Violência escolar e educação

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Nos últimos trinta dias o Brasil foi assolado por uma grande quantidade de pequenos atos de violências, tendo como algozes alguns alunos e as vítimas sendo colegas e professores. Todos os dias os noticiários, de algum recôndito brasileiro, informam que determinado docente foi agredido ou ameaçado por um estudante. Após os fatos, muitos que estão fora da área educacional acabam achando-se entendedores em educação, em violência e creem ter soluções para os problemas. E um desses sujeitos políticos chegou a sugerir aos seus apaniguados que os educadores deveriam andar armados dentro das escolas. Essa observação foi uma das coisas mais absurdas e abjetas que a mídia levou até os cidadãos, pelo menos essa é a minha opinião.

Compreendo a problemática desta forma, porque, ao permitir que os cidadãos – adjetivados de “bem” e ganha coro a ideia de que um governante desarmou a sociedade e colocou as armas de fogo nas mãos dos bandidos – se armem, o Estado – entidade abstrata [pensando com Thomas Hobbes (1588-1679)], criada para mediar os principais conflitos em sociedade – não funciona mais conforme as expectativas dos cidadãos. Se esse Leviatã pós-moderno, por intermédio de seus aparelhos repressivos, não consegue equacionar a questão da violência, deve-se buscar as raízes desse problema que se torna endêmico, ou melhor, epidêmico a cada giro do relógio pela sua circunferência.

Quando as desgraças começam a se abater sobre a sociedade, todos querem encontrar rapidamente soluções para as mazelas que foram sendo edificadas silenciosamente por décadas a fio, mantendo, muitas das vezes, de forma intacta raízes pretéritas oriundas dos tempos senzaleiros quando o trabalho do outro não tinha valor nenhum, já que o empregado, na condição de catibo, era trasladado da África para cá como mercadoria que deveria ser explorada até a exaustão física. Eu já escrevi sobre isso, entretanto, é pertinente sempre relembrá-los para que o brasileiro não se esqueça que essa Nação foi erguida sem dar a devida valorização para quem atuava em sua construção, mais especificamente nas atividades chamadas aviltantes e sob o estalo do chicote.

Ao percorrer as páginas do livro Leviatã, de Hobbes, o leitor atento conseguirá encontrar a parte em que o conteúdo faz o indivíduo retornar ao universo da Biologia, ou seja, da ciência que se ocupa em entender a vida – o seu sentido é fruto de investigações feitas pela Filosofia. De acordo com a teoria hobhesiana, o homem em seu estado de natureza, se encontra em litígio com aquele que se afigura como seu adversário, contudo, para que essa condição cesse, se faz necessária a criação e posteriormente o aprimoramento do Estado. Entretanto, antes do advento do mesmo, o objetivo proposto não é alcançado sem luta, violência e segregação e desterro. Desta forma, aquele que foi confinado não aceitará tão bem essa sua nova situação. Sendo assim, no momento oportuno, todas as sevícias sofridas por estes seres banidos serão cobradas do opressor. Portanto, aquilo que o escritor José de Alencar (1829-1877) desejava dos escravos seria impossível de ser alcançado, isto é, “civilizar-se” sob o julgo do chicote e mantendo contato com o europeu que receberia gratidão por ter “instruído o elemento africano”, mesmo que essa fosse dada através do açoite.

Bom! Essa situação belicosa retratada por Thomas Hobbes também na obra Do cidadão, ainda assombra a sociedade às portas da pós-modernidade, mesmo que seu futuro seja líquido, nos dizeres de Zygmunt Bauman (1925-2017). Um exemplo do que externei acima pode advir da Nova Zelândia, onde um homem filmou o seu ataque de fúria a um centro religioso deixando quase 50 pessoas mortas e quando o algoz é levado ao tribunal de justiça, o mesmo faz um sinal que significa que o mesmo congrega ideais de supremacia branca muito difundida na região Sul dos Estados Unidos. Porém, pode-se estender essa exemplificação para outros cantos do mundo em que a violência se generalizou a ponto de transformar os envolvidos nesses atentados em seres bestializados. Mas, e daí? – como perguntava-nos em sala de aula Octávio Ianni (1926-2004). A preocupação precisa ser destinada ao Brasil e seus níveis alarmantes de violência, seja ela simbólica, abstrata ou concreta, ceifando vidas, deformando outras tantas e provocando avarias profundas em determinados sujeitos sociais.

Diariamente as mídias, até mesmo aquelas interativas, apresentam ao cidadão atento dados, segundo os quais, os jovens e adolescentes brasileiros estão mais suscetíveis ao universo da violência, seja como vítimas ou algozes. E os números tendem a piorar, na medida em que as pesquisas começam a precisar e quantificar e qualificar as informações em determinados compartimentos, como a região da cidade, Estado e Nação, em que moram esses jovens; renda familiar; grau de instrução dos pais – deve-se observar aqui que o fato de os jovens terem pais analfabetos não significa que os mesmos não tenham um futuro diferente dos pais. A partir desta observação, pode se interpelar que os focos de violência física, verbal e simbólica estariam localizados nas periferias das grandes cidades? Não é possível reduzir a análise desse fenômeno psicossocial apenas ao seu universo nas categorias sociais pertencentes aos extratos localizados no sopé da pirâmide social brasileira.

Se o cerne da violência não pode ser atribuído apenas aos confins das grandes cidades, onde operam uma polícia paralela designada como “milícias” e outras forças repressivas não legalizadas pelo Estado, como ela pode ser identificada para posteriormente ser eliminada? Se o leitor partir para o prisma da razão, encontrará diversos elementos que podem levar um sujeito social a ser belicoso para si e para os seus semelhantes. Há fatores que vão desde a desestruturação da família, passando pela desfuncionalidade desse importante núcleo até o total isolamento da pessoa do mundo concreto quando esta opta por ficar refém do mundo digital, conforme é apresentado no filme Matrix. Quando a sociedade dá conta do desaparecimento deste ser social, este está cometendo atrocidades como ocorreu na semana passada. Tem solução? Sim! Mas como? – perguntaria o meu leitor. Eu diria que a resposta não é imediata para produzir holofotes e muitos aparecimentos e curtidas nas mídias que se interagem de forma instantânea com o internauta.

O primeiro passo são os próprios pais se perguntarem o que estão fazendo para que seus filhos se tornem adultos capazes de discernir o certo do errado a partir do desenvolvimento de princípios éticos e morais. A resposta precisa ser encontrada a partir da perspectiva pessoal e depois enquanto casal. Mas se o filho veio ao mundo antes mesmo dos pais se sentirem integrantes fundamentais numa instituição e que objetivam ficar juntos e construírem uma vida na qual os filhos possam receber os princípios que nortearam suas existências em sociedade? Essa harmonia não acontecendo no interior das residências, os pais, juntos ou não, tendem a transferirem para a escola tarefas que cabem a eles efetuarem. Sendo assim, enviando seus rebentos às instituições de ensino sem a menor base de convivência em sociedade, os resultados todos já sabem: beligerância dentro e fora dos muros escolares.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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