Novidades na esfera existencial

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Lembro-me que quando comecei a aprofundar um pouco mais meus estudos sobre pensamento filosófico do alemão Martin Heidegger (1889-1976), cheguei a publicar na imprensa penapolense um artigo sobre uma problemática levantada pelo intelectual que fora reitor numa universidade da Alemanha durante o regime nazista. Qual seja: a finalidade do homem diante de sua finitude e se este era um ser fadado à morte. Pois bem, passados quase três décadas daquele texto, eis que retorno àquele tema, contudo, com outras nuanças respaldadas em leituras e motivos diferentes, como por exemplo, a obra do filósofo francês, Michel Lacroix, O culto da emoção.

Posto isto, me parece que a temática é importante para esse momento em que as pessoas começam a prestar mais atenção num fenômeno social que, muitas das vezes passava despercebido porque dizia respeito apenas aos envolvidos na tragédia. O sociólogo francês Emile Durkheim (1858-1917) analisa o comportamento do suicida a partir duma ferramenta metodológica que ele designa como anomia, ou seja, uma ruptura entre o concreto e o vir a ser – uma espécie de vertente sociológica de um tipo específico de pensamento kantiano. O conceito de anomia é usado por Durkheim, por exemplo, para explicar as transformações ocorridas a partir da Revolução Industrial que provocou a passagem de uma sociedade tradicional para uma industrial, modificando completamente a existência a partir daquele momento.

Mas será que esse raciocínio sociológico, utilizado no campo econômico e social, serve para buscar compreensão no campo emocional, principalmente aquele que provoca a morte da vítima a partir do seu próprio desejo, mesmo sendo este visto como insano? Dependendo do ponto de vista do qual se olha, é possível que sim. De acordo com os principais trabalhos do francês, os dados podem respaldar as abordagens que o cientista social fará. Desta forma, os índices de suicídios tendem a informar que a ação de tirar a própria vida por ser marcada por algum fato externo à vontade do sujeito, portanto, coisas que não lhe são imanentes. Se for desta forma, quais foram os motivos que acabam levando a pessoa a eliminar a própria existência? Pode ser depressão, problemas econômicos, passando pela falta de sentido no próprio viver.

Parece-me que com a modernidade, definida pelo pensador polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) como liquida, a situação emocional ficou mais precária e os sujeitos sociais cada vez mais se veem órfãos de algo que ainda não têm, já que o que se produz pela manhã será dissolvido no período da tarde, de acordo com o também sociólogo norte-americano Marshall Berman (1940-201) em seu clássico Tudo o que é sólido, desmancha no ar. A falta de perspectiva num futuro não muito distante pode colocar o indivíduo diante de sua nadificação e a constatação de sua finitude, não apenas física, mas econômica e social e daí medo de se tornar um corpo gangrenado. Sendo assim, por que e para que continuar a existir, se o mundo global de mercadorias se apresenta um a cada momento existencial? O ato final do ato de resposta a essa interpelação pode ser o próprio óbito, mas não o provocado por algum infortúnio físico, mas pelo peso numa consciência atormentada pelas vicissitudes da sociedade, seja ela capitalista ou não.

Entendo que há dois momentos marcantes no universo social do suicida: o primeiro é quando ele define conscientemente que chegou ao fim a sua própria existência. O segundo é quando o sujeito finalmente lhe aplica a sentença capital. Existem aqueles que elaboram a urdidura mortal por dias, meses e anos a fio e, há os que decidem de imediato. No primeiro caso, há sinais claros de que a tragédia é iminente e o no segundo, algo muito nefasto acontece, deixando todos estupefatos com a ação, já que o suicida não emitiu nenhum sinal de que poderia dar um fim à própria existência. Com relação a isso, há diversos relatos de quem partiu, de quem ficou e o sofrimento deixado por aquele que se deixou levar pelo pânico e melancolia provocadas por uma perda repentina, como por exemplo, o fim dum relacionamento, entretanto, as partes continuam existindo, sendo que um dos dois não suportaria continuar vivo enxergando sempre o ente amado, sem poder tocá-lo, conversar e planejar o futuro juntos. Portanto, o amanhã deixa de ser uma possibilidade a ser vivenciado e compartilhado.

Por outro lado, os cientistas sociais devem se atentar para o culto egocrata que a modernidade estimula. Aquilo que Lecroix define como “culto da emoção”. Segundo ele, “é a forma atualmente assumido pelo culto do eu” propagandeado pelos papéis que cada um dos seres sociais desempenha na sociedade mercadológica. Portanto, o sujeito não é, vivendo um eterno vir a ser, personificado nas seguintes observações: “quando eu possuir isso, quando eu for promovido, quando eu chegar lá, etc.” Tudo fica para depois quando a situação estiver melhor, o mundo real for idêntico ao imaginado, para pensar o universo inteligível propalado pelo filósofo grego Platão. Neste sentido, Paulo Arantes em seu livro Novo tempo no mundo, me parece ser esclarecedor quando diz que o momento é o de espera. Aguarda-se por tudo enquanto o homem fica postado diariamente em filas quilométricas à espera de um carimbo, duma autorização e durante esses longos momentos, a vida lá fora vai passando, passando a exemplo do que tentou externar o pintor espanhol surrealista Salvador Dali (1904-1989) em seu quadro Horas moles.

Se o tempo presente é o do governo do “eu” e também de uma enorme e agônica espera, como é que ficam aqueles indivíduos que não tem apetência para serem administrados pelo culto narcísico do “ego”, nem tampouco, paciência para esperar que fatos novos ocorram em suas existências finitas?  Seria o fim da própria existência a saída mais prática? Será que o suicida grita a dor interior, como é possível vislumbrar no quadro O grito (1893), do pintor alemão Edvard Munch (1863-1944)? Muitas das vezes, ele pode estar emitindo sinais, todavia, a plateia ocupada em aumentar seus ricos metais preciosos e capitais não presta atenção no lamento silencioso emitido por quem sofre de algum tipo de angustia, depressão ou outra moléstia que pode provocar aquilo que Durkheim define como anomia, ou seja, a ruptura entre o real, o concreto e o vazio, a nadificação, o vir a ser que passa a ser constante, todavia, nunca se concretiza. Enfim, é preciso compreender o que leva uma pessoa a rodear, derredar e, enfim, colocar fim à própria existência. Aqueles que se foram ficarão apenas na memória dos entes que ficaram, contudo, as pegadas que deixaram podem ser uteis para que novos desfechos trágicos possam ocorrer num futuro não muito distante.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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