Olhar Crítico

Até quando?

Começo meus olhares deste domingo abordando uma questão que todos, pelos menos eu observo desta forma, “estão carecas de saber”, isto é, o famigerado racismo! Muitos dizem não existir, que isso é coisa de gente que sempre gosta de se vitimar, esperando benesses do Estado e cotas para isso e para aquilo. Equivoca-se quem pensa desta forma. Bom, pelo menos eu não compreendo essa forma de encarar a problemática a partir desse viés. Mas, diante do exposto nas linhas acima, me parece que seja necessário tecer algumas linhas sobre essa questão e as começo a partir dum pequeno fragmento encontrado no livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, da filósofa Djalmira Ribeiro.

 

Racismo

Em um determinando trecho da narrativa, ela diz que “racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relação de poder. Negros não possuem poder institucional para ser racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui” (RIBEIRO, Djamira. Cia das Letras, 2019, p. 41). Não dá para dizer que essa observação é peça de ficção ou que saiu da boca de uma pessoa que se sente vítima do sistema, e que a coisa não é bem assim, pois, só sabe o que é racismo quem o sofre! Num trecho anterior da obra, ela narra suas experiências durante a infância e adolescência e agora, já adulta, quando o preconceito racial aparece na boca de adolescentes e muitos pais querem fazer crer que são apenas brincadeiras de jovens. Brincadeiras que escondem verdades cruéis e duras: o Brasil é um país racista!

 

“Na minha pele”

É interessante notar que a leitura dessa obra, coadunada com outro livro também revelador do racismo institucional que quer se fazer inexistente no Brasil. O texto é do ator global Lázaro Ramos, intitulado “Na minha pele”. Em um determinado ponto da narrativa, o autor diz “existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão dos ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é “menor” e de quem é “criança” nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?”

 

Depoimento

O trecho acima copilado do livro de Lázaro Ramos que foi uma das estrelas na última Flip – associado ao depoimento daquela professora aposentada – externa muito bem a questão no Brasil e não adianta as pessoas dizerem isso e aquilo e que não há racismo ou que as pessoas estão aprendendo a não serem mais preconceituosas. Há muitas inverdades nessas supostas afirmações, pois a visão do outro – esse estranho que tem que ser inferiorizado por conta da tonalidade de sua pele – pode servir de referencial social, é construída durante os cafés das manhãs e outras comensalidades em família. Portanto, o racismo não está nas ruas, não nasce nas mais diversas esquinas espalhadas pelo Brasil e sim dentro das casas, nos mais recônditos das residências mais pias possíveis em que a religião parece existir, contudo, na rua, a humilhação dita a regra e o que se prega no campo da religião não significa nada.

 

Paralisação

Deixando as duas obras e o racismo institucional para outro momento, me atenho agora ao problema da Santa Casa de Penápolis com a ameaça dos médicos em paralisar os atendimentos aos pacientes do hospital penapolense. A pergunta que fica é a seguinte: a culpa é de quem? O atual prefeito vem travando uma batalha na área de saúde para impor o seu jeito gestor de ser, ou seja, tratar o setor como uma mercadoria, portanto, com preço estipulado para o bolso do cidadão e dos empresários. Faz tempo que ele diz isso e aquilo, que vai salvar outro acolá e a coisa degringola sempre. Independentemente de os médicos pararem ou não o atendimento amanhã, a problemática existe e todos sabem: falta de tudo lá, principalmente medicamentos. É uma coisa meio que obvia, como é que os “doutores” podem clinicar se não há medicamentos? Como devem recomendar internação ao paciente, se inexiste a possibilidade de o mesmo ser medicado?

 

Antena

A situação me lembra os tempos antigos da televisão que um membro da família subia no telhado para girar a antena para que todos assistissem o programa, mas ele não via nada, pois assim que ajustava a imagem, vinha um vento e tirava tudo do ar novamente. Então, nas vezes seguintes, “a sorte era tirada no palitinho” – como se diz no jargão popular – para saber quem ficava sem assistir a tevê porque tinha que ficar em cima da casa girando a antena para lá e para cá.  O interessante a notar é que, “roda pião, roda moinho”, como diz aquela velha canção, e a situação continua periclitante e nada da Santa Casa sair do atoleiro, mesmo que o prefeito venha dizendo, desde a sua gestão passada, que equacionaria o problema, contudo, as questiúnculas continuam e o atendimento ladeira abaixo.

 

“E daí?”

Para pensar a questão, recordo a observação feita pelo professor e sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) numa de suas aulas sobre Teorias da Globalização nos tempos em que estudei na UNICAMP (IFCH). Lógico que sua fala dizia respeito ao mundo global de mercadorias e o fim da URSS (1917-1989) que havia sucumbido cinco anos antes daquelas aulas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – quem viveu aquele período pôde analisar racionalmente a queda duma forma peculiar de capitalismo – estatal. Ianni dizia sempre que para os capitalistas, o “diabo era sempre os outros”, contudo, “os outros” não existiam mais desde o final dos anos 80. Ai ele perguntava em tom de desafio aos estudantes – entre eles este que vos escreve: “e daí?”.

 

Partilhando

Essa é a pergunta que eu compartilho com o chefe do Executivo: “E daí” prefeito? Bom! Como bom político que é, igual a tantos outros existentes nas mais de cinco mil paragens brasileiras, vai satanizar os outros e dizer que a culpa é de meia dúzia de pessoas que torcem contra a sua administração. Sendo assim, encerro os meus aforismas dominicais com algumas dúvidas: como pode, um gestor que passou não sei quanto tempo na Câmara de Vereadores, estar no seu segundo mandato, além de ter uma quantidade infindável de processos na Justiça local envolvendo diversos temas, vir a público e dizer que o problema da Santa Casa é oriundo de cinco pessoas que não querem ver a sua gestão caminhar? Sinceramente meus caros leitores, eu não entendo, mas como não sou político, talvez eu que esteja em outro universo. Mas torço para que o imbróglio seja resolvido e a população não fique sem atendimento, porque é ela quem paga o pato e a conta, mesmo que não seja atendida. E-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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