A democracia possível

Gilberto Barbosa dos Santos

 

“A democracia é um sistema baseado na experiência de que, por mais segura que a maioria triunfante esteja, convém sempre ter por perto a minoria perdedora como último recurso, para assim haver uma alternativa no caso de, como de resto costuma acontecer, as hegemonias vigentes se esgotarem, as razões vacilarem e as maiorias estabelecidas se desgastarem. É o mesmo, em última instância, que ter a certeza de que não existe nada de permanente e que seja imune ao desgaste e ao questionamento”. Essa pequena citação é encontrada no livro A política em tempos de indignação: a frustração popular e os riscos para a democracia (LeYa, 2017, p. 82), do cientista social Daniel Innerarity e sugere uma série de debates e reflexões sobre os rumos da política e da democracia no mundo.

Soma-se a essa obra, outras tantas que tenho percorrido suas narrativas em busca de uma compreensão plausível para o Brasil do momento. Se se posso me considerar na condição de intelectual – creio que não – que se ocupa em entender o país no qual se vive, enquanto reflexo de fenômenos sociais globais que se repetem – eis a função do cientista social: buscar uma ordem na existência do homem na polis e como esse viver reflete o passado, criando condições para se indicar caminhos que levem o cidadão comum a vislumbrar um futuro diferente do seu presente. Neste sentido, cabe àquele que se propõe a tal exercício, encontrar algumas fontes metodológicas, como as criadas pelo cientista social francês, Emile Durkheim (1858-1917), segundo as quais o fato social deve ser analisado como “coisa”, portanto, externo ao homem, porém exercendo sobre este uma coerção. Pode-se citar como tais “coisas” as instituições sociais, entre elas a família, a igreja, a escola. É interessante notar as transformações que vêm ocorrendo no interior das mesmas, fazendo com que as pessoas se assustem ou tentem um retorno ao que era antes, sem perceber que a roda do progresso não retrocede, por isso, é inverossímil se pensar numa volta às sociedades semelhantes ao mundo medieval.

Posto isso, fica-me a seguinte interpelação – para que o meu texto possa servir de diálogo entre este que vos escreve, caro leitor, e aqueles que me leem semanalmente aqui neste espaço e também no www.criticapontual.com.br: qual democracia é possível? De chofre, posso afiançar àqueles que chegaram até esse ponto de minhas reflexões, que prefiro a democracia à qualquer forma de totalitarismo ou ditaduras breves, sob quaisquer pretextos, inclusive o de atirar pedras no grupo que acaba de deixar o poder em qualquer nação do mundo, incluindo aí o Brasil. Desta forma, não vejo ser de bom alvitre manifestar pedindo o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal) ou qualquer uma das outras duas instituições: Executivo ou Legislativo. Sendo assim, compreendo que, qualquer movimento que solicite ou vocifere pela implantação de um governo linha dura, seja antidemocrático. As urnas, mesmo que sendo usadas como latrinas por muitos eleitores revoltados e indignados, ainda são a melhor saída para as mazelas sociais brasileiras.

Vejo tais manifestações pedindo o fechamento disso e daquilo como solicitações que corroboram com as observações feitas no século 19 pelo escritor russo Fiodor Dostoievski (1821-1881), segundo as quais, o homem social é incapaz de tolerar a liberdade – mesmo que esta culmine em equívocos eleitorais – e está disposto a trocá-la pelo líder que lhe garanta pão e segurança. Se eu levar em conta o atual estágio de beligerância que vive muitas regiões brasileiras, nos quais as populações estão acossadas pelo crime, pela violência e pela bandidagem, saberei de antemão quais são as respostas a determinadas perguntas e também o motivo de tais argumentações. Entretanto, aquele que busca entender o funcionamento duma sociedade complexa como a nossa, na qual ainda impera o castigo, a chibata e o “favor” como ferramentas determinantes das práticas sociais, não pode se deixar levar pelo conteúdo de tais verborragias que mais se parecem a um grito de socorro das populações sitiadas, sejam elas pelas péssimas condições de vida, beirando a miserabilidade ou aquelas que estão confinadas em suas casas e redutos repletos de mecanismos de segurança e aparato bélico.

Outro aspecto nevrálgico é taxar as forças repressivas de Estado como violentas. Não se pode apenas atentar-se para o fato de que, muitos integrantes dessas corporações, usam a força acima do necessário, fazendo da farda um instrumento de agressão e violência às minorias e às pessoas que vivem quase no limite da pobreza extrema e em regiões longínquas das zonas de conforto de muitas pessoas que possuem diversas ferramentas que as afastem do mundo miserável das periferias e favelas espalhadas pelas grandes cidades e metrópoles brasileiras. Como resolver as questões provocadas pelos mais altos níveis de desigualdades sociais do mundo? Lembre-se, meu caro leitor, que a concentração de renda no país é uma das maiores do orbe e se intensifica diariamente como resultante da globalização financeira da sociedade e das relações humanas, que são travadas sempre do ponto de vista do ter e não do ser. Desta forma, quem tem recursos consegue lugares ao sol, como se diz no jargão popular. Quem não tem significativa situação financeira, acaba refém de tudo o que é caótico no Brasil, começando pelo Sistema Único de Saúde. E há aqueles que ainda desejam cobrar dos usuários do SUS, como se este fosse de graça para a população. Àquele que se atentar para os movimentos sociais e suas políticas públicas entenderão que o sistema de saúde brasileiro, pode ser tudo, ruim, de péssima qualidade, mas jamais dizer que é gratuito. Nunca foi e jamais será, pois, o cidadão paga seus tributos, muitos deles em cascata e impostos por dentro, por fora, na fonte, na origem, na venda e, se bobear, até quando o cidadão vai consumi-lo em seus dias de comensalidades fartas, já que precisa prepará-los.

Diante do que expus, volto ao escopo desta reflexão: qual democracia o brasileiro quer para si? Ou ele nem sabe o que significa ser democrático e escolhe a mercadoria política que promete acabar com seu sofrimento diário de baixos salários, saúde de qualidade duvidosa e uma educação que não consegue atender as demandas advindas duma sociedade que se transforma constantemente, conforme o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) índica em seu livro O manifesto comunista? Para quem não leu essa obra, acho interessante que a leia, principalmente para entender o que leva o seu autor a dizer que a burguesia se revoluciona diariamente. Por exemplo, há uma grande quantidade de pessoas desempregadas, perto de 14 milhões de indivíduos que não conseguem trabalho. Há muitos dizendo que a saída é o empreendedorismo. Pode ser o caminho, mas como será possível num país que não valoriza o trabalho alheio e que foi sustentado, desde o seu nascedouro pelo trabalho escravo? Lembre-se que quando se colocou fim ao sistema escravagista, foi negado ao elemento africano a possibilidade de se transformar em trabalhador assalariado. Para quem deseja saber mais sobre isso, será instigante entender porque se estimulou financeiramente a vinda dos imigrantes em detrimento da mão de obra dos pretos alforriados. Por hoje é só. Noutro momento tratarei mais da democracia e o flerto da população com ditaturas nefastas que eliminaram a possibilidade de o Brasil ser diferente do que é hoje.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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