Consciência política

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Por que é tão difícil ter consciência política no Brasil pós-1988? Bom! Antes de tentar responder essa pergunta, me parece salutar enfatizar que ter consciência política não é concordar com este que vos escreve, meu caro leitor, contudo, é, ao discordar, fazer uso de um discurso tal qual fique claro as razões que leva o meu interlocutor a pensar diferente. Tal clareza expositiva é benéfica para o jogo democrático e a partida discursiva não se transformar numa guerra de todos contra todos (Thomas Hobbes 1588-1679). Todavia, não é isso que se passa na seara eleitoral brasileira no momento. Se isso é fato, a interpelação precisa ser mais ampla, pois deve-se especular cientificamente os motivos que levam o cidadão cônscio de seus direitos não conseguir articular um argumento coerente com o que pensa e, em virtude disso, deixa pelo caminho pontas que não se encontram em nenhum momento da análise que pretende expor.

Mas por que estou abordando essa questão nesta quinta-feira, deve-se estar perguntando o leitor das minhas reflexões semanais aqui no INTERIOR. Creio que seja importante essa abordagem, justamente por entender que o Brasil, finalmente caminha para situações e solidificações democráticas, contudo, alguns brasileiros ainda não sabem lidar com esse momento e nem conseguem trabalhar com informações históricas e fatos concretos da existência humana. Por exemplo, o fascismo e o nazismo são fenômenos totalitárias que mancharam a primeira metade do século XX. Nesta linha também o sujeito social encontrará o stalinismo praticado na ex-União Soviética. Como bem recordou João Pereira Coutinho – autor do livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários -, tanto o fascismo quanto o nazismo são desdobramentos duma direita que vinha se constituindo a partir da crítica liberal desde a Revolução Francesa de 1789. Portanto, atribuir ao fascismo italiano e o nazismo alemão a pecha de fenômenos de esquerda, é um erro grave e uma tentativa de desvirtuar os fatos em benefícios de movimentos que podem ser, no presente, interligados com aqueles do início do século XX, ou seja, do nazi-fascismo.

No que diz respeito ao totalitarismo soviético, uma análise bem detalhada sobre os modos de produções e um certo tipo de metodologia analítica, compreender-se-á que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o brado “todo poder aos sovietes”, nunca foi uma sociedade socialista ou comunista. Portanto, ledo engano afirmar que a Rússia czarista e feudal se transformaria num reino comunista da noite para o dia sem passar antes pelo capitalismo em todas as suas etapas. Durante a sua vigência, ou seja, de 1917 a 1989 o Estado soviético mais se assemelhou à uma sociedade, em que o capitalismo era estatal, do que realmente num mundo em que a igualdade entre todos dava o tom das relações socioeconómicas. O que havia lá era de fato um mundo planificado a partir de uma centralização governamental, uma prática de partido único, portanto, antidemocrática. Como sempre tenho proposto àqueles que me leem: vamos aos estudos e depois aos debates. Claro que as discussões têm sempre como fulcro principal o Brasil, entretanto, se faz necessário entender não somente o país no presente, mas os movimentos históricos para compreender porque alguns fatos, por mais sangrentos que tenham sido ainda, não foram sepultados em seus agonizantes momentos finais.

Quando se analisa a Alemanha pré-nazista, é possível observar que naquele momento, a sociedade estava um verdadeiro caos. Primeiro, o país havia saído da Primeira Guerra Mundial derrotado e com um enorme passivo de guerra, além de estar proibido de ter um Exército. A Nação estava atolada numa violenta crise econômica retratada por muitos cineastas e em diversas obras literárias e científicas. Situação propícia ao surgimento de governantes populistas e seus títeres, o que de fato aconteceu, não somente na região da antiga Prússia como também na Itália que legou à humanidade Benito Mussolini (1883-1945), “O Dulce” e a tragédia do fascismo italiano – aos interessados recomendo a leitura dos romances História de pobres amantes – Vasco Pratolini (1913-1991) e O marido dela – Luigi Pirandello (1867-1936). Agora, para compreender as atrocidades soviéticas, também há uma vasta bibliografia, entretanto, recomendo o romance Arquipélago gulag – Alexandre Issaiévich Soljenítsin (1918-2008). Há outras enunciações que dão conta de como ocorriam os expurgos soviéticos nos tempos stalinísticos!

Mas o que tem a ver aqueles momentos com o presente, principalmente o brasileiro? Nada! Equivocam-se aqueles que pensam desta forma, pois, como dizia Karl Marx (1818-1883), a história se repete: uma vez como farsa e outra como tragédia. Se isso é fato, vejamos o Brasil de 2018. O que acontecia naqueles momentos? Uma forte crise no campo econômico, provocada pela falta de confiança nos agentes políticos, em sua maioria, envolvidos em esquemas de corrupção, inclusive com ex-presidente Michel Temer, que havia sido vice-presidente na chama encabeçada pela presidente deposta Dilma Rousseff acusada pelo Congresso de crime de desobediência, pois havia adotado medidas na esfera macroeconômica sem autorização do Congresso Nacional conforme prevê os preceitos constitucionais. É preciso observar que a sociedade brasileira havia acabado de mergulhar em águas turvas, após anos de bonanças financeiras doadas por meio do populismo econômico encabeçado por um líder messiânico saído das categorias de baixo da estrutura social brasileira. Até aí nada de anormal, exceto o fato de recair, sobre ele e seu partido, uma miríade de acusações de corrupção por estar dançando um baile de desvio de recursos públicos, tendo como parceiro nefasto alguns integrantes da plutocracia que, desde a época colonial, sangra as finanças públicas em benefícios privados.

De um lado, há aqueles que dizem ser o arauto do neopopulismo inocente e, por outro, existem aqueles que afirmam que as sentenças foram dadas coerentemente, contudo, é preciso que a lei seja aplicada a todos e ainda falta condenar outros políticos envolvidos em atos de desvios de dinheiro público aqui e acolá. A sociedade aguarda que o açoite que surra Francisco, também castigue Chico, porém, enquanto isso não acontece, fica aquela coisa de estica e puxa, com pessoas se engalfinhando daqui e dali na tentativa de se defender o atual mandatário satanizando os anteriores e adjetivando todos aqueles que discordam do atual presidente da República. Quem tem razão? O bom senso! Mas será que ele dá as caras nessas querelas e questiúnculas, principalmente alimentadas por aqueles que desconhecem o universo da política brasileira, como por exemplo, que o chefe do Executivo está refém do Congresso Nacional e, sem ele, não se anda ou melhor desanda! Se isso é fato, por que então votar num presidente que passou a campanha eleitoral vociferando ser a novidade empunhando o discurso da nova política, mas quando assume o cargo tem que beijar a mão da bancada ruralista e depois fazer o conchavo a partir da liberação de emendas orçamentárias? É isso! Sem conhecer os bastidores da política brasileira, os contendores tendem a ficar enxugando gelo e se debatendo feito peixes fora d’água.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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