Pobreza política e cidadania

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Qual é o problema do Brasil? Pobreza política? Déficit alimentar? Falta de cidadania? Síndrome de vira-latas ou brasileiros macunaiminianos? Ou ausência de forte sentimento de nacionalidade e não nacionalismo? Ou o vício, que parece eterno, da plutocracia em se enriquecer às custas do trabalhador que paga diariamente seus tributos, impostos e taxas? Muitos diriam que pode ser a qualidade da categoria política que rege esse país desde antanho. Eu cá, depois de muito ler, analisar, pesquisar, buscar uma conexão de sentido entre o passado escravagista, seu vínculo com um liberalismo capenga e de segunda linha, ajustado a uma teoria racial e craniológica de quinta categoria que grassava pela Europa na segunda metade do século XIX, conforme nos relata a antropóloga e professora da USP, Lilia Moritz Schwarcz em seu livro O espetáculo das raças, começo a crer que a problemática é mais profunda do que se possa imaginar e se encontra em seu ethos de fundação, isto é, em seu campo ético, segundo o historiador Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) que fez significados apontamentos no clássico Raízes do Brasil.

Para não agastar muito a paciência dos meus leitores – se é que tenho muitos, contudo creio ter alguns, sendo-me possível contá-los a partir dos dedos das mãos – vou direto ao ponto. A grande questão a ser resolvida em nosso país é a maneira como as categorias sociais, que estão localizadas na base da pirâmide social, se posicionam no tabuleiro socioeconômico e político nacional. Teve um governo, de não muito pretérito, que por meio de dados artificiais e uma aritmética nefasta, criou algumas classes médias somente por que consumiam um amontoado de penduricalhos. Nada contra ter esses produtos e mercadorias em casa, todavia, mas a que custo? Juros altos que acabavam anualmente consumido a renda do trabalhador que tinha dificuldade de fazer provisionamentos para o futuro, ou melhor, criar fundos previdenciários. Se não há um nível de poupança interna em condição satisfatória, o dinheiro, enquanto mercadoria, custa caro ao ser captado pelas agências financiadoras, daí os juros altos em financiamentos para adquirir de um simples televisor a um automóvel.

As gerações passadas eram atormentadas pela inflação e a corrosão diária de seus salários. Em meados da década de 80 do século passado, ir aos supermercados era uma aventura, pois, como diziam os antigos, as coisas estavam pelo olho da cara – confesso até hoje que não entendi essa expressão direito -, mas de qualquer forma, o valor das mercadorias era reajustado diariamente, deixando pouco espaço para poupar alguns níqueis no final do mês.   Vários planos econômicos, muitos deles no campo da heterodoxia econômica, naufragaram logo após seu lançamento e o tormento inflacionário estava ali piscando para o bolso do trabalhador, informando que o salário seria corroído assim que passasse pelas mãos do empregado. Em minha visão de mundo, me parece que a coisa deu uma guinada, quando os choques heterodoxos foram abandonados pelos princípios ortodoxos, mais conhecidos como monetaristas em detrimento de desenvolvimentismos que só encareciam o Estado, que precisava captar recursos no mercado para manter a máquina pública, cada vez mais inoperante e refém da plutocracia e da burocracia aristocratizada.

Portanto, para alterar a situação fazia-se necessária uma reforma do Estado, ou melhor, enxugamento da máquina, privatização das estatais inoperantes e setores importantes para o desenvolvimento da economia brasileira, modernizações complexas de serem implantadas por conta da legislação e de determinadas leis. Na época, muitos foram contra, todavia, a coisa caminhou e o país entrou nos trilhos, buscando sempre um superávit para ter condições de quitar os débitos pretéritos, principalmente junto ao FMI [Fundo Monetário Internacional] que corroía as finanças do Estado brasileiro – é interessante observar que defensores dum tipo de governança espalhou pelo país que o arauto de sua legenda pagou a dívida com o Fundo, entretanto, nunca falaram por que e como esses débitos foram quitados [coisas da política]. Se a locomotiva brasileira estava nos trilhos, então o que deu errado, perguntaria o leitor arguto. Opções dos governos subsequentes que priorizaram o desenvolvimentismo e uma política irresponsável de aumento dos gastos públicos com a criação de vários setores no organograma administrativo objetivando contemplar a velha prática populista que tanto tem incomodado o Brasil. Seguindo a esteira de Fiodor Dostoievski (1821-1881), para quem o homem social é incapaz de tolerar a liberdade e está disposto a delegá-la para o líder que lhe garanta pão e segurança, o brasileiro, é possível perceber que a maioria do eleitorado optou por seguir essa prática que ficou bem explicita numa entrevista dado por um determinado ministro governamental, na qual este dizia que o trabalhador estava mais interessado em saber se a prestação cabia em seu bolso – nada mais irresponsável vindo dum político que ocupava cargo na hierarquia de cima do Palácio do Planalto. E as consequências?

Não precisa ser nenhum mágico para vislumbrá-las: ressentimentos atrelados ao estouro da bolha da corrupção, compras absurdas no Congresso Nacional, comissões, desvios e desmandos para todo lado e o esgotamento da máquina pública para se autogerenciar e manter serviços essenciais para a população, por um lado, e por outro, um atroz endividamento da população brasileira que caminhava para a insolvência. Qualquer sujeito interessado em decifrar o mundo em que vive, compreenderá que sempre quando a crise econômica bate à porta do sujeito, vem junto com ela, um amontoado de questionamentos sobre a classe política e daí aparecem os salvadores da pátria que sempre arrastam a sociedade para o “terror” – lembranças da França pós Revolução de 1789; Rússia pós Revolução Francesa; Itália depois da ascensão do Fascismo [Vasco Pratolini narra essas questões em seu romance Histórias de pobres amantes] e é lógico a Alemanha pós ascensão do nazismo. Portanto, não poderia ser diferente no Brasil, sociedade que ainda patina na busca pelo seu desenvolvimento econômico, político e social, cuja pobreza não é só no campo financeiro, mas sobretudo no âmbito cultural que acaba arrasando o sujeito para campos de batalhas que não conhece muito bem, culminando por defender pensamentos e ideologias caquéticas.

Desta pobreza política e, por que não cultural, é que pode ser encontrado pessoas acreditando que transformar uma democracia numa teocracia disfarçada de governo do povo para o povo. É lamentável assistir quadros dantescos de mandos e desmandos no Ministério da Educação, escolha de profissionais sem o menor preparo técnico para ocuparem esses postos e funções. E o que dizer de um burocrata que quer privatizar tudo, achando que o problema do Brasil será resolvido entregando a máquina pública para a iniciativa privada? Parece-me que o problema nesse começo de Terceiro Milênio não é o tamanho do Estado brasileiro, mas sim a sua inoperância e o balcão de negócios entre público e privado que conduziu as estatais aos seus fiascos. Enquanto esse sistema perdurar e o povo continuar vendo a política como solução para seus problemas pessoais, o Brasil continuará chafurdando na lama do populismo.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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