O real e o ficcional no existir humano

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Outro dia li numa reportagem jornalística que está crescendo o número de pessoas que buscam ajuda psiquiátrica e psicológica no Brasil. E uma das justificativas dos especialistas na área seria o avanço tecnológico e a crise econômica. Não pretendo me enveredar no campo da psique humana, até porque sou cientista social – profissional que analisa o comportamento do ser humano em sociedade e neste sentido, questões psicossomáticas e suas derivativas podem auxiliar num diagnóstico sobre as mazelas sociais e suas origens. Neste sentido, é que pretendo dialogar com os meus leitores nesta manhã de quinta-feira, tentando traçar limites entre o que ficcional e o que real na existência do homem que pretende ser sociável, todavia, esbarra em diversos obstáculos, entre elas a efemeridade do próprio existir ou a nadificação da própria vida.

Desta forma, quero buscar na Alemanha Oitocentista um dos principais poetas da língua germânica: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Na clássica obra Fausto, o germânico coloca a personagem principal para conversar com Mefistófeles – nada mais, nada menos que a própria entidade maléfica. Desse diálogo, o malfeitor diz a Fausto: “tudo o que existe merece perecer”. Nesta abordagem, o próprio existir precisa, num determinado momento do viver, deixar de sê-lo. Neste sentido, Immanuel Kant (1724-1804) – outro pensador alemão – afirma que o homem de fato nunca é, vivendo apenas na expectativa de vir um dia a ser algo. Nessa jornada para o além do tempo presente, para o metafísico, acaba se perdendo em fenômenos estéticos e artísticos, dai por que os gregos, cônscios da finitude da matéria biológica, terem eternizado suas passagens no mundo fenômeno através da arte. Se isso é fato, no passado tudo que se construía, mesmo sabendo que se deixaria de existir num futuro longínquo, no presente, aquilo que se edifica pela manhã se dissolve a noite. Enquanto isso está no campo material, dá-se um jeito, entretanto, quando essas dissolvências acontecem no âmbito sentimental, o quadro é outro.

Aqui nesse ponto, recordo uma conversa que tive com o sociólogo-filósofo francês Edgar Morin numa colóquio internacional numa universidade pública do Estado de São Paulo. Meu interesse foi sobre dois livros que ele havia acabado de publicar: um abordando a neurose e a outro a necrose – dois termos do universo biológico, mas que podem servir para pensar o homem aprisionado no universo ficcional odiando o mundo real, mas precisando sair das sombras das cavernas platônicas e encarar a realidade que o seu desleixo consigo mesmo cria diariamente. O medo das sombras erguidas pela própria inércia social e preguiça mental tem feito com os sujeitos sociais se tornem prisioneiros do ficcional e de um devir que nunca chegará, pois o desejo se dissolve num novo alvorecer diante de novos equipamentos que o capitalismo lança diariamente, objetivando facilitar a vida em sociedade.

Desta forma, a neurose, na chave proposta por Morin, é fruto do medo de não existir no vir a ser dum novo alvorecer. Esse temor de se tornar um corpo social inerte, gangrenado e necrosado tem provocado estragos no mundo, principalmente no campo do trabalho e no universo econômico. Aquela velha ferramentaria, geradora de metalúrgicos ensandecidos, grevistas e raivosos, está deixando de existir, contudo, outro pensador alemão, Karl Marx (1818-1883) já dizia em seu livro-panfleto O manifesto comunista – leiam antes de vociferarem isso e aquilo contra a obra – que a burguesia se revoluciona constantemente, inclusive afetando o próprio universo teórico responsável por uma virtual derrota do capitalismo. Essa observação tem provocado muita discussão, por exemplo, a partir da publicação do livro de Marshall Berman(1940-2013) “Tudo o que é sólido, desmancha no ar”. Neste sentido, se o mundo do capital e do capitalismo se transforma diariamente numa modernidade líquida, como nos diz o pensador polonês Zigmund Bauman (1925-2017), o homem precisa estar preparado para estas alterações, todavia, a sua estruturação social é pautada ainda na velha concepção burguesa de perpetuidade numa função: começa-se do chão da fábrica, passa-se por vários cargos e se aposenta num posto de comando. Isso já está ultrapassado por conta das revoluções na microeletrônica, no universo dos algoritmos e os chamados bigdatas.

Os algoritmos estão fazendo a festa, sem que muitos dos usuários do mundo da internet e das redes sociais percebam a sua nocividade, pois geram uma quantidade enorme de informações que podem ser comercializadas e utilizadas para diversas coisas, como mala-direta, induzir o sujeito a tomar decisões sem que este realmente esteja familiarizado com a temática. Não preciso ficar muito nesse assunto, até porque já foi explorado pelo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em sua última edição na área da redação, todavia, é preciso observar, como pode ser visto no filme Matrix, que a realidade virtual não pode suprimir o mundo material, pois o homem não é virtual, mas concreto. Neste sentido, a tecnologia é uma importante ferramenta facilitadora da existência corpórea e não o vital metal da manifestação da vida ativa em sociedade. E agora? Deve-se abandonar o universo tecnológico para um retorno a vidas anteriores e bucólicas, mais voltadas para a natureza? Parece-me que não se trata disso, mas tentar compreender a importância que essas ferramentas têm para a vida em sociedade, conciliando o mundo ficcional com o real.

O primeiro passo é saber que o real nunca pode ser substituído pelo virtual. Por exemplo, o contato humano, o olho no olho como se diz no jargão popular, deve sempre vir em primeiro lugar e o virtual ser utilizado quando necessário, entretanto o que se observa hoje é o contrário: o ficcional através das parafernálias tecnológicas ditam as condutas humanas que se massificam, de modo que é possível ver duas pessoas, uma ao lado da outra e cada uma em seu fantasmagórico universo abstrato. Num restaurante é possível ver pai, mãe e filhos se alimentando, todavia, todos estão muito distantes, cada um com o seu equipamento, vendo, assistindo não sei lá o quê, enquanto a conversa, a partilha, como disse certa vez o religioso penapolense Dom Mauro Morelli, fica em segundo plano e sabe-se lá quando isso existir. Portanto, o homem virtual está se confundindo com o real, sendo que este último é artigo de rara aparência. Ele existe, porém, apenas em sua casa e seu pequeno mundo, porque através das redes sociais se cria outra pessoa que passa a se interagir com outros seres fantasmagóricos, sem que ninguém saiba distinguir o que é do que não é e, nessa peleja entre homem e máquina, o ser vive angustiado por conta dum vir a ser que nunca chegará. Mas enquanto amanhã se perde num presente fragmentado, as pessoas vão se esfriando e esquentando a cada nova personalidade criada para um mundo do faz de conta, como nos contos de fada.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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