Nova velha política

Gilberto Barbosa dos Santos

 

A psicóloga Ecléa Bosi (1936-2017) – esposa de Alfredo Bosi – afirmou em seu livro Memória e sociedade: lembranças de velho que o idoso tem memória seletiva e o processo ocorre quando o mesmo narra as peripécias que marcaram sua existência. Por exemplo, é comum a mesma história ganhar tons de dramaticidade quando contada para alguém que lhe é semelhante em idade e heroísmo ao ser narrada a uma criança, principalmente se está mantêm laços sanguíneos com o enunciador. Entre os grandes escritores brasileiros, que explorou esse tipo de enredo, está Monteiro Lobato (1882-1948) na saga Sítio do Pica-pau amarelo.

Deixando esses dois universos para outro momento e me imiscuindo no campo da política atual no Brasil, pergunto ao meu fiel leitor semanal: como seria a memória política deste país? Usando o âmbito filosófico e matemático, imagine um brasileiro aportando no Brasil no final deste século, objetivando contar para os moradores como foi o presente nessa seara. Quem fez um exercício ficcional desta envergadura foi o escritor paulista Ayrton Marcondes através do romance Por onde andará Machado de Assis? A história é interessante por que aborda a investigação das causas da morte da personagem Flora, que ilustra o penúltimo romance de Machado de Assis (1839-1980) Esaú e Jacó. No enredo machadiano, Flora, filha do advogado Batista – Conservador transformado em Liberal pela esposa – é apaixonada pelos gêmeos Pedro e Paulo – o primeiro é um Monarquista e o segundo Republicano num Rio de Janeiro no final do Oitocentos quando o Brasil passava pela transição entre Império e República.

Um padre aporta no Rio de Janeiro Oitocentista para investigar as causas que provocaram a morte de Flora, levando em conta que ela não conseguiu se decidir com qual dos gêmeos de deveria se casar, chegando a sonhar com o primeiro, porém, este se transforma no segundo. Quem tiver interesse em saber das duas enunciações, a pretérita de Machado de Assis e a de Marcondes, devem percorrer as páginas dos dois romances, pois o que me interessa neste momento é imaginar o que o brasileiro, deste começo de século, falaria aos habitantes da Terra de Santa Cruz por volta de 2099/2100? Claro que seria seletivo, contudo, será que diria que apesar da alta tecnológica, muitos de nós, do presente, continuam pensando e agindo como se ainda estivessem na transição do Oitocentos para o Novecentos? Informaria aos brasileiros do amanhã que, apesar da herança violenta de 25 anos de Ditadura Militar, boa parte dos brasileiros sente saudades do longo período de exceção, quiçá um quarto de século em que o pensamento livre foi cerceado pela força das baionetas e pelo peso dos coturnos?  O viajante do tempo informaria aos moradores do dia seguinte que os professores do presente foram acusados de serem doutrinados durante o seu exercício profissional, mesmo sem ter tempo hábil, se quer, para passar o conteúdo mínimo para que o aluno termina o período escolar sabendo alguma coisa?

É, meu caro leitor semanal, como podes observar, o astronauta do momento que entra na capsula do tempo, mas sem ter a vocação de visitar o passado, porém com fortes desejos para conhecer o resultado do que foi plantado em outubro do ano passado, poderia ficar horrorizado ao saber que para se chegar ao quadro dantesco de hoje, muita verborragia foi espalhada pelos quatro cantos da Nação, principalmente aqueles que vociferam aos seus asseclas que defenestraria a velha política, inaugurando um áureo período de bonanças em que os pobres, se não deixassem de ser pertencentes aos extratos inferiores da sociedade, poderiam acalentar um futuro, mesmo não tendo garantias trabalhistas e nem que alcançariam a tão almejada aposentadoria, até porque um político da velha guarda de caciques que comandam a máquina partidária, permaneceu no terceiro cargo mais importante do país, através do conchavo feito pelos partidários dum presidente que, durante a campanha, alardeou que faria isso e aquilo, mas antes mesmo de assumir o posto, fechou questão com a bancada ruralista indicando que perdoaria as dívidas que o setor agrícola nacional tem com o Funrural. Como explicar isso aos eleitores e leitores dum amanhã que poderia ser diferente, entretanto, em virtude da velha prática do toma-lá-dá-cá se perpetua ano após anos?

Antes de adentrar no campo das repostas dessas e de outras interpelações que advirão da leitura dos textos registrados para que todos possam compreender o conteúdo narrativo do que se pretende explicar, me parece salutar enveredar-me pelo campo do positivo, isto é, do que foi bom lá no ontem, de onde partiu aquele viajante do tempo. Lógico que ele poderá dizer que está chegando da terra onde tem muitas palmeiras e se pode ouvir plenamente o gorjear dos sabiás. Ou que, de tanto insistir, conseguiu finalmente escutar o canto do Uirapuru – de tão belo, a natureza se silencia para ouvi-lo, já que o pássaro canta uma vez por ano. O nosso andarilho do tempo também afirmará àqueles que se reunirão na praça para vê-lo narrar as histórias dum passado não muito distante que outrora houve um escritor – Castro Alves (1847-1871) conhecido como poeta dos escravos – que verteu em versos enunciações maravilhosas, como por exemplo, que o céu é do condor como a praça é do povo, ilustrando plenamente que o cidadão sabia ocupar e muito bem o seu lugar na arena política de ontem.

Claro que aquele que ouvir os relatos do viajante perguntar-lhe-á, “como seu povo conseguiu chegar a esse descalabro?” O pregador responderá que tudo começou quando as naus comandadas por Cabral aqui aportaram por volta de 1500. Entretanto, do meio da turba – a exemplo daquela fábula em que um plebeu grita que o rei está nu – que ocupa a praça pós-moderna recheada de Fake News, vociferará: “mentira! Mentira e mais mentira! São aleivosias para enganar o cidadão de bem! Tudo começou quando a Princesa Isabel, fazendo-se de pia, alforriou os escravos, mas não lhes deu condições de se emanciparem, nem aos ex-cativos nem aos escravagistas. Portanto, os desajustes sociais estão presentes até o momento!” O narrador atemporal tentará apresentar seus argumentos, contudo, serão veementemente rechaçados, pois a turba pós-moderna entrincheirada nas mais diversas páginas sociais espalhadas por uma miríade de plataformas na rede mundial de computadores, dirá que acreditou num prosador fantástico e de alta patente que gostava de discursar afirmando que acabaria com a velha política, só que, no entanto, os fatos provam o contrário. A partir dessa admoestação, a praça pós-moderna se dividirá em duas facções: a parcela dos que são contrários aos fatos históricos mais recentes e aqueles que creem que tudo não passa de intriga da mídi, querendo desestabilizar o governo. Nosso viajante, diante de tamanha balbúrdia resolve voltar para o presente deste que escreve essas linhas, objetivando explicar aos homens da atualidade os riscos que a dualidade desenfreada pode levar todos os brasileiros. Será que ele conseguirá? Não sei! Somente o tempo é quem dirá e, enquanto isso, o nosso viajante no tempo, senta e espera o bater insistente do relógio enquanto a velha política se fantasia de novidade na praça concreta.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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