Povo sem cidadania e praça

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Qual o assunto que devo tratar hoje? Da tragédia humana que se abateu sobre a população que vivia em torno da mineradora Vale no interior de Minas Gerais? Ou dos seres humanos que pensavam em agredir a natureza porque ela esconde um amontado de minérios que poderiam tornar esse país rico? Ou das tentativas de desalojar os indígenas de suas terras ou forçá-los a verem no espaço geográfico que habitam a possibilidade de arrendarem as terras para que os metais precisos sejam retirados e a floresta vire cinzas? Talvez não! Melhor abordar as sociedades quilombolas que guardam resquícios dos tempos em que homens, pela cor de suas peles, eram tratados como mercadorias bestiais e, ainda assim, vilipendiados em suas condições humanas, reverenciar aqueles que os surravam sem dó nem piedade, mesmo que os algozes fossem domingo à missa e se confessar ao vigário que sempre lhes diziam que os africanos não tinham alma e que as surras que levavam iam civilizá-los, conforme o escritor José Martiniano de Carvalho (1829-1877) retratou em vários de seus romances, como por exemplo, O tronco do ipê? É! Acho que nenhuma dessas temáticas são, assaz, alvissareiras para essa quinta-feira, momento em que as escolas públicas e particulares começam a engrenar a locomotiva pedagógica para o ano letivo de 2019.

Bom! Se não tem assunto, não há reflexão e podemos todos, inclusive esse que vos escreve, meus caros leitores, irmos para a casa e esperar que tudo de certo no final do dia. Afinal, o presidente da República foi eleito democraticamente, mesmo que uns não queiram, foi o desejo duma maioria ressentida com os últimos 15 anos de um tipo específico de governo, nos quais foi-se da fartura na mesa à faturas dos cartões e códigos de barras atrasadas e juros sobre juros e o empobrecimento daqueles que um dia, por caírem no engodo do pescador eleitoral, acreditarem-se integrantes duma certa classe média, criada artificialmente a partir da concessão farta de crédito e financiamentos de todo tipo. Comprava-se tudo e exibia-se na praça, aquela mesma poetizada por Castro Alves (1847-1871) – o poeta dos escravos. Essa ágora que servia apenas para os atrozes exibicionismos de seus financiamentos toscos, cobra a fatura muito rapidamente. Entretanto, pertencer a uma suposta classe média não significa apenas consumir bem materiais e penduricalhos que se dissolvem no dia seguinte, conforme Karl Marx (1818-1883) – o pensador maldito da hora -, Johann Wolfgang Goethe (1749-18312) em seu Fausto ou para ser mais atual, Zygmunt Balman (1925-2017) em seu Vida líquida, é preciso ir muito mais além do processador de subjetividades.

Contudo, como ir além, se a visão de mundo dos sujeitos sociais está apenas no hoje, no aqui e agora do consumismo líquido? Mas não vou tratar neste espaço do tempo que se liquefaz, conforme o pintor surrealista espanhol Salvador Dali (1904-1989) retratou em seu quadro “As horas moles”, cujas imagens refletem relógios escorregando pelos cantos das mesas, como se os seres humanos não conseguissem dominar mais o tempo como outrora era possível, em virtude das atividades laborais seguirem um ritmo mais lento e pautadas nas estações temporais. Se desisti de abordar o escorregadio tempo que é veloz e se liquefaz num piscar de olhos, mas estático ao mesmo tempo, então qual a temática verterá a minha reflexão, objetivando entreter aqueles que me leem semanalmente? Talvez eu possa me enveredar pelo campo pedagógico, levando em conta que o universo escolar está em plena semana do início do ano letivo e há muita conversa disso e daquilo, além de culpar o professor por tudo de ruim que existe no campo educacional.

Acho que essa temática também está desgastada, principalmente quando se pensa em termos de funcionalidade e sentido para que se faz algo nessa sociedade que se volatiza diariamente. Mas de qualquer forma, é assaz importante umas palavrinhas sobre a área e eu começo trazendo uma observação do economista norte-americano Milton Friedman (1912-2006) em seu livro Capitalismo e liberdade. “Uma sociedade democrática e estável é impossível sem um grau mínimo de alfabetização e conhecimento por parte da maioria dos cidadãos e sem a ampla aceitação de algum conjunto de valores. A educação pode contribuir para esses dois objetivos. Em consequência, o ganho com a educação de uma criança não é desfrutado apenas pela criança ou por seus pais mas também pelos outros membros da sociedade. A educação  do meu filho contribui para o seu bem-estar em termos de promoção de uma sociedade estável e democrática. Não é possível identificar os indivíduos particulares (ou famílias) que se beneficiam em tal caso e taxa-los por serviços usufruídos”.

O que pensar dessa observação do pensador norte-americano? Parece-me que é possível iniciar a resposta pela observação sociológica, segundo a qual, é tarefa dos pais inculcar nos rebentes os processos iniciais que tornarão os filhos seres sociáveis. Para nós, cientistas sociais, esse processo é definido como “socialização primária”. É nesse momento em que o futuro homem social recebe as primeiras indicativas de comportamento ético e moral, não somente por intermédio do que escuta, mas sobretudo a partir do que vê e observa ao seu redor. Neste sentido, me parece que as análises filosóficas feitas por Immanuel Kant em sua obra introdutória Fundamentos para a metafísica dos costumes é de vital importância, principalmente no que diz respeito à universalização das atitudes. É através dela que o homem agirá em sociedade, tornando sua atitude, por menor que seja, globalizada e repetida pelos demais pares.

O segundo momento é o designado como socialização secundária e se dá em outras esferas institucionais, como escola, igreja e trabalho. Neste ponto, é importante observar que o comportamento do aluno não vai da escola para casa, como muitos pais gostam de dizer, mas faz o movimento contrário, isto é, vai de casa para a escola e ganha outros significados na medida em que o discente procura se identificar com os diversos microgrupos que pululam o interior duma instituição educacional. Qual turma o filho vai se encaixar na escola? Quais são as recomendações que os estudantes recebem em casa, antes de irem para as unidades escolares? As aulas começaram essa semana: quais foram as primeiras recomendações paternas? É preciso muita acuidade ao iniciar os processos linguísticos e discursivos para responder essas interpelações, principalmente por conta de algumas observações que não passam de senso comum sobre a prática docente. Ressalte-se que esse discurso não é totalizante pois advém, principalmente, daqueles que desconhecem os processos pedagógicos e fazem o trabalho de capitães-do-mato, sem, no entanto, saberem que o fazem. Recebem determinados mandamentos e os cumprem cegamente, o que é lamentável para um país que precisa urgentemente se modernizar em todas as esferas sociais abandonando de vez os resquícios dum tipo específico de capitalismo: o senzaleiro que ainda impera por aqui, mesmo que muitos tendem a negá-los, mas as estatísticas demonstram através dos fatos e não boatos. Voltarei em momento alvissareiro a esta temática.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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