As eleições através do pincenez machadiano

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Calma, meu caro leitor! Sei que tu deve estar enfadado de tanto que escrevo sobre um dos maiores gênios da literatura brasileira, isto é, Machado de Assis (1839-1908), ou de José de Alencar (1829-1877), bem como de Lima Barreto (1881-1922). Esse trio de escritores nos legou uma vasta enunciação que passa pelo campo romanesco, indo para as crônicas, textos críticos e políticos, portanto, os três seriam excelentes convidados da minha ceia noturna deste domingo para comentarmos os resultados do segundo turno das eleições quase que gerais deste ano. Fico cá com meus livros e demais narrativas dos três brasileiros significativos das letras nacionais, pensando como ambos analisariam a briga de foice que está sendo esse pleito, recheado de muitos extremismos e pouca clareza, racionalidade na qual o campo da passionalidade nadaria de braçadas.

Talvez seja interessante eu consultar a sibila do conto A cartomante ou até mesmo Bárbara, personagem do penúltimo romance machadiano Esaú e Jacó. Entretanto, daria muito trabalho viajar para o Rio de Janeiro do século XIX e encontrar as duas pítias cariocas. Sendo assim, melhor seria eu mesmo tentar entender a cabeça do eleitorado brasileiro nesta reta final de eleições que decidirão o futuro do Brasil ou quase isso! É importante ressaltar que, pelo que pude observar tacanhamente do meu assento cá do lado de cá da leitura dos meus leitores, é que ninguém apresentou ideias significativas sobre qual Brasil começar-se-á a edificação das políticas públicas a partir de 2019. Eu só consegui vislumbrar uma discussão desenfreada sobre nada de nada, indo para nada, parecendo uma locomotiva desgovernada em que todos, passageiros e transeuntes num apavoramento só, sem que não se tenha uma ideia plausível para deter o descarrilamento dos vagões, querer saber o que fazer.

Diante da constatação, não tenho nada para acrescentar nas próximas linhas e posso te afiançar meu caro leitor, que o texto desta quinta-feira, feriado municipal, se encerra aqui. Portanto, eu o dispenso do calvário de continuar a perseguir as minhas reflexões eleitorais, a não ser que muitos de vocês sejam como este que vos escreve, isto é, almeja para as próximas eleições mais debates racionais, pautados por ideias e propostas salutares para fazer esse Brasil sair do atoleiro e da recessão em que se meteu por conta de diagnósticos errados e dum populismo econômico desenfreado. Ainda estão vivas em minha memória, a entrevista que um líder do governo que se derreteu diante da corrupção endêmica. Segundo esse arauto populista, o brasileiro não estava preocupado com questões macroeconômicas e microeconômicas, mas sim se as prestações que pagam mensalmente por conta de aquisições de bens não duráveis – mas que fornecem excelente status aos seus possuidores – cabiam em seu bolso. Resultado: todos sabem no que deu. Dificuldades financeiras, desempregos, mais especificamente 14 milhões de indivíduos que perderam seus trabalhos por conta da crise política que se abateu sobre o universo econômico.

O resto dessa narrativa todo brasileiro consciente, e até mesmo aquele que vive num “mundo do faz de conta”, ou seja, dos contos de fadas em que nos finais das narrativas, todos foram felizes para sempre, sabem: tragédia após tragédia, principalmente no campo assalariado. Mas ainda há uma saída: o voto! Mesmo que há duas mercadorias que não apetecem muitos brasileiros, a meta é ir ao longo dos próximos 48 meses, aprendendo e compreendendo o real da vida política e não aquele que os políticos gostam de contar durante as campanhas eleitorais, cujo escopo é angariar votos, principalmente dos desavisados e analfabetos políticos que se recusam a discutir política, contudo, escolhem um dos lados da peleja eleitoral e sai distribuindo safanões em quem pensa diferente. Sei que o aprendizado político-eleitoral passa pelo conhecimento e pela construção de sólidas cidadanias e, em muitos casos, não se tem tempo, pois a vida urge e é preciso, durante o dia ganhar o pão que se colocará na mesa durante o jantar, todavia, no presente, enquanto se desgasta tentando impor suas verdades quase que absolutas, pelo menos, essa é a visão daqueles que se entendem como donos da razão, bem que esse tempo poderia ser usado como momento de se instruir sobrea as coisas do Brasil, por exemplo, com o debate em torno da Constituição Federal, promulgada em 1988.

Todos, ou pelo menos a maioria, podem escudar suas justificativas na falta de tempo, na ausência de paciência para adquirir conhecimento sobre esse significativo universo da governança do país. Diante dessa constatação, é mais fácil optar pelo mantra: “política não se discute!” Enquanto isso, os escolhidos deitam e rolam com o dinheiro público que é de todos e, no final das contas, os brasileiros ficam reclamando disso e daquilo, mas quando precisam prestar atenção no sim das urnas, preferem primeiro se engalfinharem com seus semelhantes como se estes fossem seus inimigos. Na ausência da razão que deveria rechear os debates, sobram paixonites e muita desrazão, tornando-se campo fértil para as intolerâncias de todos os tipos e discursos. Sendo assim, onde sobra truculência, a serenidade é a grande ausente e quando isso diz respeito ao universo da política, quem perde é a democracia, principalmente a brasileira.

Lógico que a democracia é um terreno pantanoso, ainda mais num país pouco acostumado e afeito a ela. É preciso lembrar que a nossa Constituição Federal completou agora 30 anos. Desta forma, há que se percorrer um longo caminho antes que os cidadãos com e sem cidadania parem de se engalfinharem por conta de mercadorias-políticas que, em suas essências, já estão avariadas e em virtude de vários fatores. Não vou ficar aqui mostrando essas dificuldades e seus respectivos defeitos, pois o meu escopo aqui não é ficar apontando o dedo para um dos candidatos ou os dois. De qualquer forma, a minha preocupação não é com o resultado logo mais das urnas, e sim com a democracia e com o futuro da cidadania nacional. O fulcro desta minha inculcação são os últimos lances da partida de xadrez que vai decidir o ocupante do principal assento na estrutura de poder brasileiro, isto é, no Palácio do Planalto, bem no coração do Brasil. Enfim, a questão nevrálgica é: a democracia sobreviverá a mais essa falta de cidadania dos eleitores? Com a resposta as urnas neste domingo e os eleitores brasileiros.  Seria que José de Alencar, Machado de Assis e Lima Barreto enxergariam a peleja de logo mais, da mesma forma que este fã incondicional do trio, observa?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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