terrestre para que todos vejam ou aplaudam, pois, os apupos somente inflamam ainda mais as forças egoicas, fazendo com que o ser elogiado se afogue na própria imagem, conforme consta na mitologia grega a partir de Narciso. É um grande desafio fugir de tais escaramuças. Elas são tentadoras, entretanto quem acaba sendo alvo de aplausos por feitos realizados durante este ano, deve esforçar-se ao máximo para não se deixar levar pelos aplausos que os elevam hoje, pois essas mãos, conduzidas por línguas ferinas, podem derrubar os sujeitos, principalmente quando estes estiverem no auge do governo conduzido pelo ego.

 

Interpelando-se

O que fazer então? Perguntar-se-ão a si mesmos até onde os holofotes podem levá-los! Lembro-me de uma aula em que ministrava conteúdo filosófico e citei como exemplo o mito narcísico e de como ele pode destruir as pessoas. Uma estudante se aproveitando do conteúdo, fez uma narrativa muito pessoal que era útil para aquele momento. Segundo ela, enquanto os pais tinham bens materiais e recursos financeiros, a residência vivia cheia de “amigos” que churrasqueavam sempre à beira da piscina, contudo, no primeiro baque que a família teve e o dinheiro foi minguando, com ele, se foram os frequentadores da residência. “Professor”, me disse a aluna, “os amigos do meu pai eram amigos quando ele estava com o bolso cheio de dinheiro, bastou ele perder o que tínhamos para essas pessoas desaparecerem. Daquela turma, só um ainda frequenta a minha casa!”.

 

Presentes

O momento é alvissareiro para que o comércio seja aquecido, já que na última sexta-feira os trabalhadores receberam o 13.º salário, injetando dinheiro na combalida economia local, seja na forma que for: pagamento de contas atrasadas, aquisição de comida ou compra de pequenas lembranças que vão de um simples brinco, anel, livros até coisas mais sofisticadas. Entretanto, que o ofertador deposite junto com o presente uma dose enorme de felicitações e torcidas para que o recebedor tenha sabedoria no ano vindouro e, que este possa refletir muito sobre as próprias ações. Pensamentos estes que valem também para quem está dando o presente. Não precisa ser nada complexo: um abraço, um pedindo sincero de desculpas, um carinho, um afeto verdadeiro e um olhar silencioso pode significar muito para quem o receberá.

 

Volksgeist

Esse é o verdadeiro espírito natalino que não deveria dar as caras, como se diz no jargão popular, apenas nesse período. Todavia, esse procedimento só pode ocorrer se a prática das interpelações íntimas foram a tônica cotidiana de cada um de nós. Por exemplo, se o sujeito for dizer alguma coisa, deve observar se o que pronunciará auxiliará o ouvinte de alguma forma. Se for fofoca, com base no ouvir dizer, então que não seja dita. Quem passa por infortúnios, o que mais precisa é de um ombro amigo e não julgadores, falsos juízes e detentores de verdades questionáveis. Cansei de escrever matérias jornalísticas, pós festejos natalinos em que havia contendas que os integrantes quiseram resolvê-las durante esses períodos, em conversas regadas a muita bebida, comida, porém, longe de valores éticos e morais. Os resultados todos são cônscios.

 

Desafio

Qual foi o maior desafio que o indivíduo enfrentou neste ano que vai se esvaindo com o acelerar dos relógios? Muitos dirão que a situação do país está ruim e teme-se a piora em 2020. Essa é uma previsão do coletivo, no entanto, a interpelação deve ser levada no campo da individualização, ou seja, qual foi a grande batalha travada em 2019? Se pensarmos no campo da política, está-se concluindo o primeiro ano dum governo que está muito longe de ser unanimidade, ou pelo menos, ter um grande percentual de aprovação. O momento não é para este colunista escrever algo que possa desabonar ou abonar tal gestão, contudo, o meu leitor precisa fazer a devida reflexão para, quando o momento lhe for aprazível, opinar. Do jeito que estám a coisa desanda e a locomotiva corre o risco de descarrilar antes mesmo de deixar a estação.

 

Esvaindo-se

Este ano está indo embora e com ele todas as tentativas de acertos e os insucessos provocados por diversos fatores, entre eles, a pressa que muitos têm em realizar e concretizar coisas em suas vidas. Mas será possível haver paciência num mundo que cobra todos e tudo é para ontem?  O momento presente é propício para esse tipo de reflexão. Por que a pressa em se tornar mercadorias consumidas pelos vizinhos e suas invejas que corroem tudo por onde passa? Por que apontar o dedo para o semelhante enquanto tu tens três voltados para si? Qual desejo de falar do outro, enquanto a própria casa interna vive em constante desarmonia? Observe bem, meu caro leitor, essas interpelações não deveriam ser feitas nesse período do ano, mas sim durante o ano todo, porém, como muitos estão cegos pela vaidade, presunção, tudo passa despercebido ou é folheado com muita rapidez quando se lê um livro sem gostar tanto do que lá está escrito, mas que é preciso ler e absorver o máximo de conteúdo. Bom! Creio que para esse último domingo antes que o aniversariante chegue – principalmente nos corações daqueles seres humanos que tenham a capacidade de se auto avaliarem e permitirem, não somente a estada dele, mas a permanência durante os próximos 365 dias e seis horas – as linhas deixadas acima possam encontrar meus leitores abertos ao abraço daquele que nos abraça aos milhões. Desejo aos meus leitores um excelente Natal! E-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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