O longínquo e o próximo no Brasil

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Será que um dia, meu caro leitor semanal, me cansarei de escrever sobre o Brasil e seu povo carente de cidadania? Parece-me enquanto o longínquo na história deste país ainda estiver dando as cartas – como se diz no jargão popular – no presente, haverá o que analisar neste país que carrega sobre seus ombros o peso de mais de 300 anos de escravidão, centenas de décadas em que o trabalho do outro nunca foi devidamente remunerado e permanece assim até este século XXI, o que inviabiliza qualquer crescimento econômico, já que o dinheiro [papel-moeda] não pode ficar parado, precisando, portanto, circular para manter a sua oxigenação e robustez. Entretanto, aqui é usado não como mercadoria que compra outra mercadoria, mas como ferramenta para se ostentar status.

Veja bem, meu caro leitor, se o trabalho fosse bem remunerado, o dinheiro circularia mais e a produção seria maior, ampliaria o nível dos empregos, os trabalhadores buscariam melhores qualificações, objetivando produtos e mercadorias mais sofisticadas que seriam oferecidas aos consumidores e seus pares. Recordo aqui uma frase que um professor lançou durante a primeira aula de Análise Econômica no meu primeiro ano no curso de Ciências Sociais em 1990. Aquele encontro me marcou muito por conta do desafio proposto por ele: se alguém explicasse a pergunta que faria, teria nota 10 e presença garantida até o final do ano. A interpelação era a seguinte: “por que o capitalista ganha tudo o que gasta e o trabalhador gasta tudo o que ganha”? Obviamente que ninguém acertou, aliás, poucos se arriscaram a responder, já que erámos calouros e estávamos ali para aprender a entender a sociedade em que vivíamos e existiríamos como a do presente.

Lógico que ficamos o ano pedagógico todinho estudando e analisando o funcionamento do mundo capitalista a partir da constituição da mercadoria e seus preços agregados, valores de uso e face, bem como a transformação do dinheiro em mercadoria e depois em dinheiro acrescido de determinadas quantidades que possibilitavam a ampliação do capital (D-M-D’). Lembro-me de uma das perguntas feitas na prova semestral: por que os preços exprimem relações sociais? Nós, graduandos tínhamos que fazer as devidas conexões de sentido para compreender que determinado valor dum simples produto personifica seu valor de uso e de consumo [valor de uso e valor de troca], ou seja, o que significa ter determinada mercadoria em casa ou à sua disposição. Desta forma, dávamos os primeiros passos para entender um quantum significativo de Antropologia Econômica e os bens simbólicos e conspícuos existentes em cada uma das mercadorias confeccionadas pelo homem, seja em que esfera da vida social for. Por exemplo, no presente, existe uma grita geral pelo aumento no preço da carne bovina. Por que será que o barulho é tamanho? Quanto maior for o valor agregado ao produto, maior será a sua significância para quem consumi-lo. Então vale a pena pagar determinado preço por um quilo de carne?

Desta forma, é possível retrocedermos ao Brasil longínquo, aquele em que se açoitava o escravo por qualquer coisa e no final do mês não lhe pagava nada, dando-lhe diariamente uma refeição barrela, ainda fazendo com que o açoitado acreditasse que o seu algoz estava lhe fazendo um favor, dando-lhe de comer. Muitos dos que me leem nesta manhã podem achar que estou sendo tosco demais ou passadista ao estremo, esquecendo-me de ver e viver o presente, onde não há mais esse tipo de violência e todos são livres. Mas será que todos podem experimentar a liberdade, conforme conta na Carta Magna? Ou será que a lei para uns tem mais força do que para outros? Mais: será que aquela velha frase, segundo a qual, aos amigos tudo aos inimigos os rigores da lei, permanece? É! Meus caros leitores – se eu ainda os tiver em quantidade significativa – como podem observar, as perguntas são tantas, contudo o presente é muito curto para dar conta de chegar às devidas respostas. Há aqueles que permanecem ainda nos tempos da chibata, entretanto, ela não funciona mais, não açoita mais o dorso do trabalhador, do escravo, mas permanece em atos silenciosos, nas alcovas, nos almoços e jantares juntamente com os seus comensais.

Sendo assim, insisto em dizer que o longínquo está ainda no hoje, mesmo que muitos dizem que não, seguindo o mantra, segundo o qual que quem gosta de passado é museu. Lamentável quando se pensa e se comporta desta forma, já que a Nação que não sabe nada ou desconhece seu passado, dificilmente conseguirá erigir no futuro um país desenvolvido. Por que recorrer aos processos históricos, se se está de olho no amanhã? Para não se repetir os mesmos erros pretéritos e criar condições para que as gerações futuras se emancipem. No entanto, no hoje, existem algumas pessoas, claro que com a conivência daqueles que desconhecem a história, que desejam distorcer os fatos, colocando fervorosos torturadores no altar santificado do combate a um pretenso comunismo. Quando observo coisas desse tipo, pergunto-me: “e se a oposição da época, tivesse vencido a peleja, será que haveria retaliações?” Não tem como saber, apenas tentar compreender a partir de processos históricos revolucionários, o que supostamente poderia ter ocorrido. Um exemplo, foi a Revolução Francesa de 1789 que baniu a monarquia francesa, colocando em seu lugar, uma República que logo em seguida instalou o chamado período do Terror. Qualquer vestibulando sabe o que foram aqueles momentos complicados da história francesa setecentista.

Se o período do Terror pode dizer muitas coisas aos franceses de ontem e de hoje, o que a escravidão, a exploração do braço africano e a ganância de homens violentos e sanguinários, consegue dizer ao brasileiro do presente? É preciso encarar essa pergunta com maturidade intelectual e de brasilidade, justamente para não tentar tapar o sol com a peneira, como se diz no adágio popular, e negar que o sistema escravagista foi extremamente pernóstico, nefasto para os africanos e seus descendentes, deixando marcas indeléveis inclusive nas proles dos escravagistas e capitães do mato, acostumado a ser a mão violenta do Estado lisboeta que, no princípio, estava na longínqua Europa e, posteriormente, após 1808, se encontrava em terras brasileiras. Será que vem daí o desejo do Estado brasileiro, a partir de seus aparelhos repressivos, em espancar, vilipendiar os sujeitos pertencentes aos estratos inferiores da sociedade nacional? Outra interpelação que deixa o meu leitor encafifado e pensativo, principalmente porque responde-la requer se pensar enquanto ente social que busca o seu vir a ser harmônico.

Enfim, se o brasileiro médio não for capaz de afastar o longínquo para bem distante do presente, deixando-o apenas como um referencial histórico de erros cometidos num passado que devem ser evitados a qualquer custo, não se conseguira se desligar do ontem em direção a um futuro diferente do presente, em que o medo da inflação, o fantasma do desemprego assola e a assombração duma velhice miserável faz cercanias diárias sobre os brasileiros que se encontram em transição. Em virtude desses fatos, me parece que a leitura d’Os miseráveis, de Vitor Hugo é atualíssima.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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