Democracias e outros democratas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ao ler o artigo que a presidente nacional do PT, a deputada federal e ex-senadora pelo Paraná, Gleisi Hoffmann, fiquei com alguns pontos de interrogações que, penso estar dividindo com os internautas que visitam o meu site [www.criticapontual.com.br] – quero crer que ainda tenho alguns, mas se não os tiver, está valendo, pois o ato da escrita é fundamental, principalmente para quem o exerce, já que permite concatenar as ideias e se posicionar diante de diversos temas, tais como esse que grassa o país: esquerda x direita; conservadores contra os progressistas; capitalistas versus socialistas. Desses todos, dispensando o totalitarismo, qual seria o melhor regime para o Brasil? Creio que qualquer um que alije a democracia, não serve, principalmente se o governante se recusar a dialogar com a sociedade que é plural e está representada no Congresso Nacional.

A petista começa dizendo que, em seu artigo objetiva trabalhar as propostas e principais ideias do grupo chamada Foro São Paulo congregando pensadores, partidos e governos latino-americanos focados nas melhorias das qualidades de vida de seus povos. Neste sentido, entendo que a Venezuela, presidida pelo ditador Nicolas Maduro, não deveria estar presente, pois não permite que a democracia de as caras naquele país, isto é, que seja plena. Outro que deveria ser rechaçada é a ilha de Cuba, que há mais de 50 anos está mergulhada na ditadura do partido único, isto é, sob o julgo castrista. Há avanços, principalmente no campo educacional e de saúde? Existem, todavia, não é porque se registra melhorias nesses indicadores que o cidadão vá compactuar com ditadores escondidos atrás de práticas nefastas para a democracia. Desta forma, me parece que o foco da organização deixa de ser o de luta pela democracia quando se congrega com líderes totalitários e seus governos bolivarianos, castristas e outros istas abolidores da vontade popular.

“Debateremos as opções progressistas e de esquerda na construção de alternativas ao neoliberalismo que devastou a região nas últimas décadas do século 20 e vem se impondo novamente, muitas vezes por meio de governos autoritários e de origem não democrática”, diz a presidente petista no artigo publicado no dia 25 de Julho de 2019 no jornal Folha de S. Paulo (https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/07/e-o-foro-de-sao-paulo-que-defende-a-democracia.shtml). Nesse pequeno parágrafo, a paranaense elenca uma série de situações que, ao meu ver, merece uma avaliação cuidadosa. Em primeiro lugar, não creio nessa cultura neoliberal em países com fortes tendências escravagistas, como é o Brasil. Conforme nos indica a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, o escravismo brasileiro foi escudado por empedernidos escravagistas que criaram “verdadeiras arqueologias de castigos, que iam da chibatada em praça pública até a palmatória” (SCHWARCZ, 2019, p. 29). Esses mesmos donos de africanos destituídos de sua mais singela humanidade, se informaram “sobre as experiências e leis abolicionistas aplicadas em outras colônias escravocratas, muito especialmente na América espanhola. Por isso, adiaram, o quanto foi possível, o fim do regime, adotando um modelo gradual e lento de abolição” (2019, p. 29), mas cuidaram de evitar que o braço africano se assalariasse e acesse a educação formal.

De acordo com a perspectiva da professora da USP, “um sistema como esse só poderia originar uma sociedade violenta e consolidar uma desigualdade estrutural no país” (2019, p. 29). Tendo essas observações como perspectivas, é preciso tentar entender que no Brasil, o capitalismo nunca funcionou devidamente e por uma série de fatores, desde a formação do Estado que não surge como vontade de um povo – aliás aqui não havia povo e sim um amontado de pessoas, que em sua maioria, era escravizada, vivendo sob o julgo dos açoites. As instituições estatais foram erigidas para permitir a existência da Corte lisboeta, aportada aqui em 1808 fugindo da sanha napoleônica que ditava as normas na Europa Setecentista. Claro que essa temática de capitalismo versus escravismo requer um aprofundamento, que não é possível fazer aqui, em virtude da natureza do texto – uma pequena reflexão crítica a partir do artigo publicado pela petista num jornal de circulação nacional. Prosseguindo, se enveredarmos pela tendência mundial, não é só nas paragens brasileiras ou latino-americanas que está havendo esse retorno à escolha de líderes inclinados com a não democracia, ou almejam o poder para colocar em prática pensamentos duma direita para lá de conservadora, bailando com as vertentes reacionárias que, num passado não muito distante, colocaram o mundo num conflito de proporções catastróficas. Basta lembrar os momentos que antecederam à chegada do Nazismo nos cargos principais da Alemanha, o Fascismo na Itália, os soviéticos na Rússia e o Franquismo na Espanha.

