O vir a ser eleitoral

Gilberto Barbosa dos Santos

 

As eleições estão por vir, parafraseando o filósofo iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804) para quem o homem nunca será, já que é um eterno vir a ser, isto é, nunca um ser concreto, mas um ente em constante construção. Neste sentido, a peleja eleitoral de hoje não se encerra com um sim ou um não nas urnas logo mais em outubro. Isso ocorre porque as demandas do Brasil, enquanto Nação que ainda convive com os resquícios de mais de 300 anos de trabalho escravo, não se encerram em projetos, propostas e decretos sejam eles de qual esfera for. Essa é a singela opinião de quem está escrevendo-vos, meus caros leitores com base no que se tem dito aos quatro cantos do Brasil: muito palavrório, sem nada de concreto, mesmo que o universo da política seja repleto de promessas e outras infinidades de verborragias sem que ninguém tenha conseguido colocar fim a tanta sangria e sandice ideológica, beirando a gabolice e a fanfarronice.

Pronto! O texto de hoje está concluído e aqueles que me acompanham semanalmente, não precisam mais se dar ao trabalho de percorrer as linhas que se seguem. Basta mudar de página e acompanhar as reportagens que o INTERIOR publica nesta quinta-feira. Agora, se quiserem continuar aqui comigo, então caminhemos pelo emaranhando do mundo da política brasileira, onde todos ou, em sua maioria, não conseguem entender muita coisa sobre essa área. Sendo assim, creia-me, meus caros, existem duas instruções que o brasileiro precisa ter ou adquiri de alguma forma: educação financeira e política. Hoje pretendo me ater apenas à segunda categoria, já que objetivo tratar de um problema endêmico do ponto de vista nacional: a incapacidade do brasileiro de fazer as devidas conexões de sentido através dum discernimento dado a partir do campo racional do existir. Quem são os políticos que ocupam os principais assentos nos mais de cinco mil municípios do país? Ainda: quem preside os Executivos dessas paragens, mais os 27 estados e o Nacional?

Todos aqueles que se apossaram de tais postos, lá estão por culpa ou conduta equivocada do cidadão desavisado, ou daquele que gosta de bradar que não está nem ai para o mundo da política, pois todos os políticos são iguais. Se isso é fato, e ao que tudo indica é o mantra nacional, então a Nação está infestada de eleitores corruptos, como dizia o compositor Dicró na música “O político”! Claro que fazer tal afirmativa é nefasto, pois não se pode generalizar, entretanto, sabe-se que há uma prática, desde os primórdios desta República em 1889, que manteve vícios e manias perpetrados desde a chegada da família Real em 1808, personificado na prática do “beija mão” encastelado no reinado de D. Pedro II. Senão de todo, mas em grande parte, o cidadão que escolhe seus representantes está de olho na parte que lhes cabe na divisão do bolo sovado com o suor do trabalhador, o que torna os pleitos vigentes apenas demandas privadas no campo do público e, em virtude disso, o caminho precisa ser cimentado pela política partidária. Para cessar tais simbioses nefastas para o futuro do país, o brasileiro deve se inteirar melhor dos preceitos constitucionais, ou seja, ler a Carta Magna, compreender suas historicidades e suas pretéritas demandas e compreender se as mesmas estão contempladas no corpo da Constituição de 1988. Se não foram, o que é preciso fazer para que ocorra num futuro não muito distante?

É ai que, ao que me parece, o indivíduo deixa a desejar, pois conforme nos aponta Guilhermo O’Donnell no trabalho Democracia delegativa. Segundo o cientista social, o sujeito social transfere para o outro aquilo que lhe é de direito, indicando que este, o eleito pode fazer o que quiser, desde que preste conta de seu mandato. Todavia, as contas precisam ser comparadas com um acompanhamento do trabalho do parlamentar, ou dos chefes dos Executivos. A fiscalização deve começar pelos legisladores e ter por base o que o texto constitucional e suas várias leis e dispositivos preveem. Quem é capaz de fazer esse trabalho com maestria? Os vereadores, os deputados e senadores, contudo, em sua maioria, estão comprometidos com seus financiadores privados. Muitos dirão que agora a coisa vai mudar, já que a dinheirama privada nas campanhas dos pleitos foi vetada. Enganam-se aqueles que acreditam nessa mandiga política. Primeiro porque, se numa ponta nossos amáveis políticos e representantes no Legislativo Nacional concederam ao povo esse mimo, na outra, proporcionaram outro rombo aos cofres do Tesouro Nacional quando aumentaram os valores que o Governo Federal destina aos partidos para que estes disputem seus pleitos, evidenciando ai uma grande tutela do Estado às legendas que deveriam ser privadas e não mistas, ou ainda, de cunho privado, mas com financiamento público como é hoje.

Esse é o grande problema, pois ainda não há, na tradição política brasileira, partidos políticos, mas sim feudos e confrarias dominadas por líderes messiânicos e seus séquitos de bajuladores. Não adianta dizer que tal legenda, que ficou no poder por mais de uma década aqui e por duas décadas ali, é um partido em que todos disputam internamente, debatem posturas, ideologias e seus líderes, ao cometem desatinos com o dinheiro público são aclamados por correligionários pouco afeitos à discussão de ideias objetivando a construção de uma Nação de fato. Todas as agremiações partidárias brasileiras discutem somente estratégias para se chegar ao poder, demonstrando haver apenas um programa que as conduzirão aos principais assentos dos poderes Executivos e Legislativos espalhados pelo país. Diante do exposto, fico com a sensação que todos os brasileiros, um pouco mais ou menos, sabem disso, no entanto, ou fingem que não existe, crendo viverem num país edênico ou aguardam o Salvador da Pátria, o Messias que vai livrá-los de todo mal sobre a Terra, ou o retorno de D. Sebastião. Porém, é preciso ter claro que o extermínio de tais legendas de aluguéis começa pela autorreflexão político-eleitoral, evitando delegar a culpa para outrem, contudo fica evidente no chamado voto de protesto que não muda absolutamente nada.

Tudo bem! Os meus leitores dirão que cada um tem o direito de fazer o que bem entender com o próprio voto. Até ai concordo, todavia, as consequências recairão sobre todo o país, Estado ou cidade e ai não adianta dizerem depois que não votaram, não escolheram, porque os fatos dizem tudo, contra os quais não se tem argumentos, a não ser que o eleito se autoproclamou vencedor da última peleja eleitoral. É preciso assumir as responsabilidades dos atos desastrosos praticados pelos seus escolhidos. Ao não fazerem isso, os eleitores evidenciam que não há um quantum, mesmo que efêmero, de consciência política, indicando que desconhecem os princípios básicos de que toda ação gera uma reação, e no caso do mundo da política, o voto de protesto pode se voltar contra aquele que protesta de forma desenfreada. Enfim, quando a categoria de políticos se fecha para defender seus interesses em detrimento do cidadão comum, é hora deste, associado ao seu conhecimento político reverter o quadro e se conscientizar de que o poder é do povo e não do eleito. Mas ao que tudo indica, não será desta vez que o Brasil assistirá essa ação cívica, mas não se pode deixar de lutar e acreditar que as gerações futuras darão um basta nesse teatro dantesco e show de horrores que sempre foram às eleições no país.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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