Perspectivas brasileiras

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Na próxima semana chega ao final o suplicio brasileiro, principalmente daqueles que têm consciência política e isso não quer dizer ficar alheio à decisão do pleito eleitoral, ou até mesmo de votar em branco, nulo, deixar de comparecer à sua seção de votação – pagar multa -, ou optar por escolher entre as duas mercadorias que estão sendo vendidas no mercado eleitoral. Por que calvário daqueles que são cônscios de suas cidadanias, deve estar-se perguntando o meu leitor. Por uma questão muito simples: é um tal de “[…] a minha mercadoria vai resolver os problemas do Brasil, vai prender todos os corruptos, lavar, varrer os retrocessos de Brasília”, lembrando um personagem folclórico do cenário político brasileiro – o ex-presidente Fernando Collor de Mello eleito presidente do Brasil em 1989 pelo extinto PRN. Do outro, se encontram sujeitos políticos dizendo que os tempos de bonanças e abastanças gozadas pela população por intermédio dum certo populismo econômico – cujas consequências todos estão sentindo na pele, principalmente o trabalhador com baixa qualificação – voltarão!

Esse é o quadro da próxima semana, momento em que os embates entre os incautos e desavisados defensores da política de rodapé, se engalfinharão para tentar convencer o indeciso qual é o melhor lado da prateleira do supermercado eleitoral. Os embates fratricidas que prometem ceifar muitas amizades, principalmente dos descuidados que acreditam que mais vale um voto em determinado candidato do que manter laços afetivos com alguém que lhe é importante, e olha que, segundo pensador Aristóteles em seu livro Ética a Nicômacos, o ser humano se torna parceiro de terminadas pessoas quando essas são portadoras de valores, coisas e virtudes que estão ausentes no outro. Por exemplo, o amigo não é aquele que diz o que se quer ouvir, mas aquilo que o seu interlocutor precisa escutar. Talvez por isso que ter e ser amigo na contemporaneidade seja tão complexo, pois ninguém está disposto a doar algo de si para o seu semelhante, entretanto, é preciso ter claro que para se doar alguma coisa a alguém, primeiro é preciso se possuidor desse algo, e ai entra a máxima socrática: conheça-te a ti mesmo ou, se preferirem os cristãos entenderem o que Jesus Cristo enunciou quando afirmou: “eu vos deixo a minha paz, eu vos dou a minha paz!” Como alguém pode doar paz ao outro se está em constante guerra consigo mesmo?

Deixando a esfera religiosa e filosófica para outro momento, já que para este o meu escopo é tentar entender quais são as perspectivas para o Brasil que começará uma nova jornada no campo socioeconômico e político a partir de 1.º de janeiro de 2019. Não estou cá projetando, analisando um país a partir da vitória dum petista, cujo arauto está envolvido, conforme investigações da Operação Lava Jato, até o último fio de cabelo – como se diz no jargão popular – em atos delituosos que fraudaram os cofres públicos – vejam bem, meus caros leitores não sou eu quem o está acusando e sim o Ministério Público Federal e, quem o está sentenciando é a Justiça Federal; concordem ou não, o Homem de Garanhuns está condenado a uma pena de mais de 12 anos de reclusão, mesmo que a sentença ainda não tenha transitado em julgado, como se diz no jargão do Judiciário. Mas, por outro lado, temos um postulante que diz um monte de coisas, afronta à sociedade, afirma que em seu governo eliminará a “petralhada” e, diante da repercussão negativa de seu discurso desastroso, desdiz explicando que tudo não passou de brincadeira. Tem outras pérolas que o candidato-capitão-reformado disse durante o período eleitoral que serão usadas pelos seus adversários, empobrecendo assim o que é mais importante para a Nação, o debate sobre projetos para se governar o país e auxiliando a locomotiva brasileira voltar aos trilhos. Neste sentido, não tem como eles ficarem vociferando promessas e milagres farisaicos, do tipo que se vai exterminar isso e aquilo, que a corrupção, quiçá como dizia o “caçador de marajás”, desaparecerá num passe de mágica, ou melhor, num ato de prestidigitador-presidente, da noite para o dia.

Existem situações alardeadas pelas mercadorias-políticas que só podem ser revertidas com uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) via Congresso Nacional. Portanto, o presidente, ou melhor, o Executivo pode vomitar promessas em cima de palanques que, se não contar com a anuência do Legislativo Federal, nada sairá do papel. Tem-se registrado dois episódios de presidentes que tentaram governar sem o aval de deputados federais e senadores e acabaram apeados do principal assento de Brasília: o ex-presidente Fernando Collor de Mello em meados da década de 90 do século passado e, mais recentemente, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Não se pode perder de vista, a tentativa do político populista Jânio Quadros (1917-1992) que, logo no começo de sua gestão à frente do Executivo Federal, no início dos anos 60, pediu renúncia acreditando que o Congresso imploraria para ele ficar, ou, que voltaria a ocupar o assento carregado pelo povo. Todos sabem no que deu: anos depois os militares tomaram de assalto o poder e permaneceram lá até 1989. Desta forma, antes de apertarem o “sim” ou qualquer “não” seja ele para anular, votar em branco ou ficar em casa, é preciso que o eleitorado tenha certa maturidade neste momento e não escolha com base na paixão – que torna o universo da política um terreno pantanoso e passional.

Uma das questões que intrigam antropólogos e cientistas sociais renomados e, este que vos escreve meus caros leitores, é a questão envolvendo as reservas indígenas. O que pude observar durante esses mais de 30 anos estudando o comportamento humano em sociedade e ai inclui os povos indígenas e não fui uma única vez, mas várias, dezenas, centenas de oportunidades que ouvi vozes desdenhando das comunidades indígenas e quilombolas e a desnecessidade de mantê-las. Em primeiro lugar, é preciso compreender que essas áreas compõem duas, das três matrizes étnicas que estão na base da formação racial brasileira – embora eu entenda que essa problemática envolvendo a conceituação de raça deve ser debatida com mais acuidade, uso aqui a definição deita pela ONU (Organização das Nações Unidas) décadas atrás. Desta forma, creio ser necessária uma compreensão maior sobre a contribuição indígena e quilombola para a construção do Brasil – não preservá-las significa eliminar o passado. Neste sentido, acredito que um país que não conhece o seu passado, dificilmente conseguirá construir um futuro. Sendo assim, qualquer candidato ao cargo máximo do Brasil que vier com projetos desta envergadura deve ser visto com outros olhares que não os imediatistas. Há outros itens controversos nas pautas das mercadorias políticas que serão comercializadas na próxima semana como salvadores da pátria dum país com fortes resquícios senzaleiros.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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