Locomotivas econômicas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Escrever sobre o Brasil e suas mazelas não é novidade nenhuma e chega a ser chato, pois estou correndo o risco de ser repetitivo e enfadar os meus leitores – se é que eu tenho algum. Então qual o conteúdo que devo usar para preencher esse espaço semanal e entreter o meu público? Se fosse na época da Ditadura Militar (1964-1989), quando a manifestação do livre pensamento era vetada por leis truculentas, só restavam aos jornais e aos cronistas publicarem receitas de bolo, versos de Camões ou estampar enunciações irônicas sobre qualquer fato isolado da vida cotidiana. Mas a era dos coturnos já passou e as liberdades foram restituídas pela Constituição de 1988 – mesmo ela tendo alguns dispositivos que precisam ser regulamentados e mais brasileiros a lerem – o que foi um grande avança num país que guarda vínculos com um passado em que o trabalho alheio nunca havia sido valorizado e continua não sendo.

De qualquer forma, abordar a Terra de Pindorama é sempre alvissareiro quando se observa que ainda há brasileiros que desconhecem a história de seu próprio país, colocando em suspeição ou dúvida determinados fatos, como o próprio regime de exceção que durou um quarto de século. Pode-se não ser favorável a uma ideia de esquerda, contudo, não se pode negar os fatos – tive aulas com alguns professores que foram torturados a mando de generais e seus galardões. Nesses arroubos passadistas, ainda é possível encontrar pessoas que dizem que naqueles tempos, as coisas eram diferentes e não tinham como ser de outra maneira. Não havia internet, não existia computadores de ponta, a tecnologia não era tão avançada como é hoje; os veículos automotores eram outros e as informações demoravam para chegar e quando apareciam, via impressa, estavam truncadas ou censuradas. Mas quem acredita que a ditadura militar foi benéfica para o Brasil deve ter lá suas razões e eu respeito todas elas, mesmo discordando.

Agora é preciso ter claro algumas questões emblemáticas que muitos desconhecem e, em virtude disso, acabam dizendo coisas sobre as quais não têm conhecimento correto do que está propalando. É comum escutar em alguns momentos, que os 14 anos de governo petista foram os melhores que este país já vivenciou e inclusive o Brasil deixou de ser devedor do FMI (Fundo Monetário Internacional) e foi adjetivado como credor. Em linhas gerais, creio ser importante, mesmo que forma sintética, explicar como funciona o Fundo Monetário – órgão da ONU [Organização das Nações Unidas] para fins econômicos. O organismo é formado pelos países membros da ONU e enviam recursos monetários para compor uma espécie de reserva internacional de recursos financeiros que podem ser utilizados pelas nações-membros em seus momentos de dificuldades econômicas. Muitos países com problemas de caixas e de reservas cambiais recorrem ao FMI, deixando de ser credores, abraçando o adjetivo “devedores”. O Brasil, durante muito tempo, ficou nessa segunda qualificação e somente no começo deste Terceiro Milênio conseguiu inverter essa condição, contudo, não foi graças a um governo, como muitos querem acreditar, motivados por propagandas ideológicas, mas por um conjunto de fatores.

Parece-me que a situação começa a ser resolvida, mesmo que lentamente, no primeiro governo depois da redemocratização, mais especificamente no mandato de Fernando Collor de Mello – gestão marcada pelo confisco da caderneta de poupança e, pela primeira vez o impeachment dum presidente deste que a lei foi criada em 1952. Lembro-me duma fala do ex-presidente em que este dizia que os carros brasileiros eram carroças e que só iriam melhorar se as montadoras fossem assombradas pela abertura do mercado. E aí está, os veículos brasileiros competindo em pé de igualdade com os importados, sendo que muitas montadoras transferiram para cá seus parques fabris. Todavia, o que marcou aquele governo foi justamente a corrupção, um carro da marca Elba, cheques, PC Farias, delação do irmão de Fernando Collor e o confisco da poupança como ferramenta macroeconômica de tirar dinheiro de circulação, pois se acreditava que este fosse um dos males da inflação e o próprio papel-moeda em sua condição de mercadoria se defasava diariamente, assistindo seu valor de face se derretendo em menos de 24 horas.

Claro que a queda de Collor de Mello marcou a ascensão de seu vice, Itamar Franco (1930-2011), cujo curto mandato marcou o aparecimento de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para além da Sociologia e dum dos líderes das Diretas-Já. Ele foi o ministro de Itamar responsável pela criação do Real [moeda] que começou a circulação após o adoção da URV (Unidade Real de Valor) que vigorou por um ano objetivando retirar de circulação a inflação residual capaz de contaminar o futuro econômico do Brasil, mais conhecido como indexação dos preços que há décadas vinha assombrando a vida dos brasileiros, principalmente aqueles que iam aos supermercados de manhã, encontrando os preços dum jeito, mas caso esquecessem de alguma coisa e voltassem para buscar depois do almoço, com certeza, encontraria outro valor fixado na mesma mercadoria. Acompanhei bem esse processo de dentro do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) onde participarei de vários debates, mesas-redondas, cursos e colóquios sobre a nova moeda. Havia ainda o Instituto de Economia que – com ligações cepalinas, ou melhor com o universo desenvolvimentista – também promovia eventos de significativa importância para se compreender o Real e a URV.

Da mesma forma que me lembro desses acontecimentos, minha memória ainda guarda as palavras de ordem, os chavões que um determinado partido e seus asseclas apregoavam naqueles tempos, afirmando que o plano Real era eleitoreiro e produzido pela direita capitalista – como se fosse possível no Brasil existir tal ideologia – e liberal para enganar o eleitorado e continuar no poder. É significativo observar que na sequência do lançamento do plano, Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente do Brasil e continuou seu projeto de reformar o Estado Brasileiro. Foi bem-sucedido até onde conseguiu levar o seu propósito, com um quanto de observações feitas por Max Weber em seu livro sobre burocracia e vocação, mais especificamente na obra Parlamentarismo para uma Alemanha reordenada. Na esteira de modernizar o Estado brasileiro e a sociedade a partir de fundamentos macroeconômicos, criou programa que, até hoje, evita que uma instituição financeira, em má situação econômica, contamine o sistema como um todo. Claro, na época ele foi acusado de proteger os interesses de determinados banqueiros, contudo, foram esses mecanismos que evitaram que o Brasil entrasse no olho do furacão na crise econômica de 2008. Não posso esquecer que foi em sua gestão que se criou a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) que criou ferramentas para punir os prefeitos, governadores e presidentes da República, além de outros gestores públicos que gastam mais do que arrecadam. Novamente essa lei também não teve como signatário o partido que sucedeu a Fernando Henrique Cardoso. Entretanto, os 14 anos seguinte, o país deu um salto em qualidade social, levando-se em conta o que existia antes. Abordarei esse aspecto em outra reflexão.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

 

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