Mazelas socioeconômicas globais

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O pensador alemão – satanizado por muitos, principalmente aqueles que desconhece suas analises – Karl Marx (1818-1883), afirmou em um livrinho – odiado, mas pouco analisado – que “a sociedade burguesa moderna, surgida das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Nada mais fez que substituir as antigas por novas classes, por novas condições de opressão, por novas formas de luta”. Essas observações são encontradas na obra O manifesto do Partido Comunista (1848). Mais adiante diz ele que “a burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário”. Segue explicando que “a burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então consideradas veneráveis e dignas de santo respeito. Transformou em seus trabalhadores assalariados o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência”. Para não me alongar nesse início de exposição e agastar os meus leitores, Marx diz que “a burguesia rasgou o véu do sentimentalismo que envolvia as relações familiares e as reduziu a simples relações monetárias”.

Claro que alguns pontos abordados pelo pensador alemão podem até ser questionados, como por exemplo o conceito de classe social – existem aqueles que afirmam que a divisão social em duas categorias sociais, ou seja, em burgueses e proletariados, não tem mais espaço no presente. Neste sentido recomendo a leitura de várias obras, entre elas Classes sociais e representação – do meu amigo sociólogo e professor da UNICAMP, Marcelo Ridenti. Também são sintomáticas as páginas escritas pelo filósofo e professor da USP, Paulo Arantes que compõem o livro Novo tempo no mundo. Há outro livrinho interessante do pensador Giorgio Agamben: Gosto. Posto isto, vou ao que realmente interessa: tentar entender a sociedade que emerge da crise econômica global de 2008, semelhante em proporções mais catastróficas do que a de 1929. É preciso lembrar que os problemas ocasionados pelo ocaso da Bolsa de Nova Iorque no final da década de 20 do século XX espalharam-se pelo mundo e as consequências foram os surgimentos de regimes totalitários, sejam eles na Alemanha (nazismo), na Itália (fascismo), URSS (comunista), Espanha (franquismo) e no Brasil (getulismo). Recuperando, sinteticamente aqueles momentos, é possível compreender, a partir das observações de Karl Marx, segundo as quais a História se repete: uma vez como farsa e outra como tragédia. Meus leitores podem ter severas críticas ao marxismo e isso é significativo, principalmente do ponto de vista democrático, todavia, é preciso ser coerente com o que vai ser observado, por exemplo, quando se busca entender porque, no presente, o orbe terrestre vem sendo tomado por ideais xenófobos, nacionalistas, racistas, preconceituosas e intolerantes, bem diferente da questão da nacionalidade. Muitos sujeitos defensores de políticos que propõem medidas austeras que suprimem até os preâmbulos da mais infantil democracia, tudo em nome da defesa do emprego, da família e de outros elementos fundamentais da convivência em sociedade.

Em primeiro lugar, como o próprio Marx indica, o capitalismo modificou todas as relações sociais em âmbito global, mesmo as questões culturais passam pelo crivo da mercadoria, conforme apontei no início dessa reflexão. Se o capital, ao transformar tudo em mercadoria, de acordo com as observações feitas por Karl Marx no primeiro capítulo de seu trabalho O capital (1867), como é possível encontrarmos saídas para as mazelas provocadas pela expansão de seu universo e de suas relações de trocas fantasmagóricas? Interpelando de outra forma: qual seria as alternativas que o trabalhador teria para encontrar soluções para problemas crônicos como o desemprego? Paulo Arantes diz que o mundo capitalista está se transformando numa imensa fila e o tempo de espera é a única que resta para aquele indivíduo que tinha emprego, uma vida ajustada e se organizava minimamente do ponto de vista financeiro, e através desse princípio espartano conseguia viajar com a família durante as férias de verão. Hoje, o cidadão, que muitos gostam de chamar de “homem de bem” e que por isso pode andar armado, não consegue se quer garantir o pão de sua família para a semana que vem e aí não é em virtude da violência que campeia a sociedade de um modo geral, mas por conta do avanço tecnológico e as constantes revoluções que a burguesia perpetra diariamente em busca de mais e mais lucros que serão compartilhados entre seus acionistas principais.

Ao transformar tudo em consumo, o capitalismo – regime relativamente novo, se for levando em conta o tempo que durou o Império Romano, o Feudalismo, ou seja, período seculares – desenraiza o homem de seus valores éticos e morais, muitos dos quais sedimentado a partir do que Emile Durkheim (1858-1917) chama de Solidariedade Mecânica, sem muita possibilidade de mobilidade. Essas mudanças, segundo o sociólogo francês, foram provocadas pela Revolução Industrial. Tal anomia [ruptura] faz com que o sujeito tenha que deixar de lado as tradições para se congregar em torno do trabalho objetivador da subsistência daqueles que foram desterrados para darem lugar ao manejo do rebanho de ovelhas que sustentaria a crescente indústria têxtil inglesa que avançava assustadoramente no século XVIII. Hoje, o princípio gerador da máquina a vapor continua norteando as relações no campo produtivo e a sociedade se encontra em plena Revolução 4.0. Isso significa que o movimento do século XIX na França, conhecido como ação sistemática de quebra de máquinas, não tem mais espaço no presente e o trabalhador de outrora, brioso de suas funções econômicas dentro duma sociedade patriarcal, se viu alijado de seus valores éticos e morais, herdados dum passado que se esfumaçou com o avanço tecnológico, a exemplo do que aconteceu com o seu trabalho numa linha de montagem, no chão da fábrica o que fazia dele um brioso metalúrgico. O economista e professor do Instituto de Economia da Unicamp, Márcio Pochmann quando esteve aqui em Penápolis, há exatamente um ano, disse naquela ocasião que o sistema de metalurgia que havia proporcionado o surgimento duma categoria social com forte consciência socioeconômica, não existia mais.

Mas será que essas mazelas provocadas pelo avanço sistemático do mundo moderno e das máquinas, computadores e sistemas integrados, afetaram somente a vida do brasileiro médio, ou seja, daquele que pensava na sua jornada diária projetando dias melhores para a sua prole? Quando o sujeito interessado em entender esse processo inicia sua caminhada científica em busca da resposta, ou melhor, da compreensão desse quadro, se deparará com a informação, segundo a qual, esse fenômeno não é apenas local, mas global, e como nós cientistas sociais temos por dever de oficio analisar esses fenômenos em suas repetições mais latentes, esses homens de bem devem compreender que está-se diante dum novo tempo em que as coisas não são mais como eram há 30 anos, quando se trabalhava diariamente para contribuir para o belo quadro social, como dizia o cantor e compositor Raul Seixas (1945-1989). As saídas para essas mazelas socioeconômicas não podem mais ser encontradas no individualismo cego e tacanho de outrora e nem em medidas arbitrarias e satanizações de governos anteriores, pois o que existe é uma falência do Estado de Bem-estar social criado depois da II Guerra Mundial e a morte foi provocada pelas constantes revoluções proporcionadas pela burguesia, se quiserem usar a expressão marxiana cunhada no final do século XIX. Creio que a urgência de uma alternativa passa pelo desenvolvimento duma ética racional de solidariedade.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor no médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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