Memórias, heróis e cidadania

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Karl Marx (1818-1883) – filósofo alemão odiado sem, no entanto, ser devidamente compreendido pelos seus algozes – disse, em de seus vários trabalhos, que o homem faz a sua história, mas não como deseja e sim pelas condições sociais determinadas pelo meio. É através do ambiente socioeconômico que o sujeito existe reproduzindo e dando novos significados para o mundo à sua volta. Mas como seria essa questão proposta pelo pensador oitocentista? Quando o cientista social procura compreender a realidade que o cerca, o primeiro passo é tentar entender como o homem pensa a partir de determinadas categorias sociais e históricas, como por exemplo, a família, o Estado, o sistema produtivo. Mais: a produção de diversos significados nos campos simbólicos da existência do ser em que é construído a partir dum vir a ser enigmático, já que o futuro ainda não é, tendo do mesmo apenas expectativas referenciadas num ontem que é dado e compreendido.

É desta forma que o estudante é exposto a determinados fatos históricos, não para ser dogmatizado, pois não é esse o papel da educação e da escola. Imputação de dogmas e rituais litúrgicos diz respeito ao campo religioso e do sagrado e não do pedagógico, como nos lembra o sociólogo francês Emile Durkheim (1858-1917) em sua obra “Educação Moral”. Portanto, quem pensa que o professor vai doutrinar, no sentido de imputar sentido ideológico na cabeça dum estudante, engana-se e aquele docente que tem tal visão de mundo e quer usar o seu instrumental pedagógico para isso, equivoca-se. Parece-me que esse é o ponto nevrálgico que muitos dos defensores do atual governo federal tenta imputar àqueles docentes que atuam, principalmente nas chamadas ciências humanas. Do meu ponto de vista científico, sempre indico que é preciso compreender todas as questões com muita acuidade para não saírem blasfemando e dizendo coisas das quais desconhecem e sem conexão de sentido com a realidade dada.

No campo das categorias sociais que formam os sujeitos sociais, há a família que pode ser analisada sobre determinados prismas, por exemplo, de Durkheim – uma amiga socióloga me enfatizou numa rede social que é complexo e eu tendo a compactuar com suas observações, entretanto, me parece ser possível torná-lo menos hermético para quem não é iniciado no linguajar sociológico, tornando-o palatável a todos aqueles que se propõem a compreender o mundo em que vive. Desta forma, para aquele pensador francês, a família é entendida como um fato social, que é externo ao sujeito, por isso, tem um caráter coercitivo. Por que isso? Porque quando o indivíduo nasce, não escolhe quem vai ser o pai e a mãe e nem o sistema político-social sob o qual a sua vida vai ser regida. É justamente esse meio que Marx afirma que forjará o ente social a partir do vir a ser kantiano construído a partir valores a priori que o homem, enquanto um ser unitário, individual, uno, não pode interferir enquanto está no seu processo de socialização primária, isto é, quando está recebendo as primeiras noções de convivência em sociedade. Esses valores são imputados pelos pais e não pela escola. Todavia, no mundo contemporâneo, no qual os pais são compelidos a deixarem seus filhos em creches e outras instituições que cuidam de crianças recém-nascidas, estes não conseguem inculcar determinados significados à vida de seus rebentos.

Esse é o quadro social e suas respectivas categorias analíticas sobre as quais um cientista social se debruça, não apenas para compreender sua gênese, mas como o seu presente e, se possível, indicar posteriores atitudes dos envolvidos nesse teatro em que todos representam papéis, conforme nos diz o antropólogo norte-americano Erving Goffman (1922-1982) em vários de suas observações sociais. Claro que uma criança que tem condições de se manter em contato constante com seus pais, sem precisar ser exposta diariamente a educação terceirizada, produzirá uma visão de mundo diferenciada, justamente por conta dos valores e do acompanhamento que os pais – e aí é preciso ter claro que não existem ex-pais; pode haver ex-marido, ex-esposa, mas ex-pais e ex-filhos é meio impossível de haver – fazem no dia a dia. Por exemplo, o que é correto e incorreto na conduta em sociedade e com os demais pares? Os filhos vão entender corretamente quando as instruções passadas pelos pais existirem não apenas no campo teórico e na verborragia do lar, mas na concretude do viver. Uma criança que, durante um passeio com os responsáveis, percebe que os adultos não respeitam se quer uma fila de banco, na lotérica ou num simples guichê para comprar uma passagem, vai entender que isso é coisa corriqueira e a tendência é, quando se tornar adulta, repetir aquilo que seu universo psíquico está repleto. Portanto, não basta dizer o que é certo, mas tem-se que praticar diariamente isso.

Immanuel Kant (1724-1804), em seu pequeno livro Fundamentação para a metafísica dos costumes, diz que a prática do sujeito social tem que ser tal qual possa ser universalizada. Ou seja, o que se faz hoje precisa ser globalizado no vir a ser do homem e isso só é possível quando a criança do presente se tornar o adulto amanhã. Desta forma, se a educação do rebente prioriza a desigualdade, não só do ponto de vista social, mas econômico, religioso, as chances do aprendiz de hoje ser um intolerante amanhã, com as minorias, são enormes, justamente porque ninguém nasce preconceituoso, mas se torna a partir dos valores recebidos e percebidos durante os processos que nós, cientistas sociais, chamamos de socialização primária. Aqui cabe um retorno a Karl Marx e sua observação reproduzida no começo desse texto, ou seja, é no interior da família que determina os valores professados durante a vida ativa na sociedade. É comum ouvirmos em diversas homilias litúrgicas que “o meu é verdadeiro, o seu não”! Esse é o primeiro passo para se inculcar intolerância na cabeça daqueles que estão aprendendo como se tornar adulto e cidadãos de fato e com direitos, como todos os outros, pois a Constituição Federal –a lei maior deste país – garante igualdade para todos – mesmo que seja apenas no campo da letra fria da lei.

Se isso é possível, a democracia também. Conforme eu já apontei em outro lugar, ela, desde os gregos, pressupõe a vontade do povo – essa entidade abstrata que absorve o ser, o indivíduo -, portanto, a maioria. E como disse certa vez o poeta dos escravos, Castro Alves (1847-11871), a praça é do povo como o céu é do Condor. Parece-me que o pássaro sabe muito bem o seu lugar no firmamento, já o povo, como diz Fiodor Dostoievski (1821-1881), está decidido a trocar seu local na praça pública pelo líder que lhe garanta pão e segurança. Nesse ponto, atingimos a construção de heróis mitológicos no campo da política que, ao ser agrupados em categorias, se tem aí práticas populistas aqui e alhures. Portanto, a tendência de escolher governantes com muitas bravatas e palavras de ordem não é de hoje, ou seja, não é um fenômeno social relativamente novo ou do século XXI, mas algo que aparece de tempos em tempos na sociedade, gerando comportamentos totalitários a partir daqueles sujeitos que desconhecem o que realmente é a cidadania, crendo que salvadores da pátria tirarão o povo da ignorância política mantendo o pão e o circo cotidiano, conforme o mundo romano antigos nos diz.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

 

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