Estagnação e retrocesso no saber

Gilberto Barbosa dos Santos

 

A sociedade globalizada coloca desafios aos homens de hoje e aqueles ligados ao tradicionalismo e suas instituições, como bem nos dizia Emile Durkheim (1858-1917) no começo do século passado ao tentar compreender a passagem da sociedade tradicional para a moderna, profundamente marcada pela Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra em 1760. As problemáticas dizem respeito ao universo singular do ser que, para existir, se expressa em sua localidade, sempre a partir de valores não muito paroquiais, provocando uma ruptura definida pelo pensador francês como anomia.

Se isso é fato, como indicar supostas saídas para as mazelas sociais provocadas pelo avanço do capitalismo em sua fase financista e pelo desejo individual do sujeito social se realizar a partir de si? A quem cabe o ofício de proporcionar ao homem essa travessia? Será a família? É papel da escola? Do Estado? Afinal, de quem é a tarefa de preparar o homem em sua fase embrionária, ou seja, no seu momento lácteo, isto é, infantil, para se tornar um adulto com cidadania e portador duma ampla visão de mundo que vai além dos limites de suas paragens? Não há um só dia em que não me coloco a árdua tarefa de pensar as questiúnculas provocadas pelo avanço tecnológico e liquidez dos laços sociais, emocionais e para não dizer desintegrações familiares. Aqui é preciso compreender que aquela família tradicional que compreendo o universo burguês, conforme Friedrich Engels (1820-1895) nos apresenta em seu estudo Origem da família, da propriedade privada e do Estado, está com os dias contados, ou melhor, passando por profundas transformações, provocando enjoos naqueles sujeitos mais aferrados a ideias dogmáticas fincadas ainda em concepções existenciais medievais.

É equivocado pensar e buscar alento em semelhantes que professam esses mesmos ideais? Não! Até porque no Brasil, a sociedade tem princípios democráticos que norteiam as regras de sociabilidade e todos que tem inclinações para esse tipo de postura podem se congregar, o que é um fator positivo, desde que não queiram transformar um Estado laico numa teocracia tosca e desenfreada. Da mesma forma, os representantes desses colegiados podem pleitear assentos nas cadeiras dos parlamentos e buscarem maiores graus de representatividade aos seus apaniguados. Essa postura é salutar e garantidora da saúde da democracia brasileira, contudo, é preciso compreender o movimento desta mesma sociedade que se quer moderna, entretanto, com fortes lampejos ao tradicionalismo há muito sucumbido pelas forças das transformações e da modernidade, mesmo que essa seja liquida, como bem frisou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), em sua obra Modernidade líquida. Nesta chave, é interessante observar que a mesma tecnologia que leva o indivíduo a se relacionar com um amigo – que não vê desde os tempos de universidade – que está do outro lado do planeta, pode ser útil para disseminar ideais, cujas práticas deveriam ser banidas desde a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e o fim do complexo soviético em torno da URSS.

Todavia, pensamentos xenófobos, de homofobia, etnocentrismos, racistas, ou mesmo do simples preconceito, ainda dão o ar da graça nessa sociedade que se desmantela assim que o meu leitor terminar de ler as linhas que se seguem. De onde brotam ideologias dessa envergadura, depois de o mundo assistir os horrores perpetrados pelas duas Guerras Mundiais que ceifaram a vida de milhões de pessoas no velho Continente? Será que o filósofo dinamarquês Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855), autor de várias obras importantes como O conceito de ironia e O conceito de angústia, tinha razão ao afirmar que o homem tem medo de sentir medo? Se isso é fato, onde começa esse temor? Parece-me que essa temeridade surge diante do desconhecido. Por isso, é preferível o mundo opaco, porém conhecido e mantido através de promessas de um vir a ser repleto de regozijos à busca pela felicidade a partir do ponto em que se encontrar em si mesmo, independentemente do tempo que essa busca durará. Esse pequeno fragmento, me faz recordar a alegoria da caverna, contida no livro A República, escrita pelo filósofo grego Platão – discípulo de Sócrates – pensador ateniense que afirmava nada saber e que o homem deveria conhecer-se a si mesmo.

Se minhas observações estiverem coerentes, a complexa modernização das relações humanas, somando-se aos avanços tecnológicos, lançou esse mesmo homem – que dirige um automóvel que só “falta falar” – se é que já não conversa com motoristas solitários em suas longas viagens em busca do nada e para o nada – numa corrida pelos bens mais charmosos, mas também em um tremendo vazio transformador de desejos consumistas em meros detalhes no advir incerto, pois tudo se transforma com o novo alvorecer. O problema passa então não o de constatar esse desvirtuamento do homem, esse lançamento no escuro, indicando que o ser social nunca é, pois vive constantemente tentando satisfazer um desejo que será sempre suprimido pelas forças tradicionais ou pelos líderes que lhe garanta pão e segurança, conforme ocorria na Roma Antiga, mas apresentar, mesmo de forma efêmera, uma alternativa a isso qe encontra-se no cotidiano da humanidade. Como os meus leitores podem observar, o mundo greco-romano ainda continua tecendo teias que aprisionam os homens em masmorras abstratas, trancafiadas com chaves confeccionadas com o medo, ranger dos dentes e choro daqueles que se recusam a aceitar o retrocesso a períodos medievalistas.

Contudo, qual será o preço que o indivíduo, cônscio de sua nadificação diante desse mar de mercadorias e consumismos desenfreados, pagará para transformar a sua existência numa busca incessante pela felicidade, ou melhor, para se tornar um ser feliz? Parece-me que o pensador alemão Immanuel Kant (1724-1804), através de suas discussões sobre questões acerca do juízo, pode ser útil, já que pretende auxiliar o homem a atingir a maioridade crítica e não a civil. Esse estágio só poderá ser alcançado se o sujeito for capaz de se emancipar, ou seja, se tornar senhor de suas ações. Isso significa que tais atitudes gerarão consequências que serão sempre avaliadas sob a perspectiva duma sociedade que se moderniza em alta velocidade, porém, que retrocede ou se estagna no tempo, em virtude de que nunca se sabe o que está por vir, isto é, o amanhã, por mais longínquo que seja ou mais próximo do homem, esconde surpresas e outras nuanças provocadas pelas mazelas, misérias materiais e humanas pautadas na ideia de que se é melhor do que o outro em virtude do seu pertencimento econômico ou a tacanha origem nobiliárquica, e ai, vale tudo para ser parecido com um Conde, Marquês, Barão, mesmo estando em plena República monárquica como a brasileira. Enfim, como avançar rumo a um mundo melhor se os homens, por medo dum futuro muito incerto, se voltam a um passado, por mais retrogrado que ele seja? Como é possível caminhar, se ainda pensamentos e ideologias que deveriam estar no cemitério da história do pensamento, tonificam as relações humanas? Perguntas que deveriam rechear as consciências de meus leitores, pois sou cônscio de que nesse feriadão prolongado me atentarei a elas.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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