Razões de um quase desenvolvimento

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Por que será que os Estados Unidos são desenvolvidos, avançados tecnologicamente e o Brasil continua patinando nas próprias manias e vícios? Essa pergunta me foi feita por um dos vários alunos que tive o prazer de ministrar aulas nos últimos 15 anos, entre instituições de ensino nas esferas pública e privada, desde os 6.ºs anos do ensino fundamental até o ensino superior. Responder a essa pergunta no momento caótico em que o país está, não é tarefa fácil, principalmente porque algumas das apostas que os eleitores fizeram em outubro do ano passado, não se apresentam como foram vendidas no período eleitoral e, justamente por conta de um pequeno detalhe – que faz toda a diferença -, o Executivo está à deriva; o Judiciário continua judicializando a esfera da política, até porque a sociedade não pode parar a espera do Legislativo – este mais acostumado a política do toma-la-dá-cá de sempre. Mudou-se apenas uns pequenos representantes, mas o velho caudilho continua lá personificado na recondução de Rodrigo Maia (DEM) à presidência da Câmara Federal.

Feitas essas observações iniciais vamos ao fulcro da interpelação que ditará o ritmo das enunciações que se seguem, numa narrativa que se pretende ser o mais imparcial possível, como nos dizia Max Weber (1864-1920) a partir de sua neutralidade axiológica. Então assim, vou direto ao enredo. Em primeiro lugar, os europeus que colonizaram a América Saxônica vieram para essa região com um simples objetivo: construir aqui um novo mundo, tendo sob si as observações contidas nos livros sagrados do protestantismo e não do catolicismo. Se o indivíduo observar os passos que o luteranismo deu a partir de seu criador, Martinho Lutero (1483-1546) – um monge dominicano que se rebelou contra os dogmas da igreja católica no começo do século XVI – se deparará com o que acabo de indagar. Na concepção daquele religioso, não haveria necessidade de haver intermediário entre o ser e o Senhor, bastando as Sagradas Escrituras e para que ela fosse útil nessa mediação, os homens precisariam ser educados para interpretar o texto bíblico. Ou seja, o instrumental teórico seria dado pela pedagogia e não pelas “ladainhas” dum clero apodrecido sobre as égides da Idade Média.

A partir do momento em que o sujeito iniciar a sua jornada pelo universo dos textos sagrados e construir a própria hermenêutica do existir aqui e agora, vislumbrando um futuro diferente do presente, compreendeu que o trabalho tem outra importância, virando a chave interpretativa, tirando dele o viés de tortura, infortúnio, danação divina por conta do pecado original, cuja salvação seria feita mediante os sacerdotes, ou doutores das leis sagradas. Levando em conta o viés analítico de Max Weber, o pio protestante, principalmente os calvinistas e puritanos, entendeu que a única forma da matéria agradecer a Deus pelo dom da vida é através do trabalho, portanto, todo ócio era condenado, pois não havia como ser grato ao Ser Supremo à própria existência através da preguiça, determinando que outros fizessem-lhe suas atividades através duma pretensa superioridade herdade de Adão e Eva, conforme o pensador inglês John Locke (1632-1704) informa em seu livro Segundo tratado sobre o governo para alinhavar suas observações que viriam fecundar posteriormente o que ficou conhecido como liberalismo e suas adjetivações como pós isso e aquilo.

É justamente o braço inglês do protestantismo povoará a América Saxônica depois de fugir da sanha católica e anglicana em terras britânicas. No novo continente puderam construir uma Nação a base de suas interpretações dos textos bíblicos. Em seu livro Ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber faz um excelente apanhado histórico deste período para dizer que, por trás do desenvolvimento do capitalismo norte-americano, estava uma ascese muito específica, pautada na ideia de que, para contemplar Deus, o devoto enxergaria o trabalho, não como forma de punição, mas na condição de fonte de prazer e devoção ao Ente Sagrado. Até aqui, pode-se dizer que ainda não existia a certeza de que depois do fim da existência corpórea, o crente seria aceito no reino dos céus, conforme preconizado por Jesus, o Cristo a partir de alguns de seus apóstolos. Seguindo-se a essas observações feitas por Weber, é possível encontrar outras ferramentas analíticas na obra de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) Raízes do Brasil. É também um trabalho, cujo referencial metodológico é dado pelos tipos ideais weberianos na medida em que constrói uma tipologia de colonizador português e tenta aproximá-la daqueles encontrados através de vasta documentação e outros registros.

Posso afiançar aos meus leitores semanais que tenho apreço por essa interpretação de Sérgio Buarque de Holanda porque me possibilita, ao comparar o Brasil colonial com os Estados Unidos republicano, entender uma das razões que levaram a discrepâncias gritantes entre as duas Nações encravadas no mesmo continente, separada apenas pela linha do Equador o os trópicos. Sendo assim, me veio a seguinte pergunta: por que no Brasil o trabalho não é valorizado? Não precisa ir muito longe para saber que, num país em que vigorou, por mais de três séculos, a escravidão africana, dificilmente os descendentes de escravizadores valorizariam monetariamente o trabalho do outro. E isso pode ser compreendido sempre quando alguém tenta desqualificar o que o semelhante faz, achando que qualquer um pode fazer aquilo por um preço menor, mesmo tendo uma qualidade inferior. Em minha singela opinião, essa prática está contida no ethos de formação deste pais – compreendo aqui ethos como ética. A segunda interpelação diz respeito ao universo educacional que acaba desaguando na questão anterior: por que a educação não tem valor algum para os brasileiros, em sua maioria, é claro? A interpelação escuda-se no fato de que o setor virou saco de pancadas de governos e desprezo por parte dos governantes e seus asseclas, principalmente daqueles que desconhecem o ofício docente.

Aqui a problemática é bem significativa, pois, ao fazer uma comparação entre a educação legada aos filhos dos novos colonos americanos e aquela oferecida aos rebentos dos aventureiros que singraram o território brasileiro, observação a discrepância. Aqui não existe o cálculo racional para se atingir um fim, conforme diz Weber. É como naquela ideia de ação social objetivando uma conquista. A educação, quando encarada pela ótica dos pais, deve ganhar essa nuança, entretanto, para que a meta seja alcançada, se faz necessário organizar a vida do filho, desde o berçário até a universidade. Outro aspecto que deve ser observado é que lá os ex-universitários não se desligam das instituições em que estudaram: eles contribuem para os fundos financeiros que auxiliarão os mais desafortunados a buscarem suas realizações através da educação. Isso é na América e aqui no Brasil, como a coisa funciona? É só observar a seguinte abordagem: o brasileiro não pergunta o que ele pode fazer pelo Brasil, mas o que o Estado brasileiro pode lhe aferir? Claro que aí a questão tributária – aliás, essa é problemática ao extremo – que deverá ser equacionada numa reforma a partir do Legislativo, porém como fazer isso se o brasileiro ainda patina na democracia? Na próxima semana uma resposta a essa pergunta pode ser dada através da tragédia que aconteceu na manhã de ontem numa escola pública de Suzana.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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