Pequena reflexão num dia qualquer

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Depois de ler uma entrevista com o pensador francês Edgar Morin e tentar compreender para onde caminha a nau brasileira, fiquei com a sensação de que não há alternativas para um país em que os seus habitantes, em sua maioria, não estão acostumados com a democracia em sua plenitude. Como bem lembrou um ex-presidente da República, de todos os governantes nacionais que estiveram no poder desde a redemocratização, ou sofreram impeachment ou estão encrencados com a leis nacionais, inclusive encarcerado. Se as análises se detiverem em uma quantidade razoável de prefeitos, ex-prefeitos, governadores e ex-governadores, a coisa beirará ao descalabro. Esse é o quadro dantesco, por sinal, propício aos retornos de sebastianistas, Antonios Conselheiros pós-modernos, “salvadores da Pátria” – a exemplo do ex-presidente e hoje senador republicano Fernando Collor de Mello que foi eleito com o slogan “caçador de marajás”, não caçou ninguém e foi cassado pelo Congresso Nacional.

Retrocedendo ao não muito longínquo 1989, portanto, a exatamente três décadas, é possível concordar com o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) quando este, numa significativa obra intitulada O 18 Brumário de Luiz Bonaparte, afirmava que a história se repetia: uma vez como farsa e outra como tragédia. Lógico que o filósofo oitocentista estava olhando a Europa do século XIX e vislumbrando a França, que havia sido sacudida, desde a Revolução de 1789, por vários golpes e contragolpes ou até mesmo a chegada de populistas pelas urnas, como o Luiz Bonaparte (1808-1873), sobrinho do Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821). O importante é entender que Marx dizia que era preciso compreender o sobrinho a partir do tio. Ou seja, o presente pelo passado. Sendo assim, se o meu leitor deixar a França napoleônica e apear aqui no Brasil do século XXI, observará que o desejo do eleitorado do final da década de 80 permaneceu adormecido, ou melhor, como diz Edgar Morin, ficou sorumbático e sonâmbulo por 30 anos, sendo despertado há pouco tempo.

Mesmo que uns não queiram, a história recente deste país diz muita coisa sobre o momento em que o brasileiro está labutando diariamente. Em 1989, depois de promulgada a Constituição, o país estava saturado da presidência do emedebista José Sarney, que governava o país havia cinco anos. A sua gestão caminhava para o fracasso total depois do malogro de dois planos econômicos, sempre pautados pela heterodoxia e nunca pelo viés ortodoxo – se fosse hoje, pode se dizer que o ex-senador, quando esteve no principal assento do Palácio do Planalto, pautou sua gestão pela prática desenvolvimentista e não monetarista. Também é significativo recuperar as mudanças que aconteciam no plano global. A URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) – um conglomerado de Estados capitalistas com governo concentrado nas mãos de líderes totalitários que se sucediam no poder desde outubro de 1917 – ruía a partir da visão mais pragmática de Mikhail Gorbatchev que mudou aquele capitalismo estatal de dentro para fora – até hoje a Rússia tenta ficar de pé, mas não consegue se livrar de líderes populistas com forte viés totalitário. Na África do Sul, o governo sul-africano de Frederick de Klerk libertou, após mais de duas décadas encarcerado, o líder negro Nelson Mandela (1918-2013) – prova de resistência silenciosa contra o regime Apartheid – em africâner significa segregação. O fim daquele regime não significou que a África do Sul foi transformada da noite para o dia numa democracia plena e sem miséria, mas o desencarceramento de Mandela foi um primeiro passo na longa transição para a democracia e pluralismo político.

Passados três décadas, como o globo se encontra no momento? Atolado em xenofobias aqui e ali, ojeriza ao estrangeiro, discursos nacionalistas, o perigo da extrema-direita rondando as portas das principais nações europeias e nos Estados Unidos da América, os delegados – lá a eleição presidencial é indireta – escolheram um postulante que não reunia condições suficientes para ocupar o principal assento da Casa Branca – coisas da democracia. Se na política registra-se uma tentativa de retorno ao período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, ou melhor, no entre guerras – momento em que os totalitarismos ganham espaços – a economia capengava em algumas nações, como a Alemanha que carregava um pesado passivo depois de sair derrotada do conflito iniciado em 1914 – momento propício para o surgimento de líderes afinados com ditaduras e ideais antidemocráticos. Na Itália, subia ao poder o governo fascista carreado pelos trabalhadores insatisfeitos com os níveis alarmantes de miserabilidade – o escritor Vasco Pratolini (1913-1991) registrou ficcionalmente aquele momento em seu livro Histórias de pobres amantes. O resto da contenda todos já sabem, portanto, não há que ficar aqui repisando aqueles momentos tenebrosos para a humanidade, todavia, recordá-los significa entender que quando há vazio de pensamento como agora, somado a corrupção e a crise econômica, desconfia-se da democracia, tornando o terreno propício para vociferações que flertam com governos que desejam estar acima da lei, personificados em verbalizações, segundo as quais, ele, presidente é que faz tudo, manda e desmanda, dispensando o Congresso  Nacional e, claro, desrespeitando a própria Constituição Federal.

Esse é o quadro, entretanto, o meu leitor vai dizer: 2019 não é 1989 e as coisas estão bem diferentes, principalmente por conta da tecnologia e as diversas redes de comunicação que se estabeleceram no Brasil. Contudo, não se pode esquecer que o ano e a época não são os mesmos, mas o povo ainda espera um salvador da pátria, aguarda um Leviatã lhe suprirá todos os anseios, materiais, econômicos, emocionais, enfim, o confortará diante das mazelas que sua própria consciência desavisada, constrói diariamente por estar ainda presa em complexos senzaleiros como outrora existia no Brasil desde a Colônia até o fim da Monarquia, processos que a República não conseguiu sepultar, pelo contrário, só os renomeou, porque o filhotismo permanece, a política do favor continua, a plutocracia mantém seus braços nos cofres públicos e a burocracia aristocratizada adora uma chancela, um carimbo que substituem os títulos nobiliárquicos e a cultura bacharelesca, ou como nos dizia o antropólogo Roberto da Matta, “você sabe com quem está falando?”, ou seja, o famoso “sou filho de fulano”. Neste caso, é o sobrenome que prevalece em detrimento da técnica e da competência respaldada na fala dum ex-presidente que se encontra trancafiado, mas antes de ir para o cárcere vociferou que delegados e juízes deveriam ter medo de políticos. Nada mais tacanha do que uma verborragia descabida dessas, no entanto, o povo ainda permanece adormecido, pois, ao que tudo indica, ainda não aprendeu com a história recente do país, pois não há vida civil fora da democracia, portanto, é preciso evitar que a fala do ex-presidente ecoe de forma enviesada entre os brasileiros, bem como a do atual mandatário, que se crê acima das leis vigentes neste país. Desta forma, ainda acredito que o Brasil é uma democracia, com todos os seus defeitos, mas que podem ser arrumados com o andar da carruagem, portanto, sem espaço para teocracias pós-modernas.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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