República e suas cidadanias

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Tem tanto assunto para ser abordado no meu texto de hoje que nem sei por onde começar: a eleição do capitão da reserva Jaime Bolsonaro (PSL); a questão envolvendo a problemática dos descendentes de africanos, os afro-brasileiros; aniversário da Proclamação da República ocorrido na semana passada – o evento aconteceu na madrugada daquele sábado, 15 de novembro de 1889 e teve como uma de suas causas o fim do escravismo no Brasil, decretado também num sábado, 13 de maio de 1888. Será que numa única reflexão eu consigo tratar de questões tão emblemáticas para o país que emergirá no dia 1.º de janeiro de 2019? Espero conseguir, caso não, meu caro leitor, eu te peço desculpas por ter fracassado em meu objetivo.

Bem a lá Machado de Assis – que pretensão minha querer me equiparar ao fundador da ABL (Academia Brasileira de Letras) – iniciarei do fim para o começo, ou seja, da última enunciação, isto é, a questão republicana, passando pelo escravismo cujas marcas permanecem até hoje entre nós, através do que o professor da USP, Demétrio Magnoli chama de capitalismo senzaleiro. A conclusão se dará na eleição de Bolsonaro numa das eleições mais violentas, pelo menos do ponto de vista verbal, abstrato e simbólico, ocorrida no Brasil nos últimos 60 anos. Parece-me que a truculência é fruto da inapetência de boa parte do povo brasileiro em debater democraticamente os rumos que o Brasil deveria tomar a partir do próximo ano, tendo como pressuposto um programa de governo para o país e não um projeto de poder pessoal como se tem assistido nas últimas décadas, para não dizer, durante toda a vigência republicana – um exemplo banal disso é quando um líder tupiniquim da política paroquial esbraveja que o seu desejo é chefiar o governo duma determinada localidade.

O ocaso monárquico, todos estão cônscios em saber que não tem início com o fim do escravismo e sim com as sucessivas crises que vinham abalando o trono desde o final da década de 60 do Brasil Oitocentista. Há quem acredite que a coisa já periclitava a partir do golpe da Maioridade quando Dom Pedro II – então com 15 anos – tornou-se o monarca brasileiro. Para saber um pouco mais sobre esse processo e os bastidores da ascensão do filho de D. Pedro I, recomendo entre outros, o livro do brasilianista Roderick J. Barman: O imperador cidadão, além de vários textos presentes em livros organizados pelas centenas de pesquisadores brasileiros. A questão escravista também foi elemento norteador das disputas no subsolo do poder real na Corte Imperial instalada na cidade do Rio de Janeiro, inclusive provocando a ruptura do escritor cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877) que, na condição de político e deputado, perdeu a indicação imperial para o posto de senador vitalício da monarquia brasileira.

A rusga do escritor com o imperador teve como fulcro principal a questão servil. Alencar era contrário ao fim do trabalho servil por intermédio da intervenção governamental. José de Alencar era um liberal conservador que defendia arduamente o direito de propriedade, como se pode constatar em sua obra A propriedade (disponível gratuitamente no site do Senado Federal: http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/496202). É interessante notar que, ao não conseguir ver suas ideias adotadas pelo trono no que diz respeito ao universo escravismo, segundo as quais, o sistema seria desmontado de dentro da fora e a partir das relações cordiais entre escravos e escravagistas, Alencar passou a externar seus pontos de vistas a partir de sua obra romanesca, entre ela, O tronco do ipê. Outro detalhe a ser ressaltado é que a utopia alencariana, segundo a qual o africano cordial que aceitava as sevícias praticadas por escravocratas empedernidos como forma de civilizar-se, pode ser encontrada no livro Política, de Aristóteles. Desse rompimento, Alencar escreveu uma série de cartas endereçadas a Dom Pedro II e intituladas Cartas de Erasmo ao Imperador (o livro está disponível no site da Academia Brasileira de Letras http://www.academia.org.br/sites/default/files/publicacoes/arquivos/cartas_de_erasmo_ao_imperador_-_jose_de_alencar.pdf). Parece-me que a leitura dessas obras possibilita ao brasileiro entender um pouco a gênese deste Brasil que quer ser moderno, porém atolado até o último fio de cabelo – como se diz no jargão popular – no arcaico, no velho princípio coronelístico que resiste à sua morte. A modernidade ai está, todavia, ainda não teve forças para sepultar de vez a velha política. Por que será?

Será que há ausência de cidadania? Depois de conversar com muitas pessoas, ler muitos jornais, revistas, livros históricos e sociológicos, eu acredito que foi um escritor russo duma Rússia feudal quem deu o melhor diagnóstico sobre um povo que se recusa a ser cidadão de fato. Fiódor Dostoievski (1821-1881) disse certa vez que “o homem social é incapaz de tolerar a liberdade e está disposto a trocá-la pelo líder que lhe garanta pão e segurança”. O literato polaco e a história romana com o seu pão e circo que o digam. Todavia, é preciso observar se aqui no Brasil a situação se repete, ou se não há a menor condição de se aplicar as ideias e as observações de Dostoievski justamente porque o brasileiro, além de democrático é antenado com o universo da política. Novamente é a instalação da República que poderá nos dar o tom da resposta ou a nota musical exata para entendermos porque, por mais que o brasileiro discuta política, ele ainda não a conhece como ela é e não como ele, cidadão, gostaria que fosse. A cidadania não acontece apenas quando se confirma um voto na urna. Esse é o momento de sua consolidação, pois o seu início se dá no campo educacional e este foi negado durante séculos ao indivíduo convencional, ou seja, aquele que estacionado nos degraus de baixo da escala social nacional.

Desta forma, sem educação, cultura, como seria possível participar ativamente das decisões na polis? Sendo assim, ainda me parece que a frase de Aristides Lobo, por ocasião da queda da monarquia, continua ecoando nessas primeiras décadas do século XXI: “o povo assistiu a tudo bestializado, como se estivesse vendo uma parada militar”. Muitos dirão que no presente, o indivíduo vota, decide, vai pras ruas, faz passeata disso e daquilo! Compreendo que seja assim, entretanto, tudo isso ainda não foi capaz de mudar a cara do Brasil. Um exemplo desse processo encontra-se no Congresso que foi eleito no último pleito. Enfim, o que o país espera a partir de 1.º de janeiro do próximo ano na perspectiva política, evidencia que ainda falta muito para que a Nação alcance a tão sonhada modernidade no campo da representatividade política.

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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