Fatos históricos e seus boatos

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Para além da famosa frase de Karl Marx (1818-1883), segundo a qual “o homem faz a sua história, mas não como a quer e sim pelas condições sociais determinadas pelo meio”, o que a história pode ensinar aos homens do hoje? Começo o meu texto desta quinta-feira somente para tentar entender mais uma polêmica criada num Brasil que carece de memória ou, quando as tem, são logo asfixiadas por ideologias palanqueiras, sejam de que lado vierem. Portanto, não ficarei aqui citando-as para não agastar o meu público leitor, mas todos sabem que de tempos em tempos um espectro de salvacionismo ronda a sociedade brasileira, surgindo muitos pais disso e daquilo, num eterno vício populista.

Mas o que posso observar são apenas opiniões dispares sedimentadas em pequenos fragmentos ou quase isso, para não dizer uma faísca, uma nesga daquilo que muitos imaginam ser a verdade ou próximo disso, criando um sistema de pós-verdade empurrado goela abaixo por um amontoado de apaniguados ressentidos que se retroalimentam na medida em que o mito pós-moderno vai perdendo o seu brilho, ofuscado pela ausência de uma visão mais apurada do fazer política. Durante o processo eleitoral, muitos acreditaram que o Midas mitológico havia pairado sobre o Brasil e que os votos nas urnas o tornariam real e capaz de mudar o país da água para o vinho como fez Jesus, o Cristo em determinada passagem do Novo Testamento. Mas como todos sabem, Midas foi contemplado pelos deuses com o beijo sedutor em que tudo que tocava virava ouro, portanto, seu desejo pelo precioso metal se transformou numa tragédia que perdura até hoje, se for levado em conta os processos alegóricos para se analisar a estrutura e os signos que estão escondidos como num palimpsesto líquido e pós-moderno.

Mas deixando o universo mitológico grego de lado, sem, no entanto, deslocar para outro momento a sereia homérica e seu belo canto, é preciso compreender que muitos dos brasileiros veem caindo nessa enunciação sonora entoada por politiqueiros e seus asseclas fanfarrões faz muito tempo, sem que alguém consiga destravar, ou até mesmo cortar, esse nó górdio que é dado na cabeça do eleitorado brasileiro a cada quatro anos. Mas tudo isso, boa parte do Brasil já sabia e, outra considerável parcela já previa antes mesmo das eleições se encerrarem. Mas e agora? Como pensar o Brasil diante da ausência de um plano de voo ou de navegação para a nave brasileira ou às embarcações ancoradas no cais do porto? Diante da ausência desse projeto governamental, se cria fato para desviar a atenção, pelo menos, momentaneamente dos problemas que grassam essa Nação desde o dia 1.º de janeiro. Observa-se que a problemática toda não começou nesse dia, pois há pelo menos uma década que os descalabros socioeconômicos e políticos veem acontecendo e os governos anteriores, interessados em se perpetuarem no poder, jogava o problema para debaixo do tapete ou culpava o Congresso, como ocorre no presente.

Esse é um aspecto da história mais recente deste país, escudado num problema complexo e intrincado de se opinar, justamente porque muito ainda defendem lados, não pautados em discussões racionais, mas com muita paixonite, esquivando-se de compreender os fatos pelos fatos em si, ou seja, os acontecimentos por eles mesmos. Desta forma, me parece que seria interessante recorrer a momentos marcantes da história da humanidade, como por exemplo, as revoluções inglesas e francesas: as duas ocorreram em momentos distintos, contudo, com fulcro no âmbito político. A primeira aconteceu no século XVII, na Inglaterra e é considerada, na opinião do historiador José Jobson de Andrade Arruda, “a Primeira Revolução Burguesa da Civilização Ocidental”.

“Em 1640 teve início a Revolução Puritana. Em 1688 teve lugar a Revolução Gloriosa. Ambas, contudo, fazem parte do mesmo processo revolucionário, o que nos leva a optar pela denominação Revolução Inglesa e não Revoluções Inglesas, considerando-se que a verdadeira revolução se deu no transcurso da Revolução Puritana, entre 1640 e 1649, e  que a Revolução Gloriosa de 1688 foi apenas seu complemento natural” (A revolução inglesa, Brasiliense, 1990, p.7). Todos sabem que as consequências dessas sedições foi a criação das 13 colônias na América que, depois da Independência em 1776, se tornariam o que é hoje os Estados Unidos da América. É importante registrar que, na base da formação daquele país – um dos mais importantes na constelação da geopolítica pós-moderna –, estão os puritanos que fugiam do reino inglês por questões religiosas, principalmente advindas dos anglicanos – religião criada pelo reino britânico a partir de preceitos católicos e protestantes. Portanto, sempre que há revoluções, aqueles que são vistos como “inimigos” serão perseguidos, mortos. Um exemplo foi a noite de São Bartolomeu ocorrida na França em 1572, quando os católicos massacraram os huguenotes. De acordo com os dados históricos, cerca de três mil protestantes foram eliminados naquele morticínio. Como os meus leitores podem observar, sempre houve nas narrativas da humanidade períodos degradantes e aviltantes nos quais a existência humana, principalmente a vida dos adversários não significava nada e poupá-la indicava sinais de fraqueza daqueles que assumiam a condição de comando no cenário político.

Esse é um pequeno trecho da história das revoluções, como por exemplo, a Francesa que ocorreu em 1789 e é mais conhecida do que a Inglesa, mas as consequências podem ser observadas da mesma maneira, pois na França pós-revolução aparece o chamado período do Terror, encabeçado pelo líder revolucionário Maximilien de Robespierre (1758-1794) que, na sanha governista, mandou guilhotinar o burguês revolução George Jacques Danton (1759-1794). O mais interessante nesse enredo de violência pós-revolução é que o radical Robespierre também foi guilhotinado. Como meus leitores podem observar, depois dos momentos sediciosos, sempre há esse período de expurgos. Mas esses fatos não dizem respeito somente pelos lados das chamadas revoluções burguesas, pois eles também são registrados pelas bandas das sedições designadas de socialistas – se é possível haver alguma coisa nesse sentido, pois leitura atenta dos escritos de Karl Marx permite ao sujeito social compreender que somente haverá transformações sociais eficazes nas sociedades quando o modo de produção anterior [capitalista no caso aqui] estiver desenvolvido todas as suas potencialidades.

Numa Rússia ainda feudal no começo do século XX a história registra diversas rebeliões como a de 1905, um movimento antigovernamental que se espalhou como rastilho de pólvora pelo império russo. Muitos especialistas indicam que essa sedição foi o berço da Revolução de Outubro de 1917 – nada comunista. Logo depois instalação o regime de exceção, para não dizer de caça às bruxas, cuja principal vítima foi Leon Trotsky (1879-1940). Reservada as devidas exceções, será que se tem condições de analisar friamente o pós-64 no Brasil?  É preciso compreender que, qualquer um dos lados que vencesse a peleja, teríamos, conforme a sequência histórica que elenquei acima, períodos tenebrosos. Desta forma, sempre vejo ditaduras como abjetas e o Brasil precisa acostumar-se com a democracia, sendo assim, não se pode compactuar com líderes que são dados a bravatas como temos presenciados nos últimos tempos.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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