Economia, política e outras expectativas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

No caso brasileiro, é possível desconectar o universo da política do mundo econômico? Se a resposta do meu leitor for positiva, como isso é possível? E dá-lhe a segunda interpelação: agora se o ponto de vista for negativo, ou seja, um sonoro não, o terceiro questionamento surge: por quê? Do meu lado prefiro percorrer alguns caminhos para tentar entender o que acontece com o Brasil, nação em que a economia patina há vários anos, tendo inclusive existido a famosa década perdida, como de 80 do século passado, sendo sucessora da crise do petróleo em 1973. Mas nas linhas que se seguirão não me deterei especificamente nesses dois momentos que podem ensinar muita coisa aos indivíduos do presente, bem como a eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1989, cuja candidatura seguiu os ditames das grandes mídias, conforme o jornalista Mario Sérgio Conti apresenta em seu polêmico livro Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor. Pretendo tão somente aqui alinhavar alguns olhares críticos sobre a condição de ser e estar o Brasil e os brasileiros.

Parece-me que o primeiro passo nessa direção é inverter a ordem da pergunta sempre propalada: o que o Brasil pode fazer pelo brasileiro? A interpelação deveria ser: o que o brasileiro pode e deve fazer pelo seu país? Creio que a iniciativa começa pela compreensão do ethos formador desta Nação, ou seja, como foram erigidos os alicerces que fazem o Brasil ser Brasil. Outro aspecto relevante é vislumbrar como o trabalho – essa categoria essencial ao existir humano e econômico – é tratado pelos brasileiros. De chofre, pode se dizer que na base deste país, conforme nos aponta Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu clássico Raízes do Brasil, o colonizador era mais um aventureiro do que de fato um empreendedor. Sendo assim, enxergava nos territórios além-mar um local em que poderia se enriquecer facilmente sem muito esforço, sem haver a necessidade de cálculos racionais objetivando um fim específico, de acordo com o que dizia Max Weber (1864-1920) em sua teoria da ação social. Se não foi possível contar na base de sua existência com personagens que, a exemplo de Martinho Lutero (1483-1546) tecessem as engrenagens estimuladoras dum futuro bem diferente do presente que se tem, como poderia o país ser diferente do que é? O que os livros de História relatam é que a escravidão africana caiu como uma luva na colônia justamente porque permitia esse rápido enriquecimento, pois era erigida sob a espoliação de outro ser humano desapropriado de sua humanidade e transformado em mercadoria a ser explorada até a exaustão física. Desta forma, como pensar uma sociedade liberal, sendo escudada na não valorização do trabalho, na qual essa categoria é vista como “pecado” e não como mecanismo para contemplar o criador – conforme Weber nos indica em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo?

Posto isto, se eu e o meu caro leitor olharmos do ponto de vista do escravo, a quem este poderia recorrer em seus momentos de infortúnio, martirizante e enquanto agonizava sob as chibatas de empedernidos escravagistas e desumanos capatazes? Ele poderia recorrer aos seus credos religiosos, contudo, seu mundo cultural foi esfacelado, destruído e no lugar tentaram lhe inculcar outros cultos diferentes de suas raízes étnicas. Não existe nada mais aviltante ao sujeito ser violentado em sua condição humana e depois ser forçado a acredita em algo que não fez parte do seu existir pretérito e cultural. Se o trabalho era visto como algo nefasto, com africanos sendo agredidos e vilipendiados na sua essência, seria possível nos imaginarmos numa sociedade, cuja riqueza é oriunda do trabalho de cada um de seus membros, sem a exploração e a inferiorização do outro, em que a desigualdade não fosse a tônica das relações humanas? Pode-se pensar em dois pontos distintos: o primeiro diz respeito ao próprio sujeito social individualizado que, a lá Robinson Crusoé, perdido, sozinho numa ilha de exploração capitalista, consegue conscientizar-se de sua condição, arregaçando as mangas indo à luta, enfrentando tudo e a todos, como fazia o célebre personagem Dom Quixote do romance homônimo, de autoria do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). O segundo seria o homem que toma consciência de si movido pela força do coletivo e aí une-se a ele para forçar as instituições públicas a olharem com mais acuidades suas condições de descendentes de africanos e também daqueles sujeitos adjetivados como “homens livres na ordem escravocrata”.

Qual seria o ideal entre essas duas opções? Talvez o caminho seja uma mescla entre elas, numa prática dialética. Contudo, até que o país atinja esse nível de consciência, miríades de brasileiros esperam muito do poder estatal, até porque o Estado nacional arrecada muito, porém, devolve pouco ao contribuinte, levando em conta a quantidade de tributos que são quitados pelo trabalhador. De outro lado, se esbraveja aos borbotões sobre o empreendedorismo enquanto mecanismo para tirar o país da crise econômica e alavancar a geração de postos trabalhos. Entretanto, como isso é possível, se na base de nossa formação social está a não valorização do trabalho do “outro”, a desqualificação profissional do semelhante, a recusa em pagar aquilo que o trabalho alheio vale. Perguntando de outra maneira: como o sujeito pode exigir que sua “mercadoria” seja valorizada se ele acredita que o produto do outro não tem valor algum? Buscando a origem dessa mentalidade nacional, o interpelador deparar-se-á com a gênese deste Brasil, escudado no trabalho escravo e na violação dos direitos humanos, ou seja, no direito do outro ser, se quer, chamado de ser humano. É comum ser encontrado na literatura brasileira e outras artes, as adjetivações dirigidas ao elemento africano: besta, animal, burro, mula, negro sem qualidade. Quando o escravo se rebelava e ataca seus “senhores” e demais capatazes era violentamente punido, conforme a historiadora Mary Del Piore apresenta em vários momentos de dos três volumes de sua obra Histórias da gente brasileira.

Mas deixando o ontem com seus antepassados e retomando o presente, meu leitor talvez queira compreender os mecanismos para se destravar a economia e fazer a coisa andar. De forma bem jocosa, ou melhor, simplificadora, costumo fazer um pequeno exercício: suponho que um determinado grupo de brasileiros tenha R$ 500 mil – oriundos das econômicas de seus integrantes – para investir, em que setor o valor seria empregado? Agora pensa-se numa quantidade maior de grupos: que tal 10? Aí já teríamos R$ 5 milhões, quantidade considerável para se investir em algo rentável ou até mesmo num determinado país. Será que o Brasil seria o destino desses montantes todos? Claro que antes de enviarem os recursos para aquela Nação, os analistas fariam avaliações criteriosas sobre o funcionamento daquela sociedade. Se o meu leitor semanal for consultado, qual seria as explicações que forneceria sobre essa Nação? Eu arriscaria um palpite: um país em que a categoria política está pensando sempre na próxima eleição que acontece a cada 24 meses e nas ferramentas que colocará em circulação para ludibriar o eleitorado com conhecimento pífio de política, que vocifera e pragueja diariamente contra seus representantes a espera do próximo pleito e quando ocorre, troca apenas as moscas que, durante a campanha, prometeram as mesmas coisas. Com certeza este país não seria o destino dos R$ 5 milhões. Essa Nação é possuidora duma burocracia, sem muita vocação para lidar com a temática em que boa parte vislumbra apenas os benefícios em detrimento da eficiência da máquina pública e que adora dançar a valsa da corrupção tendo como parceira uma plutocracia nefasta para a sociedade. Esse foi um pequeno exemplo sobre os supostos motivos da economia nacional estar anacronizada.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no ensino médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:   gildassociais@bol.com.br ;gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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