Educação, docência e democracia

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Como os meus leitores podem observar, a reflexão de hoje pretende atingir uma trindade sagrada para qualquer cidadão, seja no Brasil ou noutro lugar do orbe terrestre em que se pense a emancipação do sujeito social. Mas como é possível chegar a essa esse triangulo equilátero? A interpelação tem como escopo o fato de que no presente, ao que tudo indica, ainda é um escaleno, ou seja, de três lados diferentes, mas o são por quê? Em primeiro lugar, não se pode deixar de evidenciar o descalabro em que se encontra o setor educacional no Brasil. A culpa é de quem? Cada uma das partes que formam a geometria pedagógica aponta o dedo para os outros lados, sem que ninguém faça nada de produtivo ou, quando adota medidas, são paliativas, sem consultar todos os envolvidos na peleja educacional. Essa prática das autoridades educacionais objetiva sempre maquiar o defunto para que este fique lindo enquanto o féretro segue intocável para o cemitério da Nação.

Não cansarei meus leitores com aquelas mesmas palavras de sempre, isto é, que a educação é isso, que ela é aquilo, sem, no entanto, apontar caminhos para tirar o país do cadafalso em que está e, as últimas eleições evidenciaram essa problemática. Desta forma, reitero que o meu escopo aqui – quiçá interpretações enviesadas que alguns dos que percorrem as linhas que se seguem farão, objetivando sempre encontrar algo que não está explicitado nos verbos, adjetivos, predicados, substantivos, entre outros – é tão somente o de tentar trazer um pouco de iluminação – será que posso? – às cabeças quase que retrogradas que não conseguem concatenar adequadamente as questões alusivas aos três temas propostos na nomeada deste texto semanal. Neste sentido, como pensar a educação e seus processos quando o princípio constitucional é desrespeitado em nome de determinadas conjunturas político-sociais – para ficar apenas nesses dois campos? O primado básico da Carta Magna publicada em 1988 – que não teve como signatário um dos partidos que chegou ao segundo turno das últimas eleições presidenciais – é a tal da equanimidade, ou seja, que todos são iguais conforme a lei máxima da Nação.

Onde se aprende a observar esse princípio básico da vida em sociedade? Em casa, na escola, na rua, no botequim da esquina, nas conversas fiadas de quem não entende direito do universo pedagógico-educacional e almeja enquadrar professores que pensam diferente da cartilha que se objetiva implantar a partir de 1.º janeiro de 2019? Parece-me que o campo educacional, através da chamada socialização secundária, é o mais indicativo para se iniciar essa prática, conforme nos diz o intelectual americano Peter L. Berger (1929-2017) em sua obra A construção social da realidade, e também no livro Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. É preciso explicar que não se trata de nenhuma doutrinação, como eu tenho observado nos últimos tempos muitas vozes dissonantes dizerem. A questão é mais emblemática do que se parece, pois quem desconhece o universo pedagógico começa a dar palpites, numa tentativa de nivelar os docentes colocando-os dentro dum saco de gatos, classificando todos como sendo de esquerda ou coisa que o valha. Como sempre apontei, os riscos de se generalizar pode levar a sociedade a cometer atrocidades, das quais as mais evidentes são os preconceitos raciais, entre outras formas de discriminação: isso acontece porque se adjetiva o sujeito a partir do que se acreditar ser o correto. Devo lembrar que no século XIX trafegou por entre os brasileiros oitocentistas uma visão bem superficial e equivocada da teoria craniológica – quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre isso, basta consultar o livro da antropóloga e professora da USP, Lilia Moritz Schwarcz – O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). Alguns dirão que ler e refletir sobre todas essas obras dá muito trabalho, melhor ficar com os famosos chavões cuspidos do alto dos principais assentos palacianos dando voz ao que dizia o narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas. Para este enunciador, existiam bandeiras que tremulavam no alto do mastro distribuindo migalhas para aquelas que se movimentam entre a base e o alto do trono e, no sopé do mastro, estavam desfraldadas aquelas que vivem nos estratos inferiores da sociedade. O escritor Machado de Assis (1839-1908) teve um momento brilhante nessa enunciação, entre outras que confeccionam durante a sua vida literária.

Mas permanecendo no campo educacional, dentro do que prevê as questões alusivas à socialização primária como conteúdo programático na primeira série Ensino Médio de todas as instituições de ensino do Estado de São Paulo. Vejam bem, meus caros leitores, não se pode confundir socialização – mecanismo pelo qual os sujeitos se tornam entes sociais através de conhecimentos adquiridos primeiramente dos pais e responsáveis e depois no interior das escolas – com socialismo. Embora as duas palavras semanticamente possam parecer semelhantes em suas fonéticas, elas não o são em seus significados, portanto, são dois substantivos distintos. Pois bem, se o papel da educação é auxiliar a estudantada a transformar informação em conhecimento, todos precisam observar quem são esses agentes de transformações, cujos principais protagonistas são os alunos e nenhum credo partidário e ideológico, como muitos dos desavisados e desconhecedores da prática pedagógica gostam de bradar, vociferar aqui e ali, justamente porque rechaçam um determinado tipo de governo que ficou no poder central do Brasil por 16 anos – por conta, vontade e risco do próprio eleitor que recentemente resolveu fazer outra aposta, mas uma escolha diferente não significa emitir palavras de ordem disso e daquilo, principalmente quando se desconhece a prática docente e a clientela que as escolas atendem.

Neste sentido, me parece que seria importante, antes de propalar coisas inverídicas ou “enquadrar” todo mundo como fazem as forças policiais em momentos que precisam dar as chamadas “batidas” revistando todos os frequentadores dum determinado local que pode ser suspeito de práticas ilícitas. Creio que dentro das escolas não existe tal comportamento docente, isto é, atos ilícitos quando todos estão lá apenas para exercer suas profissões tão combalidas e vista com descaso por toda a sociedade que agora quer criar – pelo menos é o que a verborragia corrente indica – mais empecilho para se exercer a docência. Quem milita na educação sabe o quão difícil está para encontrar quem está disposto a trabalhar 40 horas semanais e ganhar um salário que não se compara ao que outras pessoas recebem com o mesmo nível de formação superior. Sendo assim, acredito que esta se falando muito, se produzindo pouco. Antes de se pensar em impor mordaças no setor pedagógico, policiando os professores, faz-se necessário verificar em que condições, nós docentes, estamos diariamente tentando transformar informação em conhecimento. Se for iniciar a análise pelos discentes, a maioria dos educadores sabe o quão complexo é lidar com essa clientela que chega para eles sem o menor valor ético e moral, coisa que dever vir dos pais e não da escola, todavia, eles terceirizaram tudo e ainda adjetivam o responsável por instruir seu filho disso e daquilo. Desta forma, a pergunta que não quer calar é: e a democracia, onde fica?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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