Em outro trecho de sua narrativa, a deputada petista faz a seguinte afirmação: “em nossa concepção, ser de esquerda é defender a igualdade das pessoas em direitos sociais e econômicos e lutar por um Estado que promova o desenvolvimento com inclusão, frente à ferocidade do mercado. É ser contra a fome e a pobreza”. Até aqui interessante a observação da presidente nacional do PT, entretanto, eu fico com algumas perguntas: como ela e sua legenda podem desejar isso se o partido está chafurdado num dos maiores esquemas de corrupção que o Brasil já viu? Essa interpelação se desdobra em outra: como o Partido dos Trabalhadores pode compactuar com desvios de condutas de seus filiados, principalmente aqueles que ocupam cargos na direção nacional, estando diretamente envolvido em mutretas e escaramuças para desviar recursos públicos, apropriando-se de forma privada do dinheiro da Nação. Os valores arrecadados por meio de diversas propinas e pedágios chegam à casa dos bilhões de reais? Como podem pensar num Estado democrático se abraçam ditadores e até ajudaram, quando estiveram no poder, a financiar obras nesses países em que a democracia é inexistente? A outra interrogação diz respeito ao conluio desses partidários com a plutocracia, conforme apresentou José de Alencar (1829-1877) no livro Cartas de Erasmo ao Imperador, sempre estiveram com as mãos nas senhas dos cofres públicos se enriquecendo décadas após décadas. Como o partido que a deputada preside pode coadunar com tais práticas para os universos socioeconômicos e políticos? Então ela se diz de esquerda? O que o professor da USP, o filósofo Ruy Fausto diz sobre essa tal de esquerda brasileira que a Gleisi Hoffmann diz pertencer.

“A esquerda brasileira precisaria em primeiro lugar de outro tipo de discurso, que poderia definir como um discurso de verdade. Até aqui, essa esquerda vem marcada por um estilo profundamente religioso. Temos um sistema de crenças que nada pode abalar. Nem a realidade. Há gente de esquerda que duvida do mais óbvio, com que revela um medo/pânico de enfrentar o real. No mesmo sentido, há textos sagrados e santos, principalmente de certo filósofo alemão do século XIX [Karl Marx (1818-1883)]. A retórica faz pendant à religião. De fato, como que se impôs a ideia nefasta de que o discurso político é de ordem retórica, e de que não é necessário ter maiores preocupações com a verdade ao falar de política. O importante seria combater o adversário, como se fosse possível levar adiante esse combate, sem respeito pela  verdade. Sempre tive reservas diante da inflação de valor atribuído ao pensamento de Gramsci [Antonio Gramsci (1891-1937) – teórico italiano perseguido pelo fascismo morreu nos cárceres mussolinianos deixando uma vasta bibliografia sobre Marx e o capitalismo] em certos meios de esquerda brasileiros. Apesar dos seus méritos, Gramsci não serve muito à esquerda de hoje, porque, se ele pensou o totalitarismo de direita, por mais de uma razão não teorizou o totalitarismo de esquerda. E, entretanto, é preciso reconhecer que, apesar de tudo, há um conceito muito atual no pensamento de Gramsci: a deia de hegemonia. Eu a tomo, despojada das implicações políticas e filosóficas que tinha em Gramsci, como significando simplesmente a exigência de ganhar para a nossa perspectiva – por meios que seriam essencialmente racionais – o apoio de amplas camadas da população. Dir-se-á que a política não se resolve pela razão, mas pelas paixões. Claro que sem os afetos não pode haver ação política nem mobilização. Entretanto, é essencial que o afeto sobre o fundo de um discurso tão próximo quanto possível de um discurso racional, embora subsista sempre alguma irracionalidade. Mas que houvesse 80% ou 90% de racionalidade e 10% ou 20% de retórica já seria muito bom. Hoje, eu diria que, em muitos casos, tem-se a relação inversa…” (FAUSTO, 2017, p. 80-81).

