Castelo discursivo

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Nesta primeira reflexão do ano, deixo de lado as pelejas quase que ideológicas, ou melhor, lá em 2018, já que o atual mandatário nacional, por vontade da maioria dos eleitores, prometeu acabar com as ideologias – como se isso fosse possível! Neste ponto, me parece ser interessante traçar, mesmo que seja com trôpegos, algumas linhas sobre isso, nas quais me enveredarei por esse campo pantanoso que confunde muitos, a ponto de defenderem ideais estapafúrdias, crendo estarem eliminando a ideologia do orbe terrestre e, no caso aqui, o Brasil. Entretanto, quem age desta forma, tenta eliminar uma proposta e impor outra oriunda do grupo dominante, como diz Karl Marx (1818-1883) em seu clássico A ideologia alemã. Reitero que o questionar é livre e constitucional, portanto, aqueles que desejam defenestrar a contribuição desse intelectual alemão para se pensar questões da contemporaneidade, podem fazê-lo e acho isso, do ponto de vista democrático, alvissareiro, todavia, não é possível tentar desmontá-lo por ouvir dizer, por palavras de ordem ou discursos panfletários. É preciso percorrer a obra e ir desmontando-a, observando porque desclassifica-se tal apontamento e apresentar outro no lugar.

Neste sentido, entendo ser alvissareira a observação que um filósofo franco-brasileiro, Michel Löwy faz sobre a definição de ideologia dada por Marx. As reflexões de Löwy podem ser encontradas em seus livros, mais especificamente na obra Ideologias e ciências sociais: elementos para uma análise marxista. Vejam bem, meus caros leitores, o franco-brasileiro tratará das ideologias e não de uma específica e sob a perspectiva apenas de um ponto de vista, portanto, não da perspectiva do que muitos pensam ser a verdadeira e única ideia a dar conta da realidade social brasileira e global. “Em A Ideologia Alemã, o conceito de ideologia aparece como equivalente à ilusão, falta de consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida  e as ideias aparecem como motor da vida real”. Importante observação, pois a partir dela é possível compreender que o grupo que chegou ao poder – forma democrática – quer, no fundo, ao atacar o livre pensamento, evitar o contraditório, o questionamento de determinados princípios éticos e morais e impor apenas uma via de mão única, como dizia Walter Benjamin (1892-1940) em seu livro Rua de mão única, o que é muito perigoso para o progresso da sociedade nestas primeiras décadas do Terceiro Milênio e também para a sobrevivência da democracia, cuja existência depende dos contrários e suas capacidades de dialogar e chegarem ao entendimento – esse desejo nos foi legado pela Revolução Francesa (1789) através do lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Sendo assim, pensar diferente, lutar para chegar ao poder através desta idealização é de vital importância, entretanto, ao assumir o poder, apoderar-se dum discurso virulento, apresentá-lo para a turba que o aplaude, é temeroso, pois a história recente da humanidade está recheada de totalitarismos disfarçados de democracias e o Brasil Republicano passou mais tempo sob essa batuta do que convivendo pacificamente com os contraditórios. Posso citar alguns exemplos: o Marechal de Ferro e seu governo totalitário escudado pelos jacobinistas brasileiros – quem quiser compreender sintética bem esse período da perspectiva ficcional basta ler o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922) -; os primeiros anos do governo ditatorial de Getúlio Vargas (1822-1954) – a chamada Era Vargas; o período de chumbo comandado pelos coturnos e da caserna instalada no Palácio Central (1964-1989). Para compreender esses momentos totalitários no mundo, existe uma vasta bibliografia, entre ela as obras do pensador alemão Karl Mannheim (1893-1947). É interessante notar que Mannheim tem importante contribuição para se pensar as questões sociais do mundo contemporâneo, principalmente no campo da política a partir de seu livro Ideologia e utopia.

Outro trabalho de grande valia para se pensar questões ideológicas é o livro do professor catedrático da USP, Alfredo Bosi. Ele escreveu o livro Ideologia e contraideologia. Em determinado trecho desta obra, o autor busca no filósofo inglês Francis Bacon, o Visconde de Alban (1561-1626), algumas concepções que faz com que o leitor astuto – não aquele que quer apenas criar panfletos para ludibriar eleitores incautos – compreenda os diversos idolatras e o sentido de suas visões de mundo. Já me referi aqui a esses ídolos travestidos de tribunos, mas como o escopo hoje é tentar entender o país a partir dos castelos discursivos que estão espalhados pelas praças, que são públicas – como afirmou certa vez o poeta dos escravos (Navio Negreiro), Castro Alves (1847-1871): “a praça é do povo, como o céu é do Condor” – vale o registro a partir dessa perspectiva. “Os ídolos, embora aninhados na mente dos homens, só se entendem se os indivíduos que neles crerem forem observados na trama social ou, para dizê-lo com palavras modernas, no interior de suas respectivas culturais”, afirma Bosi.

O professor da USP indica que para o autor de Novum Organum [Francis Bacon] “há dois tipos que seriam comuns a todos os homens: os idola tribus e os idola specus”. Os primeiros “formaram-se em tempos remotos, mas sobrevivem no estado político civil: são as falsas explicações dos fenômenos naturais, devidas à debilidade dos sentidos quando não retificados pela experiência e pela razão. São as fantasias e ilusões que trazemos de eras arcaicas e conservamos pela deficiência de nossa atividade perspectiva”. “Os idola spectus (ídolos da caverna) são imagens que recebemos da educação ou de acasos de nossa biografia. Não raro, nós as petrificamos sob a forma de noções fixas, opacas, a ponto de impedir que a luz da natureza nos esclareça e desfaça as generalizações abusivas que delas resultaram. A metáfora da caverna que obscurece o conhecimento real é de origem platônica, embora o método experimental de Bacon dê as costas ao idealismo epistemológico do filósofo grego”. Somente esse pequeno fragmento, retirado duma interpretação do pensamento de Bacon me permite uma significativa reflexão a partir dos trabalhos de Marx e do sociólogo francês, Emile Durkheim (18458-1917), autor de A educação moral (Editora Vozes, 2012).

Enfim, me parece de bom alvitre esta reflexão para um primeiro texto deste 2019, momento em que o Brasil passa a ser governado por um presidente com discurso virulento, e observações dúbias sobre as minorias, porém propondo uma sociedade unida e sem discriminação. Desta forma, é preciso que os mais afoitos, sejam de que lado estiverem da peleja política, abandonem o campo da panfletagem e do ouvir dizer e trabalhem mais, estudem mais, transformando informação em conhecimento, deixando de lado as palavras de ordem plantadas nos mais diversos altares e palanques a partir de idólatras mais interessados em manter a patuleia desvairada alienada e sem saber o verdadeiro sentido das sombras apontadas por Platão em seu livro República.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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