Democracia, totalitarismo e outros teocracias

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ontem o dia foi dedicado aos namorados, momento alvissareiro para fazer uma singela pergunta: será que acabou o enlace sentimental entre o povo e a democracia nesse país? Antes de adentrar a essa problemática, creio que seja necessário explicar um pouquinho sobre o surgimento do Dia dos Namorados. Reza a lenda que um casal, formado por um norte-americano branco e uma afro-americana, se amava e pretendia constituir família, entretanto, numa região dos Estados Unidos em que tal união era proibida. Entre juras de amor, fugas e estadias em prisões, os nubentes chegaram a acessar uma absurda sentença dum magistrado, segundo o qual, tal matrimônio não poderia ser vaticinado porque Deus teria criado os continentes americanos e africanos separados pelos oceanos para evitar que os dois povos se encontrarem.

Esse é o pequeno trecho duma história verídica do país sobre o qual muitos creem ser a maior Democracia do mundo e o berço do Capitalismo. Quiçá o sistema econômico, a questão aqui é sobre a visão distorcida dos seres humanos sobre questões vitais da existência social. Esse enredo enfocando uma paixão entre duas pessoas de etnias diferentes ganhou as telas do cinema e o sobrenome do homem era Loverday, daí a ideia do Dia dos Namorados. Há outro filme ainda relativo a um casamento interracial que provoca celeuma entre Estados tidos como democráticos, como a Inglaterra. A narrativa é pautada em fatos que dizem respeito a um país africano que estava sob a proteção britânica. O príncipe herdeiro da coroa africana se envolveu – enquanto estudava na Inglaterra – com uma telefonista inglesa – branca – com quem queria contrair núpcias, porém, se isso acontecesse causaria um enorme incidente diplomático para os britânicos com os sul-africanos que havia instalado o regime apartheid – que em africâner significa segregação entre brancos e pretos. A película, intitulada Nação Unida, diz muito sobre os reais interesses de determinados governos e governantes. Nessa mesma linha, há um significativo enredo que aborda questão semelhante, só que em solo norte-americano e chama-se Advinha quem vem para jantar.

Deixando esse universo da ficção que reproduz a realidade das humanidades em determinados momentos de suas existências corpóreas, em que se encontra a interpelação no começo dessa reflexão dizendo respeito ao namoro, ou até mesmo casamento entre o povo brasileiro e a democracia e os flertes com ideias totalitárias e teocráticas, fica a seguinte interpelação: será que o divórcio aconteceu depois de 30 anos de feliz união conjugal entre a população e a Constituição Federal de 1988? Prefiro pensar que o casamento já perigou desabar em alguns momentos durante essas três décadas em que funcionou à base do presidencialismo de coalisão com graves lampejos e sincronias com o mundo da corrupção, tendo como fio condutor da trama traiçoeira, a burocracia aristocratizada e um legislativo acostumado a sangrar os cofres públicos sob a sigla de emendas ao Orçamento da União. Em minha singela opinião, o enlace matrimonial vive balançando, beirando o precipício porque um dos nubentes desconhece completamente o mundo da política brasileira e os bastidores dos mais diversos palácios e paços municipais onde os poderes são exercidos, mas que para ser de fato precisam se coadunar com a plutocracia que é engordada diariamente desviando recursos dos cofres públicos – seja uma simples merreca de R$ 4 mil até milhões, bilhões como estão aparecendo os desvios de verbas públicas para bolsos privados.

Todavia, o que fica nessa peleja sentimental entre povo e democracia, para não dizer Constituição de 1988, é que o primeiro recusa-se a aprender as lições de casa e, quando estas são passadas, os responsáveis por tais ensinamentos são acusados de “doutrinadores” e dogmáticos, além de serem maltratados pela sociedade e, em muitos casos, pelos filhos desta sociedade que está gravemente enferma, vivendo apenas através de aparelhos movidos a verbas públicas que se quer chegam próximo a usina de força que faz com que as ferramentas, que mantém essa paciente social em estado vegetativo, funcionem. De vez em quando o doente dá um sopro de vida e todos correm para vê-lo. Este abre um olho e percebe que está cercado por um amontoado de engravatados ávidos por tirarem fotos e fazerem self com o moribundo que jaz ali, sem saber qual é o mal que lhe corrói as entranhas e o coloca ali prostrado, vítima da insensatez da categoria política que procura seus filhos para prometer o mundo e os fundos, como se diz no jargão popular. Esses rebentos, por desconhecerem o universo da democracia, normalmente estão abraçados a credos e crenças manipuladas por mutilados sujeitos espertalhões que estão mais interessados em tratar a fé alheia como uma mercadoria a ser explorada até a exaustão, prometendo o reino dos céus para aqueles que conseguirem garantir recursos para que suas fés não sejam molestadas por um ser maligno que os espreita diariamente pelo vale das sombras da morte aguardando que os fiéis vacilem recaindo em desgraças mil.

O literato brasileiro Machado de Assis (1839-1908) escreveu um conto fazendo alusão a essa questiúncula, alertando os seus leitores Oitocentistas sobre o perigo do comércio da fé, como fez Martinho Lutero (1483-1546) em 1517 numa Alemanha [Prússia] esquartejada pelos múltiplos interesses dos reinos espalhados por aqueles lado da Europa e acossada por uma Igreja que só pensava em riqueza material e pompas – essa observação encontra-se nos anais da História e são conhecidas como Reforma Protestante e Contrarreforma Católica, portanto, não é uma opinião isolada deste que vos escreve, meu caro leitor. Diante da tibieza da democracia brasileira e do desconhecimento do jogo político, e, ao mesmo tempo fazendo uso dos preceitos que a Constituição Federal faculta aos brasileiros, há uma parcela significativa de homens e mulheres que estão, por meio do voto direto, se encastelando no Congresso Nacional defendendo pautas que ferem os princípios constitucionais, segundo os quais, todos são iguais perante a lei e que o Estado é laico. A partir dessa perspectiva, é possível vislumbrar um fiozinho de teocracia tentando namorar a democracia brasileira num baile macabro em que não haverá vencedores, apenas derrotados num jogo truculento que somente a força e a violência, seja ela física, simbólica, sairão vitoriosos.

Sendo assim, o que resta analisar num país em que muitos querem o Estado como representante único dum determinado segmento, afetando toda a estrutura estatal que se pressupõe mantida pelo brasileiro, independentemente do credo religioso, ideológico, futebolístico, de gosto culinário? Tem-se muito o que observar, na medida em que determinados grupos privados que ascendem aos governos centrais nos estados e na capital federal o fazem por meio das urnas, ou seja, através da democracia. Até aí nada de mais, pois o jogo político para se chegar ao poder permite esses acordos, conforme Nicolau Maquiavel (1469-1527) já dizia lá no século Seiscentista em seu Príncipe. Porém, ressalto que os resultados eleitorais tonificam a ideia de que ainda falta cidadania para o povo, todavia, não é tirando-lhe o direito de voto, mesmo que seja ventilado por determinados segmentos totalitários, que se salvaguardará os preceitos democráticos de governantes que flertam com a tirania e o totalitarismo. Por pior que sejam os problemas que a sociedade enfrenta, exemplos históricos não faltam para que a sociedade coloque um freio em tais interesses. Democracia sempre, mesmo que tardia!

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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