Entre duas embarcações

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Antes que muitos possam dizer que a temática de hoje é uma logorreia desenfreada, já afirmo de antemão que não é. Por que tal afirmativa aos meus leitores? Justamente porque uma de minhas alunas, usando de uma intervenção durante um debate em sala de aula, afirmou que somente pode falar com propriedade sobre um determinado assunto quem o vivenciou em seu cotidiano. Tomando essa observação como mote para uma singela reflexão nesta manhã de 5.ª-feira, digo que o Brasil ainda não atingiu o estágio em que se pode considerar como uma Nação capitalista. Neste sentido, é interessante compreender que uma sociedade pautada, por mais de três séculos, pelo escravismo, desvalorização do trabalho e desumanização do outro, não pode, agora nessas primeiras décadas do século XXI, se considerar moderna ou coisa que possa chegar próximo disso.

Como afirmei para um colega de docência agora no retorno às aulas, o fim do escravismo no Brasil não pode ser considerado uma conquista para os descendentes de africanos que foram trasladados para cá como mercadorias que seriam exploradas até a exaustão física. Muitos podem dizer que houveram focos aqui e ali de resistência e até os quilombos, contudo, nada tão significativo que abalasse as estruturas do regime. Portanto, a abolição foi uma concessão e não uma conquista. Desta forma, a enunciação machadiana que consta no capítulo IV – Ideia fixa – do seu revolucionário romance Memórias póstumas de Brás Cubas pode ser útil para o meu escopo nas linhas que se seguem. Naquele enredo, o narrador, o defunto-autor conta que haviam bandeiras que tremulavam no alto do mastro e nesse movimento, deixavam cair algumas migalhas agasalhadas pelos estômagos dos pavilhões que balançam em meio mastro. As sobras dessas degustações tentavam alimentar aquelas que tremulavam no sopé da vareta que sustentava os pavilhões.  Se eu seguir essa chave, encontrarei a ideia de que desde o fim do escravismo, os descendentes de africanos sempre se viram obrigados a agradecer as migalhas que caiam das mãos dos seus ex-senhores.

Esse ponto é significativo, somando-se ao fato de que nenhum dos escravos foram indenizados. Por que isso não aconteceu? Não vou tratar inicialmente a parte que diz respeito ao escravagista que, mesmo sendo desapropriado da noite para o dia de sua mercadoria geradora de valor sem nem um custo durante o processo produtivo, não se viu desapropriado de suas posses, como terras, casas e demais estabelecimentos comerciais, bem como de sua humanidade. Tratarei dessa temática num outro momento. É importante entender que, por exemplo, no Rio de Janeiro da Corte monárquica, haviam mais africanos cativos do que brancos livres. Sendo assim, como seria um ex-escravo sendo indenizado monetariamente pelos tempos de escravismo? No mínimo, um sujeito com capacidade aquisitiva significativa, portanto, um consumidor nato, podendo inclusive escolher as mercadorias que iria adquirir com a indenização. Sendo a maioria e com poder de compra, poderia influenciar vários ramos da pequena industrialização existente no período. Mas, como consta nos anais históricos, não foi isso que aconteceu, já que apenas foi dado aos cativos o direito civil, contudo, como exercê-lo sem fazer parte do universo do trabalho e do consumo, não precisa ser o conspícuo?

Não há necessidade de aprofundar essa questão nesse espaço, até porque venho escrevendo insistentemente sobre essa temática, objetivando sempre o debate e quem sabe, indicar algumas saídas para uma sociedade que desclassifica o outro, primeiro pelo seu pertencimento étnico e suas heranças senzaleiras, isto é, o “lugar” em que seus ancestrais ocupavam no universo binário Casa-grande e Senzala. Não se pode perder de vista o homem branco e livre que não era escravagista, mas vivia do “favor” do escravagista. José Dias, personagem central na trama Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839-1908), é um exemplo disso e também os pais de Capitolina, os “Paduas”. Esses homens livres, na esfera urbana, vão ocupar posições intermediárias na estrutura burocrática do poder monárquico, inclusive com certos poderes na prática imperial de receber os cidadãos aos sábados, sacramentando o ritual do beija-mão. É justamente esse servidor que alimentará os desejos de qualquer representante da plutocracia que objetivava conseguir contratos milionários com a realeza luso-brasileira. Seria essa a origem do conservador de hoje que sente saudades dos tempos de bonança na economia brasileira? Antes de tentar responder essa interpelação é preciso entender as manifestações de uma parcela significativa da sociedade brasileira que optou por uma mercadoria-política, a exemplo do que aconteceu em 1989, que a partir dum discurso, quiçá o seu caráter verborrágico e logorréico, prometia acabar com a corrupção e resgatar um Brasil, que muitos acreditavam ter existido em algum momento de seu passado, mesmo que seja, o escravagista, aquele em que o elemento africano era desumanizado.

Esse tipo de movimento, segundo a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado e a cientista política Tatiana Vargas Maia, pode ser compreendido como “um apelo a uma identidade nacional contida num passado agora abandonado, e a convicção de que os problemas presentes se originam nesse abandono e podem ser resolvidos por meio de uma retomada radical do passado”. Desta forma, “o que estaria em jogo é o sentimento da grandiosidade perdida de uma nação”. Nesta chave, conforme as cientistas sociais, “não é incongruente observar o crescimento de um reacionarismo entre a própria classe trabalhadora que, vivendo em um presente instável e depreciado, passa a interpretar esse passado como um lugar seguro e estável, e a desejar por um retorno a ele. Mesmo entre as classes menos privilegiadas, mantém-se uma construção romântica de um passado nacional mais inclusivo que abarcava a todos” (As múltiplas faces do conservadorismo brasileiro: Revista Cult, maio 2018, n. 234, p. 26-31). Pois bem, no caso do mundo globalizado, quem foi o responsável pelo apagar deste passado glorioso? O capitalismo em sua fase financista? Muitos dos adeptos desta visão de mundo, segundo a qual, o ontem glamoroso foi tragado pelas forças monetárias alimentada pelo tempo presente como nos diz Zygmunt Bauman (1925-2017), deve-se satanizar o globalismo e devolver o local aos seus integrantes. Mas como fazer isso? Escolhendo governantes inclinados com a fabricação desta, não tão nova utopia, cujas memórias nos reportam ao nazi-fascismo e o totalitarismo soviético? Nesse campo, a democracia é utilizada como ferramenta para se chegar ao poder e, posteriormente quando se apossa do assento, muda-se vertiginosamente a logorreia palanqueira, praticando tudo aquilo que satanizou no adversário. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) fez isso durante a campanha em que foi reeleita, todavia, seu governo não teve vida longa e agora outro cidadão-político que se colocou enquanto mercadoria que combateria a corrupção, tropeça na própria verborragia em função da ausência dum projeto de governo para o país. Diante do exposto na reflexão de hoje, fica uma última interpelação: meu caro leitor, qual dos barcos você ocupará durante a viagem pelos sete mares capitalista: o iate do escravismo, cujas consequências são uma burocracia aristocratizada e seduzida pela plutocracia, ou pela barcaça modernizante – é preciso ter claro que essa embarcação não tem nada a ver com o atual governo e nem aqueles que lá estiveram nos últimos 15 anos?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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