Em primeiro plano peço desculpas ao meu leitor pela extensa citação de Ruy Fausto, mas entendo ser ela necessária para compreender que a esquerda que a deputada defende, pelo menos em tese, não se coaduna com a prática da legenda que preside, já que os cardeais se recusam a fazer uma avaliação criteriosa de seus atos e entender que não há como defender a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pois, até que não se prove o contrário, ele foi sentenciado e cumpre pena pelos crime de corrupção, entre outros delitos. Desta forma, entendo que ao lançar o partido numa cruzada pela liberdade de seu líder máximo, tentando classificá-lo como preso político e o pai pós-moderno dos pobres, a agremiação peca e em muito, inclusive a oportunidade de passar à sociedade a ideia de que está cortando na própria carne quando a questão diz respeito aos princípios éticos e morais, no âmbito da política que o partido sempre apregoou desde a sua criação no final da década de 70, do século XX.

Para não agastar muito o meu leitor, concluo essas minhas singelas observações apontando que no artigo, a petista faz um contraponto do Foro São Paulo com a tentativa de se criar no Brasil algo análogo, contudo com vertente diferente a partir dos correligionários do atual presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL). Claro que o organismo defendido pela petista tem seus escopos e deles muitos podem discordar, inclusive por congregar em seu seio países, cujos líderes têm inclinações ditatoriais e totalitárias, ou como é o caso de Cuba. Também concordo com ela quando diz que é preciso haver debates claros sobre ideias e o que se pensa para o futuro da América Latina, profundamente marcado pelo massacre indígena e escravidão africana. Neste sentido, é preciso haver mais clareza por parte das pessoas que se colocam ao debate e, chamo a atenção para um pequeno trecho da observação de Ruy Fausto quando este diz que não se pode subverter a verdade em nome duma tal ideologia de esquerda. Sendo assim, a presidente do PT indica que os correligionários do atual mandatário brasileiro mentem usando as redes sociais para disseminar as inverdades. Mas, quando se volta o olhar para os defensores do modelo lulopetista, não vislumbro esse mesmo desejo pela verdade e transparência.

Em outro trecho, para lá de complexo, a petista afirma: “legítimos, para eles [defensores de Bolsonaro], só os fóruns entre seus iguais, como a conferência de partidos conservadores que a família Bolsonaro quer realizar no Brasil, ou o Prosul, criado para atacar a Unasul e os países que ainda exercem sua soberania frente aos EUA”. Interessante a abordagem de Gleisi Hoffmann no sentido de que ela e seus apaniguados ainda não perceberam que isso é democracia e as pessoas que possuem inclinações para o espectro ideológico de direita tem todo o direito de se organizar em foros para debaterem suas ideias e enfrentar o inimigo comum: a esquerda latino-americana que está órfã desde a sentença contra o ex-presidente Lula e a chegada de Bolsonaro ao poder. Posso não concordar com alguns atos dele, mas defenderei diariamente o direito de governar, afinal, foi eleito para isso. Os tempos indicam que não existe só democracia pelos lados da esquerda, já que a direita entrou com tudo no jogo democrático e chegou a presidência da República através das urnas. “Apesar do fardo colonial que ainda nos pesa – fardo da escravidão, cujas marcas não desaparecerão tão cedo, do desprovimento que assola uma proporção elevada dos brasileiros e de uma máquina de Estado sabidamente porosa à corrupção -, temos posto a funcionar, com razoável êxito, uma democracia fundada nos votos de cerca de 130 milhões de cidadãos” (LAMOUNIER, 2009, p. 13). Enfim, me parece que esse texto pode ter alcançado o objetivo pelo qual ele foi confeccionado, ou seja, de propor um debate sem, no entanto, ser dado pelo seu autor como verdade absoluta sobre a política brasileira. Tem sim como meta ajudar aos que o lerem a formular melhor as questões envolvendo o universo da política brasileira.

 

BIBLIOGRAFIA

ALENCAR, José de. Cartas de Erasmo ao imperador. http://www.academia.org.br/sites/default/files/publicacoes/arquivos/cartas_de_erasmo_ao_imperador_-_jose_de_alencar.pdf – acessado no dia 25/07/2019 às 17h17).

FAUSTO, Ruy. Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

HOFFMANN, Gleisi. É o foro de São Paulo que defende a democracia. (https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/07/e-o-foro-de-sao-paulo-que-defende-a-democracia.shtml – acessado no dia 25/07/2019 às 17h15).

LAMOUNIER, Bolívar. Reflexões sobre o futuro político e da democracia. In CHAIA, Vera. MACHADO, Eliel (orgs.). Ciências Sociais na atualidade: tempo e perspectiva. São Paulo: Paulus, 2009. p. 13-32.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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